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Blogue do Apostolado da Oração

FELIZ ANO NOVO

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“Feliz Ano Novo!”. “Happy New Year!”. “Felice Anno Nuovo!”. A mensagem foi partilhada por uma pessoa amiga. “Caiu-me” estes dias no meu perfil de uma rede social. No meio de pensamentos tão distintos, entre imagens de locais a visitar, informações sobre as últimas notícias do país e do mundo, anúncios de imóveis, sugestões de gastronomia, publicidades a presentes ou promoções ótimas para as compras natalícias, chamou-me a atenção. Chamou-me a atenção e fez-me pensar.

Ano Novo? Já? Depois pensei: “sim, faz todo o sentido”. Este domingo [27 de novembro] começou um novo ano litúrgico. Neste caso concreto, começámos o Ano A, durante o qual é proclamado, nas eucaristias dominicais, o Evangelho de São Mateus. Como um sacerdote amigo dizia há dias, não temos foguetes, não temos champanhe... mas festejamos esta passagem de ano.

Apercebemo-nos disso? Provavelmente, até reparamos que o sacerdote estes dias veste um paramento de uma cor diferente, até constatamos que na igreja onde costumamos ir há sinais exteriores de que este é um tempo novo (uma decoração mais singela, uma coroa com várias velas, que se vão acendendo semana após semana...). Mas, vemos esse tempo apenas como os dias que antecedem o Natal e todos os preparativos a ele associados? Ou temos a noção que este é verdadeiramente um novo ano, o início de um novo ciclo?

Sendo um novo ano, podemos aproveitar esta passagem de ano para festejar, para formular votos de felicidade a quem conhecemos, para assumir propósitos e objetivos, que queremos concretizar. Tal como fazemos, com tanta naturalidade, na passagem de ano civil, de 31 de dezembro para 1 de janeiro... em cada ano.

Se nessa altura já nos habituamos a definir objetivos concretos, adaptados à vida e circunstâncias particulares de cada um, na passagem de ano que agora celebrámos também nos podemos preocupar em formular propósitos... por exemplo, propósitos que nos aproximem mais de Deus.

Porque não, por exemplo, assumir o desafio de praticar as obras de misericórdia, fazer o propósito de cuidar melhor os momentos de oração, procurar verdadeiramente estar em paz connosco próprios, com os outros e com Deus, celebrar o sacramento da reconciliação com verdadeiro sentido de arrependimento e desejo de conversão? Porque não aproveitar para fazer uma leitura há tanto tempo ansiada, e constantemente adiada? Porque não simplesmente aproveitar para estar mais tempo em silêncio, sem preocupações especiais, simplesmente contemplando a criação e deixando as coisas acontecer?

Que este novo ano, que agora começou, seja verdadeiramente diferente. Por isso, “roubando” a ideia à pessoa amiga que formulou os votos nas redes sociais, aqui ficam os meus votos de “Feliz Ano Novo!”

 

Cláudia Pereira

 

 

A-DEUS, LEONARD

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A música de Leonard Cohen começou a fazer-me companhia ainda na adolescência. Escutando a rádio, era surpreendido, de vez em quando, pela sonoridade profundamente melancólica daquela voz inimitável, grave como nenhuma outra. E ficava à espera da próxima vez em que a rádio me traria de novo aqueles sons únicos.

Bastante mais tarde, já no tempo dos CD, comecei a poder comprar: sem método, nem regra, um CD agora, outro depois. Comprava os CD de Leonard Cohen como comprava livros: quando podia, pelo prazer de os ter, pela alegria de os ouvir, porque começava a entender as palavras e ia descobrindo, para além do músico, um poeta extraordinário.

Leonard Cohen não juntava palavras para pendurar numa música. Cantava histórias, de amor, de perda, de solidão, mesmo quando essas histórias não rimavam com coisa nenhuma, a não ser com corações quebrados pelo passar dos anos e pelo desgaste que a vida traz. Histórias de mulheres amadas ou símbolos do amor (Suzanne, Marianne, Joan of Arc...), histórias de gente quebrada, como o mendigo nas ruas de Nova Iorque com um letreiro onde se lia Please, don’t pass me by – I am blind, but you can see (e uma fabulosa interpretação ao vivo, em Londres, na qual todos somos cegos e gritamos para não nos passarem ao lado!), histórias de amores românticos feitos de abandono e tristeza, porque amor rima sempre com dor...

Depois, soube que Leonard Cohen, canadiano de nascimento, era de ascendência judaica. E isso ajudou-me a reler algumas das suas poesias, tão marcadas por figuras bíblicas ou pela liturgia judaica. Leonard Cohen já não era apenas o poeta que lutava com uma humanidade quebrada, mas também um homem em luta com Deus: Jacob e o Anjo. Agora podia acompanhá-lo interiormente no seu Hallelujah, pois, por muitos erros que se cometam, há um raio de luz em cada palavra...; ou caminhar ao lado de Abraão e Isaac, até ao cimo do monte, numa das suas mais estranhas e pungentes poesias (Story of Isaac), trazendo para hoje uma das narrativas mais arrepiantes de toda a Bíblia: vós que construis agora estes altares para sacrificar estas crianças, não o façais nunca mais.

