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Blogue do Apostolado da Oração

ANO CENTENÁRIO DAS APARIÇÕES DE FÁTIMA

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   Imagem: Santuário de Fátima


Como vai ser o ano 2017, o tempo dirá. Da minha parte apenas desejo que seja o que Deus quiser e os homens deixem que seja. Hoje fala-se e escreve-se com demasiada frequência sobre o desmoronamento do projeto europeu, chegando a ouvir-se anúncios catastrofistas do fim da civilização ocidental. Há sinais de mal-estar, para não dizer de má consciência e desnorte, acompanhados da consciência de valores perdidos em favor de relativismos de toda a ordem, de insegurança e medos e do salve-se quem puder no meio de acusações mútuas. No caso português, também começam a ouvir-se vozes pessimistas de fim de regime. E, no entanto, acredito, que pode bem ser um ano de graça se quisermos e soubermos aproveitar o Centenário das Aparições de Fátima para uma reflexão profunda sobre os caminhos que coletivamente estamos a percorrer e tivermos a coragem de mudar de vida na linha da mensagem que Fátima nos transmitiu. As celebrações do Centenário, com o seu ponto alto nos dias 12/13 de maio próximo no Santuário de Fátima, com a presença do Papa Francisco, são já em si uma graça e uma “provocação”.

O Centenário das Aparições leva-nos obrigatoriamente para o drama europeu de 1917 (a revolução comunista na Rússia e a 1ª Grande Guerra Mundial com tudo o que isso significou) e, no caso português, para o 5 de outubro e a implantação da 1ª República, cujas consequências não foram assim tão meigas como nos querem fazer crer (não sei mesmo se não estaremos ainda a pagar por elas), mas leva-nos também com o olhar e o pensamento para a ação misteriosa de Deus a trabalhar naquele contexto histórico através de três crianças (Lúcia, Francisco e Jacinta) de tenra idade, ao ponto de a sua mensagem se impor à Igreja, ao país e ao mundo. E a trabalhar continua Deus, felizmente para bem nosso e da humanidade.

As pessoas fixam-se muito no fenómeno em si das aparições (milagre do sol, etc.), quando o importante é o que ali, naquele lugar insignificante, desconhecido e sem história chamado “cova” da Iria, começa a nascer e a crescer: uma história que, contra ventos e marés, chegou até nós numa caminhada, para já, de cem anos. E que não era uma história de crianças (tipo carochinha), nem sequer de homens (que tudo fizeram para que não existisse), mas de Deus. O milagre que verdadeiramente importa realçar é o que aconteceu e continua acontecendo naquele Santuário de Nossa Senhora de Fátima para onde continuam a correr milhares e milhares de peregrinos vindos de todas as partes do mundo.

Não sei se 2017 vai ser um ano parecido com os contextos da nossa 1ª República e da revolução comunista de 1917; penso, porém, que as Aparições de Fátima, olhadas com atenção e fé, podem ajudar e muito a encontrar caminhos e soluções para os grandes desafios que hoje se colocam a todos nós no momento presente das nossas histórias coletivas. E saber que Deus está metido nesta embrulhada é meio caminho andado para não perdermos a paz e continuarmos a lutar por aquilo em que acreditamos. Porque Deus está connosco. E Maria, a Mãe de Jesus, também.

Quer queiramos quer não, o ano de 2017 ficará sempre ligado a 1917 pelo Centenário das Aparições; para a nossa história como “2017 – Ano Centenário das Aparições de Fátima”; para a nossa devoção ficará certamente a marca indelével do carinho misericordioso de Deus de que o Papa Francisco é portador. Ficará, espero e espero que perdure, o “mimo” de Deus e a “ternura” de Maria, a “Nossa” Senhora de Fátima.

 

A. da Costa Silva, s.j.

 

 

 

A BATALHA ENTRE LUZ E TREVAS

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É muito claro na Escritura, sobretudo em S. João, quer no Evangelho quer nas cartas, que a Luz veio às trevas e estas não a receberam. É também claro a luta das trevas contra a Luz. Esta incomoda, desinstala, põe a claro o mal, o ódio, o crime, o roubo, a fraude, a promiscuidade, o tráfico de pessoas, a venda criminosa de armas, a falta de liberdade, etc. O poder do mal e do maligno, chamem-lhe demónio ou satanás, príncipe das trevas, como lhe chamava Jesus, continua a lutar contra o bem, a verdade, a santidade, a vida das pessoas, a liberdade religiosa, e lança as trevas, qual nevoeiro que impede de ver o bem, a beleza, o amor, o valor da vida, da paz, e nos engana, seduz, arrasta para o abismo do mal, da falta de dignidade, de cobardia, de sedução e intimidação, que nos manobra como quer e deseja.