Leonard Cohen morreu a 7 de novembro, com 82 anos. No mês anterior, tinha publicado o 14º álbum. A poesia que lhe dá o título não podia ser mais elucidativa – You want it darker – We kill the flame. Leonard canta um mundo que escurece, a vida que se vai apagando, um Deus com O qual não pode deixar de lutar. Mas conclui: Hineni, hineni (Aqui estou, em hebraico), acrescentando: Estou pronto, meu Senhor.

Leonard Cohen terminou a sua luta com Deus. As suas palavras e a sua música continuam a acompanhar-me na minha – até esse dia em que espero poder dizer adeus e entregar tudo A-Deus.

 

Elias Couto 

 

 

 

 

NOVEMBRO BEM MERECE UMA REFLEXÃO

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Hoje, dia em que começo esta nota, o tempo está tristonho e fechado, com sabor melancólico. Dizem que é outono e outono é assim, e, porque é assim, até deu aso à expressão “outono da vida” para descrever a velhice. novembro coube-lhe nascer aqui, emparedado entre um pré-anúncio de fim de alguma coisa e começo de algo que quer nascer. Naquela árvore a despir-se lentamente das folhas amarelecidas caindo abandonadas no passeio, ou nos dias mais pequenos onde a noite parece ter pressa em engolir o dia e a escuridão em matar a luz, há qualquer coisa que novembro quer esconder sem esconder e mostrar sem mostrar, contentando-se com apontar para a folha nova que irá nascer, para outro dia com luz, até chegar, espero, o “Dia sem Ocaso” e a “Grande Luz” profeticamente anunciada em Isaías: “Um povo que andava nas trevas viu uma grande luz”. Sabemos a Quem se referia. Mais do que morrer, novembro parece fermentar vida futura.

 

Em termos litúrgicos, abre com a celebração da Vida plena (Solenidade de Todos os Santos), imediatamente seguida da lembrança da Morte na Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos (“Mês das Almas”, gosta de lhe chamar a piedade popular), para fechar o mesmo ano litúrgico com o Triunfo de Cristo Rei, saído vitorioso da morte como Senhor Ressuscitado. Desta forma “fecha”, “abrindo” tempo novo em que a Vida vence a Morte, deixando-nos o fim do ciclo litúrgico aberto em esperança e como Esperança que o Credo recolhe no seu último artigo de fé (“Espero a ressurreição dos mortos e a vinda do mundo que há de vir”). Será tempo sem tempo, será “Vida Eterna” (que dura sempre), será o “aqui” aberto ao “além” desta vida onde habita o mistério de Deus e do Homem, alargando os horizontes da vida humana, e, mais importante, dando-lhe sentido. A vida não acaba, apenas se transforma (recebe outra forma) de mortal em imortal. Acaba “esta” vida, não acaba “a” vida.

Este “além” sempre foi, é e será uma questão essencial, inquietante e incontornável para o homem em geral e para cada um de nós em particular, caso não queira (não queiramos) fazer desta vida um absurdo qualquer à boa maneira de Sartre. A história tem tentado responder-lhe com a reincarnação e a imortalidade. Em ambos os casos a outra vida fica fora de mim, quer recomeçada noutro (reincarnação), quer prolongada noutros, de geração em geração (imortalidade). novembro fecha para abrir o Natal, o mesmo é dizer o Nascimento de Alguém que dirá de si mesmo: “Eu Sou a Ressurreição e a Vida”, abrindo com Ele o meu amanhã onde serei Eu e não outro ou lembrança de outros.

É este “além” que explica os martírios dos irmãos Macabeus de que fala a Bíblia perante as exigências de apostasia por parte do rei sírio (“Vale a pena morrer às mãos dos homens, quando temos a esperança em Deus de que Ele nos ressuscitará” – 2Mac 7, 14) e de tantos mártires ao longo da história da Igreja. O verdadeiramente trágico não é o que acontece a esta vida ou nesta vida, mas o que sobra para além dela; o trágico não é morrer, mas ficar na morte. Por isso aqui fica a minha profissão de fé na ressurreição dos mortos e a vinda do mundo que há de vir, traduzida em palavras da 2Ped 7, 14: “Nós, porém, segundo a sua promessa, esperamos céus novos e uma nova terra, onde habite a justiça”. São palavras de esperança. Com ela faço votos que novembro nos entregue um bom dezembro, onde o Senhor quer vir ao nosso encontro, para connosco continuar a ser o Caminho dos nossos caminhos na senda desta Esperança.

P.S.: Hoje, dia em que termino a nota, o tempo está solarengo, embora frio. Nem de propósito.

A. da Costa Silva, s.j.

 

REFUGIADOS: QUEREMOS SER LUGAR PARA ELES?

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Num contexto como o destes últimos tempos, com atentados terroristas em território europeu, é compreensível que alguns sentimentos de apreensão e de insegurança possam surgir, face à entrada de estrangeiros nos nossos Países.

 

Ao mesmo tempo que notícias destes atentados na Europa surgiam – ou aliás ainda antes disso – notícias de uma violência em muito maior escala tinham porém chegado a nós: vindas de bem perto, da nossa vizinha Síria. Pouco tempo depois do desencadear da guerra civil nesse País, surgiam relatos dramáticos, de multidões de pessoas a tentarem atravessar o mar mediterrâneo, em inseguras e sobre-lotadas embarcações. O desfecho para parte dessas pessoas acabaria infelizmente por terminar em tragédia: em cada ano têm sido milhares (!) as pessoas que têm morrido, na tentativa para escapar a uma guerra brutal. As imagens de pessoas afogadas no mediterrâneo (incluindo crianças) são simplesmente intoleráveis, mais ainda no século XXI.

 

Se, como referi, é compreensível o sentimento de preocupação com a segurança nos Países europeus, por outro lado não me parece que num momento dramático como este seja possível virar simplesmente a cara, e ignorar o sofrimento dos refugiados (ou pretender que eles devam ir tentar procurar refúgio “nalgum outro lugar”).

 

Sendo por vezes olhados com desconfiança, na suspeição de que possam vir “trazer o terrorismo”, um dos aspectos irónicos neste drama dos refugiados é que, se estas pessoas se viram forçadas a abandonar o seu próprio País, foi precisamente para fugirem dos mesmos movimentos extremistas e violentos que nós receamos. É de notar, por outro lado, que a maioria dos terroristas que levaram a cabo os recentes atentados em Países europeus não vieram de fora, mas pelo contrário tinham já nascido em território europeu.

 

Não existirá então risco algum, se nos decidirmos a acolher algumas dessas pessoas? Isso é algo que ninguém poderá certamente garantir. Quem sabe se, em mil pessoas que desesperadamente procuram refúgio, não se encontrará alguma pessoa com intenções menos pacíficas? Porém, ainda que assim seja podemos perguntar: será então que todas as outras novecentas e noventa e nove pessoas inocentes, que procuram fugir da violência, terão então de pagar por isso? Será então esse um argumento para que fechemos as portas na Europa e não aceitemos receber nenhum daqueles que procuram escapar à guerra?

 

Bem explícito foi várias vezes Jesus ao dizer que o seu seguimento – o amor a Deus e ao próximo – envolve sempre também um preço a pagar. Porque dificilmente será possível fazer-se o bem ao próximo sem algum tipo de risco, sem que, de algum modo, tenhamos de sair da nossa “zona de conforto”.

 

Não está, infelizmente, na nossa mão podermos parar as guerras, causa e origem de todo este sofrimento. Algo porém, neste momento dramático e histórico, está na nossa mão fazer, tal como o Papa em diversas ocasiões tem repetido: podemos pelo menos procurar minorar alguns destes dramas pessoais. Recordemos que a primeira visita do Papa Francisco, pouco depois de ter sido eleito, foi precisamente à ilha de Lampedusa, chorar por aqueles que se afogaram no mediterrâneo, perseguidos por uns e ignorados por outros.

 

Surpreendente pela sua coragem e a sua generosidade foi a posição assumida no ano passado pela Chanceler da Alemanha, Ângela Merkel, ao oferecer lugar no seu País para nada menos que um milhão de refugiados (isto para além daqueles que a Alemanha tem já acolhido nos últimos anos). Apesar de, no final da segunda guerra mundial, terem também sido milhões os refugiados alemães, a Chanceler parece ter já tido de pagar um preço bem alto por este seu gesto, em termos eleitorais e de popularidade entre os seus. Já em alguns outros Países da Europa, por outro lado, o discurso oficial foi bem diferente do do acolhimento, sendo por vezes adoptadas posições populistas (ou até quase xenófobas). Isto como se, por si só, os muros pudessem verdadeiramente resolver os problemas, ou até conter os grandes movimentos de populações.

 

A prazo, parece de facto pouco provável que, num mundo dividido por muros, possa ser assegurada a segurança de quem quer que seja (quer de um lado, quer do outro dos muros). A verdade é que soluções que parecem mais fáceis e imediatas podem acabar por vir a contribuir para uma ainda maior polarização de tensões e ressentimentos no interior de um mundo que, queiramos ou não, se torna cada vez mais uma “aldeia global”. Como o Papa tem defendido, o que realmente precisamos não é de levantar muros (que, a prazo, acabam por nunca se revelar verdadeiras soluções para ninguém), mas sim de nos esforçarmos por estabelecer pontes.

 

De um ponto de vista legal, por outro lado, é de recordar que todos os Países europeus são signatários da convenção de Genebra, na qual se comprometem a conceder asilo e proteger os refugiados de guerra que cheguem ao seu território. Depois de terem começado a vir a público as notícias de milhares de refugiados afogados no mediterrâneo, a União Europeia chegou em 2015 finalmente a acordo para, teoricamente, acolher 160.000 refugiados (ou seja, não mais do que 0,03% da sua população total). Portugal – que tantos emigrantes seus tem tido no estrangeiro – comprometeu-se nessa mesma ocasião a acolher 4.500 refugiados (ou seja, 0,045% da sua população). Até hoje, porém, pouco mais de um décimo desses números terá efectivamente sido acolhido, quer em Portugal quer nos outros Países europeus. Apesar de estes números serem perfeitamente negligenciáveis para os nossos Países (e no meio da abundância em que vivemos no ocidente, comparados com o resto do mundo), a verdade é que alguns medos continuam por vezes a ser estimulados na opinião pública, alertando para uma alegada “invasão” que podemos sofrer por parte desses refugiados.

 

Curiosamente, um dos argumentos por vezes usado para evitar o acolhimento de refugiados tem sido o argumento “religioso”: em alegada defesa do cristianismo. Há quem defenda que, se acolheremos refugiados muçulmanos, isso contribuirá para a “islamização” da Europa. Custa a crer que, num momento de excepção como este, com uma guerra civil tão cruenta às nossas portas, seja em nome do cristianismo que se defenda um fechar de portas a quem tão desesperadamente precisa de acolhimento para sobreviver. Momentos de excepção pedem gestos também de excepção. De resto, como todos sabemos, os actos sempre valeram bem mais do que as palavras, e os gestos de acolhimento muito mais do que as indoutrinações – incluindo na própria pregação do Evangelho. Se a nossa preocupação é verdadeiramente a proclamação da mensagem de Jesus, então que outra coisa podemos fazer senão testemunhar a nossa humanidade para estes nossos semelhantes que tão necessitados se encontram agora? Se estes nossos irmãos um dia nos puderem dizer “Era peregrino e acolheste-me” (Mt 25), isso sim será então sinal que um testemunho verdadeiramente cristão foi dado neste momento histórico e particularmente difícil para o povo sírio.

 

Texto: P. Luís Ferreira do Amaral, sj

Fotos: JRS - Internacional

 

 

 

 

 

 

FLORES PARA OS MORTOS

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Confesso que estou a mudar de opinião e a aceitar com mais serenidade interior as flores para os mortos, quando sinto que as mesmas pessoas tratam bem dos vivos, dão de comer aos que têm fome, preocupam-se com quem não tem casa, luz, amor, etc. Parecia irritar-me nos gastos enormes em flores para os mortos, que não precisam nada delas; precisam sim de orações, de sufrágios, de celebrações de Missas. Mas, repito, confesso que estou a mudar de opinião.

Os dias 1 e 2 de novembro são verdadeiros reboliços, azáfama com a ida aos cemitérios. Mas, para além das flores, creio que há muita amizade, carinho, saudade pelos que já partiram deste mundo. Mesmo para os que não rezam muito, ou até não têm muita fé, só a ida ao cemitério e o lembrar os que partiram já é algo importante. Ato de recordação afetiva, de respeito pelo local, de comunhão com quem estão ligados por laços profundos de amor, de amizade, de vida. E hoje, no meio de tanta indiferença, de tanto desprezo, de tanta falta de comunhão familiar, de amizade séria e profunda na sociedade em que vivemos, ainda resta algo de muito positivo na visita aos cemitérios. Mas… continuo a pensar que se gasta muito dinheiro em flores, e o pior parece ser que é mais para dar nas vistas, ou seja, numa atitude de vaidade dos vivos, que uma homenagem aos defuntos.

O mês de novembro é, na tradição da Igreja, o mês dedicado aos defuntos, aos nossos “irmãos, os fiéis defuntos”. Daí as expressões “mês das almas”, “mês dos fiéis”. Com uma catequese bem dada, poderíamos ter aqui um trunfo apostólico para um crescimento na fé, na vida para além da morte, nas realidades do Céu, do purgatório e do inferno. Uma catequese sobre a eternidade, sobre a certeza que a pessoa não morre, apesar da morte do corpo, da certeza que nascemos para a eternidade. Certeza do amor do Pai que nos criou à sua imagem e semelhança e que é o Deus dos vivos. Certeza que Jesus, vencedor da morte e do pecado, é Rei glorioso, vive para sempre e foi à nossa frente preparar-nos um lugar na Casa do Pai. Certeza de que com a morte a vida não acaba, apenas se transforma. Todos vivemos para sempre. Daqui a semente de esperança e de alegria.

Além da lei canónica sobre a cremação, aparece agora (só agora?) uma instrução mais clara acerca da cremação e do convite da Igreja, para que a cremação não seja feita, e, se for, que é necessário guardar as cinzas num lugar “sagrado”, que as gerações vindouras esquecerão seus antepassados com as cinzas lançadas ao rio, etc. etc. Estas medidas ajudarão a pensar no valor do corpo unido à alma, que teve atos sagrados, como os sacramentos, que viveu como parte integrante da pessoa humana. As cinzas depois da cremação, deitadas ao mar ou ao rio numa procissão de barco, não ajudarão a recordar os entes queridos, não são testemunho das pessoas que amámos. E há indícios de que com as cinzas, sobretudo se ficam em casa, tem havido atitudes pouco sérias e dignas, usando-as para certos cultos satânicos, certas atitudes de falta de respeito pela pessoa querida que partiu para a eternidade.

Eu prefiro que meus pais estejam sepultados no cemitério do que ter as cinzas guardadas em casa ou deitadas ao mar, ou a ornamentar um quadro, uma joia, etc. Aquelas ossadas que lembram a profecia de Ezequiel, trazem-me sempre ao pensamentos os pais que amei e que me deram a vida, que sepultei com amor e devoção, a cujas missas de exéquias presidi e me deram tanta consolação. Aqueles pais que acredito que estão vivos em Deus. Não me canso de dar glória a Deus pelos pais que tive e acredito que junto de Deus velam por mim. Estamos juntos no amor de Jesus e sempre em festa.

 

Dário Pedroso, s.j.

 

ANDA O PAPA FRANCISCO A PERDER TEMPO?

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No início deste mês de outubro, o Papa Francisco fez uma visita apostólica ao Azerbaijão. Este é um pequeno país com cerca de nove milhões de habitantes e com uma presença cristã claramente minoritária. Estima-se que os católicos sejam apenas uns seiscentos ou setecentos. Isso mesmo: menos de 700 pessoas! O correspondente a uma pequena paróquia em Portugal.

Facilmente podemos pensar: «mas não deveria o Papa Francisco dedicar mais tempo a outros locais com mais cristãos que o querem ver? Em maio, de certeza que estarão centenas de milhar de pessoas em Fátima para o verem!». Prevendo estas críticas, em Baku, no Azerbaijão, quando terminava a Eucaristia, o Papa Francisco disse: “Alguém pode pensar que o Papa perde tanto tempo (...) para visitar uma pequena comunidade de 700 pessoas (...). É uma comunidade de periferia. Mas o Papa nisto imita o Espírito Santo, Ele que desceu do Céu numa pequena comunidade fechada no cenáculo. Aquela comunidade (...) sentia-se pobre, isolada, (...) e Ele dá-lhe a força para continuar e ir para a frente a proclamar o nome de Deus. E as portas daquela comunidade de Jerusalém, que estavam fechadas, pelo medo, pela vergonha... abrem-se e sai a força do Espírito. O Papa perde o tempo como o perdeu o Espírito Santo. Só duas coisas são necessárias: naquela comunidade estava a Mãe. Não esquecer a Mãe. Naquela comunidade havia a caridade, o amor fraterno que o Espírito Santo versou sobre Eles. Coragem. Para a frente. Sem medo. Para a frente»*.  

Desde o início do seu pontificado que o Papa Francisco nos tem desafiado a irmos às «periferias» e ele tem feito isso mesmo. Nas suas viagens não se deixa fascinar pelos números, mas quer ir ao encontro das pessoas onde elas estão. Por isso fura os protocolos e entra em bairros carenciados, onde não estava prevista uma visita, ou manda parar o «Papamóvel» para saudar uma pessoa no seu caminho.

Se calhar, segundo a nossa lógica, faria mais sentido que o Papa, uma vez que vem a Fátima em maio, também visitasse Lisboa ou o Porto, onde teria, sem dúvida, um mar de gente que o receberia, em vez de perder tempo no Azerbaijão. O Papa Francisco sabe que a Igreja é um corpo, não uma mera associação de pessoas. Ele bem sabe que somos todos parte do mesmo corpo e que todos temos a ganhar quando o corpo está bem.

Naquela pequena comunidade do Azerbaijão, os nossos irmãos sentem-se sozinhos e isolados. O Papa Francisco sabe que eles precisam muito de incentivo e de oração. Precisam sentir que fazem parte de um corpo de irmãos e irmãs. É exatamente isto que o Papa foi lá fazer: para lhes dizer que somos irmãos! Somos corpo de Cristo!

A coragem do Papa em «perder tempo» com umas poucas centenas de pessoas quando, em Roma, sem sequer sair de sua casa, teria muito mais gente para o escutar, mostra-nos o quanto é importante que nos recordemos que em Cristo somo um só corpo. De nada nos serve a «nossa fé» se esta não nos fizer sintonizar com todos os batizados de todo o mundo. Esta viagem e o aparente desperdício do pouco tempo do Papa recorda-nos que a relação com Deus não é uma coisa individual, só minha, mas que a intimidade da relação pessoal com o Senhor existe enquanto sou parte de um corpo, o corpo místico de Cristo.

 

Marco Cunha, s.j.

* Podemos ver o vídeo com as suas palavras aqui: https://www.youtube.com/watch?v=d-jaxGCewyg

 

 

 

 

BOB DYLAN

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Confesso que conheço muito pouco da música de Bob Dylan: talvez por não ter crescido a escutá-la ou por ser de um estilo que não aprecio muito. Fiquei por isso surpreendido com a atribuição do prémio Nobel da literatura ao cantor e compositor norte-americano: vi as reações, positivas e negativas, suscitadas pela atribuição, e fiquei-me por aí.

 

Mas o acontecimento fez-me contactar (através de uma pessoa amiga) com a obra escrita de Dylan, ou seja, as letras das suas canções, elaboradas e compostas pelo próprio: eis que me encontro com uma forte presença de uma experiência religiosa, muito frequente ao longo das canções. Temas como a conversão, a redenção, a vitória de Jesus sobre o mal, a salvação do pecado, o juízo ou a morte são constantes nas canções de Dylan, expressando-se em chave pessoal: "o Cordeiro salvou-me" ou "a Graça libertou-me", por exemplo.

 

O pudor por exprimir uma experiência religiosa é algo que não encontramos na obra de Dylan: as palavras estão aí, sem qualquer dissimulação. Exprimem-se os mistérios fortes da vivência cristã de um modo que nós (crentes ou teólogos) temos dificuldade, hesitação ou pudor em referir: quem ousa hoje falar da redenção pelo sangue? E como fazê-lo em chave pessoal? De verdade nos experimentamos libertos de uma morte certa?

 

Procuro resistir à tentação de tirar conclusões: não significa isto que a atribuição do prémio Nobel faça mais sentido. Também não se trata de utilizar o testemunho de um artista como Dylan para fazer a "defesa" do cristianismo. Compete-me o difícil exercício da escuta e da leitura: de contactar e abrir uma caixa de ressonância onde possa ter espaço e voz semelhante experiência religiosa.

 

Partilho uma das letras que me marcaram: o título original é "Property of Jesus". Foi o caráter forte deste título que me chamou a atenção. A letra da canção aponta-nos para a experiência e o testemunho de uma "diferença cristã", de alguém que pertence a Jesus e que, por isso, suscita a dúvida, o paradoxo e a rejeição naqueles que com ele contactam.

 

Não é um testemunho por palavras: trata-se de atitudes, de alguém que, pelo encontro pessoal com Cristo, vive uma libertação das superstições, da veneração dos bens de consumo ("as coisas sem as quais não conseguis viver"), ou da lógica da competitividade ("não aumenta o seu valor à custa de outra pessoa").

 

E aqui surge o paradoxo: esta pertença a Jesus liberta no discípulo o seu "eu verdadeiro"; são aqueles que o rodeiam que foram capturados, e cujo coração é de pedra: um coração petrificado pelas mecânicas da lei, do consumo, do juízo e da condenação do outro. É a pertença a Cristo que dá "carne", sensibilidade, respiro, abertura e liberdade ao nosso coração; uma pertença que aponta para a linguagem da Nova Aliança.

 

Pertença de Jesus

 

Avançai e falai sobre ele porque ele vos faz duvidar

Porque negou a si mesmo as coisas sem as quais não conseguis viver

Ride-vos dele por trás das costas tal como fazem os outros

Lembrai-lhe o que ele era quando por aqui passar

 

Ele pertence a Jesus

Ficai ofendidos com ele o mais que puderdes

Vós tendes algo melhor

Tendes coração de pedra

 

Parai a vossa conversa quando ele passar na rua

Esperai que caia sobre si mesmo, oh, que agradável será

Porque ele já não pode ser explorado pela superstição

Porque não pode ser subornado ou comprado pelas coisas que vós venerais

 

Ele pertence a Jesus

Ficai ofendidos com ele o mais que puderdes

Vós tendes algo melhor

Tendes coração de pedra

 

Quando o chicote que vos mantém na linha não o fizer saltar

Dizei que ele é duro de ouvido, dizei que é um palerma

Dizei que está de passo trocado com a realidade enquanto tentais testar-lhe a coragem

Porque não paga tributo ao rei que vós servis

 

Ele pertence a Jesus

Ficai ofendidos com ele o mais que puderdes

Vós tendes algo melhor

Tendes coração de pedra

 

Dizei que ele é um falhado porque não tem senso comum

Porque não aumenta o seu valor à custa de outra pessoa qualquer

Porque não tem medo de tentar, porque não olha para vós e sorri

Porque não conta anedotas ou contos de fadas, dizei que não tem estilo nenhum

 

Ele pertence a Jesus

Ficai ofendidos com ele o mais que puderdes

Vós tendes algo melhor

Tendes coração de pedra

 

Podeis rir-vos da salvação, podeis jogar jogos Olímpicos

Pensai que quando por fim descansardes regressareis de onde viestes

Mas vós escolhestes uma história e tanto e mudastes desde o útero

Que aconteceu ao vosso eu verdadeiro, fostes capturados por quem?

 

Ele pertence a Jesus

Ficai ofendidos com ele o mais que puderdes

Vós tendes algo melhor

Tendes coração de pedra

 

[A tradução é de Angelina Barbosa e Pedro Serrano, in Bob Dylan, Canções (vol. II), Lisboa 2008]

 

Rui Vasconcelos

 

 

NAÇÕES MAIS UNIDAS

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 Estamos tão habituados a que os noticiários sejam reportagens de tristes eventos que as boas notícias nos dão particular consolação e esperança.

A nomeação do Engenheiro António Guterres para Secretário- Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) é uma especial boa notícia, que, além de tudo o mais, credibiliza a instituição a que presidirá. O título de «Nações Unidas», na prática com tantas contradições ao rótulo que aponta um programa entusiasmante, esperamos que passe a ser realmente: «Nações Mais Unidas» (ON+U).

O perfil do indigitado, por aclamação, para Secretário-Geral da ONU, o nosso concidadão António Guterres, tem sido elogiado superlativamente, a nível nacional e internacional, pelas mais altas figuras da sociedade civil e da Igreja. Elogiado também pelos simples conterrâneos da aldeia que o viu crescer menino e jovem. E a voz do povo é a voz de Deus, como recorda um antigo ditado latino. Sendo tão comuns as atitudes de deita abaixo a quem sobe, mais nos alegra esta onda de aplauso, que une direitas e esquerdas, crentes e descrentes, portugueses e dos mais diversos países, incluindo dos seus diretos concorrentes ao mesmo cargo. Um exemplo a seguir.

Meios de comunicação social, apresentando as suas qualidades, têm explicitado que se trata de um católico praticante. Claro que acho bem indicar esta mais- valia de um homem que, vendo em cada pessoa (sobretudo nas que as injustiças desfiguram horrivelmente) a imagem de Deus, poderá mais solicitamente tratar de todos. É uma garantia de ser um eficaz Secretário-Geral praticante.

Nesse contexto, julgo oportuno recordar alguns pontos do discurso que o Papa Francisco fez há cerca de um ano (2015.09.15) na sede da ONU, em Nova Iorque, a convite do seu Secretário-Geral Ban Ki moon.

A defesa da vida humana, sobretudo dos mais frágeis, tem que ser uma prioridade. Por isso, Francisco sublinhou: «O mundo pede vivamente a todos os governantes uma vontade efetiva, prática, constante, feita de passos concretos e medidas imediatas, para preservar e melhorar o ambiente natural e superar o mais rapidamente possível o fenómeno da exclusão social e económica, com suas tristes consequências de tráfico de seres humanos, tráfico de órgãos e tecidos humanos, exploração sexual de meninos e meninas, trabalho escravo, incluindo a prostituição, tráfico de drogas e de armas, terrorismo e criminalidade internacional organizada». Como comentário, assim parafraseio a sentença de George Orwell: Todos os homens são iguais, mas alguns (sobretudo algumas) são muito menos iguais do que outros. Urge dar dignidade a cada ser humano, porque ninguém é mais nem menos do que ninguém.

O autor da Encíclica «Louvado sejas», sobre o cuidado da nossa casa comum, quis também sublinhar: «É preciso afirmar a existência de um verdadeiro “direito do ambiente”, por duas razões. Em primeiro lugar, porque como seres humanos fazemos parte do ambiente. Vivemos em comunhão com ele, porque o próprio ambiente comporta limites éticos que a ação humana deve reconhecer e respeitar. (…) Por conseguinte, qualquer dano ao meio ambiente é um dano à humanidade. Em segundo lugar, porque cada uma das criaturas, especialmente seres vivos, possui em si mesma um valor de existência, de vida, de beleza e de interdependência com outras criaturas. (…) A defesa do ambiente e a luta contra a exclusão exigem o reconhecimento de uma lei moral inscrita na própria natureza humana, que inclui a distinção natural entre homem e mulher e o respeito absoluto da vida em todas as suas fases e dimensões». A ecologia não é um mero assunto técnico, ligado à exploração dos recursos naturais e ao tratamento dos lixos… A ecologia é sobretudo uma questão humana em que a vida de todos nós ou é promovida e melhorada ou ferida e descartada.

O Papa Francisco, alertando para o respeito dos que pouco ou nada contam, segundo critérios de mera rentabilidade económica, para a injustiça de bradar aos céus da perseguição dos cristãos e de minorias étnicas ou religiosas, assim observa: «A casa comum de todos os homens deve edificar-se também sobre a compreensão de uma certa sacralidade da natureza criada. (…) Tal compreensão e respeito exigem um grau superior de sabedoria, que aceite a transcendência, renuncie à construção de uma elite omnipotente e entenda que o sentido pleno da vida individual e coletiva está no serviço desinteressado aos outros e no uso prudente e respeitoso da criação para o bem comum».

Auguramos que o Engenheiro António Guterres, felizmente nomeado para Secretário-Geral da ONU, siga estes princípios de profundo humanismo, unindo sempre mais as nações e os corações.

 

Manuel Morujão, sj

 

 

COMUNICAR A IGREJA

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Vivemos a era do imediatismo, do direto, da comunicação em tempo real, da atualização ao minuto e até da antecipação. Esta velocidade da comunicação e informação é de uma grande exigência, sobretudo quando a aposta passa também pela qualidade, ética e rigor. Neste contexto, as empresas e instituições deparam-se com um enorme desafio: ou apanham a autoestrada da comunicação ou ficam offline. Entre elas a Igreja, de quem se espera que comunique bem.

Em Portugal, a discussão sobre a comunicação da Igreja arrasta-se há anos. Ninguém tem dúvidas de que a Igreja pode e deve comunicar melhor. Basta que haja vontade de ter uma Igreja a falar a uma só voz, de ter uma estrutura de comunicação organizada e profissional sobretudo na relação com os media. É fundamental que haja um gabinete, um rosto, um contato de referência sempre que a Igreja é chamada a pronunciar-se sobre assuntos estruturantes ou situações de crise. Porque é sobretudo de "crises" que os media fazem notícia. Mas as notícias pressupõem o princípio do contraditório. E a Igreja tem de se organizar nesse sentido, para que possa responder de forma profissional, organizada e no devido tempo.

O Vaticano acaba de dar o exemplo. O Papa, através de um Motu Proprio, instituiu recentemente a Secretaria para a Comunicação. Francisco entendeu que era necessário criar um organismo para «responder ao atual contexto comunicativo, caraterizado pela presença e pelo desenvolvimento dos media digitais, pelos fatores da convergência e da interatividade».

O Santo Padre concluiu que o novo contexto da comunicação exigia uma «reorganização» que assegure a «integração e gestão unitária» e uma «resposta de forma coerente às necessidades da missão evangelizadora da Igreja». Neste sentido, a Secretaria para a Comunicação passa a congregar e tutelar um conjunto de outras estruturas já existentes com responsabilidades na comunicação do Vaticano, concretamente o Conselho Pontifício das Comunicações Sociais; Sala de Imprensa da Santa Sé; Serviço de Internet do Vaticano; Rádio Vaticano; Centro Televisivo do Vaticano; ‘L’Osservatore Romano’; Tipografia do Vaticano; Serviço Fotográfico; e Livraria Editora do Vaticano. Além disso, assume o site institucional da Santa Sé e a gestão da presença do Papa nas redes sociais. Internamente, a Secretaria para a Comunicação é composta por cinco direções: para os Assuntos Gerais; Editorial; Sala de Imprensa da Santa Sé; Tecnológica; e Teológico-Pastoral.

O exemplo está dado e vem "de cima". Em Portugal, é chegada a hora de pôr em prática os planos, orientações e conceitos que vêem sendo debatidos. As dioceses, Conferência Episcopal, Secretariado das Comunicações Sociais têm muito a ganhar com a criação de uma estrutura que lhes assegure um modo coletivo, profissional e eficaz de comunicar e de se relacionar com os media. Fica o desafio!

 

Elisabete Carvalho

 

 

SERÁ POSSÍVEL AMAR QUEM NOS FAZ MAL?

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Hoje temos o último artigo de três sobre o hino da caridade.

O tema de hoje é este: «Se perdoar não implica ficar amigo, como é que podemos amar os inimigos?».

Primeiro, temos que distinguir várias situações. Há aquelas em que uma pessoa nos ofende, com maior ou menor gravidade, mas a ferida que a ofensa deixa fecha e a relação com essa pessoa continua boa.

Eu vou falar de duas outras situações.

A primeira é aquela em que a ferida custa muito a fechar por ser uma ferida muito grande. É uma ferida tão grande que faz com que não queiramos pensar nessa pessoa, quanto mais perdoar, muito menos amar. Temos ódio à pessoa.

Então como é que vamos amar esta pessoa?

Primeiro, temos que deixar o tempo atuar. O tempo ir-nos-á suavizando as sensações más. Neste caso, a primeira coisa que Deus nos pede é que não alimentemos ódio nem vingança em relação à pessoa. Pede-nos que nos esforcemos por não dizer coisas como: “Só quero que te aconteça o mesmo mal que me fizeste” ou “só te desejo aquilo que me desejas”. Se nos esforçarmos por não pensar estas coisas, já estamos no bom caminho. Depois, pedimos a Deus vontade de rezar por essa pessoa.

Reparemos que ainda não estamos a rezar pela pessoa, mas a pedir vontade de rezar por ela. Esta fase pode demorar muito tempo. Anos. Mas o importante é não desistirmos de pedir a vontade de rezar pela pessoa. Quando conseguirmos rezar por essa pessoa já estamos, como Jesus na cruz, a rezar por aqueles que Lhe fizeram mal. Nunca iremos achar essa pessoa simpática nem convidá-la para nossa casa. Mas, se formos capazes de rezar por ela, já a estamos a amar. Já estamos a amar o «inimigo».

A outra situação é aquela em que a ferida não fecha por estarmos sempre a ser magoados.

Aqui, a primeira coisa a fazer é distanciarmo-nos da pessoa que nos faz mal. Temos que manter essa pessoa à distância. Não vale a pena tentarmos fazer as pazes com uma pessoa destas. Ou a pessoa se nos ri na cara ou é muito simpática mas não muda o seu comportamento. Nos dois casos, acabamos ainda mais magoados.

Temos que a manter à distância. E como é que isso é amar?

É amar porque estamos a impedir a pessoa de pecar. Impedir alguém de pecar é amar esse alguém. Se alguém me vier assaltar a casa e eu lhe abrir a porta e lhe der as joias e o dinheiro, estou a ser cúmplice dessa pessoa.

Assim, também, se alguém me magoar sempre que está comigo e eu não me procurar afastar dessa pessoa, estou a dar a essa pessoa oportunidade de me magoar. Estou a ser cúmplice do seu ato, estou a contribuir para o seu pecado.

Mesmo sendo pessoas do nosso convívio habitual ou membros da nossa família, é preciso afastarmo-nos destas pessoas ou afastá-las de nós, porque não lhes podemos dar oportunidade para nos estarem sempre a magoar.

Então, aqui a primeira parte do amor é não dar às pessoas oportunidade para elas pecarem. Depois, vem a outra parte, que é rezar por essas pessoas. E é tudo o que podemos e devemos fazer por elas.

Concluindo: devemos afastar-nos das pessoas que nos magoam e, quando formos capazes, rezar por elas. Não temos que, nem é possível, achá-las simpáticas.

 

Gonçalo Miller Guerra, s.j.