Damo-nos conta de tudo isto, desta luta que se arrasta há séculos e que continua hoje no mundo à nossa volta. Mata-se, rouba-se, faz-se explodir bombas, derrama-se sangue, vendem-se pessoas, exploram-se os pobres, esmagam-se liberdades, fomenta-se a exploração económica para que os pobres sejam mais pobres, semeia-se a violência doméstica. Manobras macabras, satânicas querem ofuscar a Luz que é Jesus, sua Palavra, que é a Verdade, a Justiça, a Vida humana com toda a sua riqueza. Vai-se semeando, como areia no ar que gera penumbra que impede ver o caminho do bem e da verdade e ficarmos insensíveis à calúnia, à mentira, à exploração de menores, à venda de raparigas para a prostituição, etc. Mesmo com muito otimismo e muita esperança de um Ano Novo repleto de graça e de dons de Deus, o mal continua a manobrar inteligências e corações, vidas inteiras. O panorama não é famoso, brilhante. As trevas continuam a lutar, a fazer seus estragos, desfazendo vidas, cidades, países. Sangue inocente continua a correr, milhões de pessoas sofrem a fome e morrem por causa dela, porque há muita ganância, muita exploração, muito crime contra a vida e o amor, contra a liberdade e a paz. Há desertos sem pão, sem amor, sem liberdade, sem fé, sem Deus. Há famílias sem unidade, sem amor, sem dignidade, muitas sem emprego, sem pão, sem carinho.


Mas Jesus é a Luz. Maria é a Mãe que nos deu a Luz. Neste Ano do Centenário das suas Aparições em Fátima, temos que ouvir muitas vezes estas suas palavras: “O meu Imaculado Coração será o vosso refúgio e o caminho que conduz a Deus”. E também outras que nos animam: “Por fim o meu Coração Imaculado triunfará”. Foi Nossa Senhora, a Mulher que calcou a cabeça da serpente, que venceu o dragão enganador, que nos pode ajudar na luta contra o poder do mal, do pecado, das trevas. Ela, Mãe e Rainha, quer ajudar-nos e pede a nossa conversão, a nossa oração, a nossa penitência. Mas continuamos surdos às suas palavras, aos seus pedidos, às suas promessas, aos seus apelos. Com Maria seremos vencedores e a vitória será nossa, porque é d’Ela, da Mãe de Coração Imaculado. Falta-nos fé, falta-nos oração, falta-nos silêncio para escutar Deus e a Mãe. Estamos adormecidos, tíbios, frouxos, mundanos. Precisamos de conversão sincera, autêntica, vital, para que a Luz brilhe e ofusque o poder do mal e do pecado, destrua a escuridão da noite tenebrosa do maligno. Precisamos de ser mais evangélicos e acreditar na Palavra de Jesus. Precisamos de deixar o pecado e os seus tentáculos de mal. Precisamos de agir com audácia, com muita fé e muita oração.


Jesus usou estas expressões: “o príncipe das trevas”, “o homicida desde o começo”, “o príncipe deste mundo”. Hoje não falamos delas ou por ignorância, ou por medo, ou por desejo de não parecermos retrógrados, ou porque o mal nos manobra a inteligência e a língua, e, sobretudo o coração. Mas o mal entra em nós, está em nós quando criticamos ou caluniamos, quando inventamos algo de falso de alguém, quando não somos atentos e delicados com os mais pobres, doentes ou abandonados, quando desprezamos alguém, quando tiramos a alegria do coração de uma pessoa, quando acumulamos o supérfluo que pertence aos pobres, quando nos deixamos levar pela vaidade e pelo egoísmo e não nos lançamos ao serviço humilde e ao amor sem reservas, quando acumulamos bens sem necessidade, quando o nosso eu é rebelde ao Evangelho e suas exigências, quando não temos sentido de unidade, de paz e comunhão na paróquia, na família, na diocese. Sempre que não temos coração pobre e humilde e não servimos com simplicidade a Igreja nossa Mãe, não trabalhamos em comunhão com o Papa, quando não somos instrumentos de apostolado ativo, convictos e convincentes, quando o mundano nos impede de rezar, de viver uma vida de sacramentos cuidada e amorosa, estamos a ser manobrados pelo mal. É a luta contínua das trevas e da Luz. Não nos deixemos enganar. Não tenhamos medo nem nos deixemos seduzir pelo maligno. Um filho de Deus luta para não pecar, não estar do lado das trevas, não se deixar enganar pela poeira que nos impede de ver e de ser ao jeito de Jesus.

 

Dário Pedroso, sj

 

 

Palavras de fogo

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O Sufismo é uma das mais belas tradições espirituais da Humanidade. Nasceu no seio do Islão, e as suas origens remontam a Maomé. Transmitida de mestre para discípulo e presente hoje em numerosas comunidades, a vivência do Sufismo reside no aprofundamento espiritual dos ensinamentos do Islão, mediante símbolos, contos e narrativas. Por exemplo, para o Sufismo a “guerra santa” (al-jihad al-akbar) é a luta contra o nosso próprio ego, contra os impulsos egoístas que nos habitam e que impedem a nossa aproximação de Deus; só depois vem a luta contra a injustiça e a opressão, a al-jihad al-asghar (“guerra menor”).

 

Por aqui podemos compreender como, na realidade, o Islão é uma religião e um fenómeno complexo. Atualmente, a versão que melhor conhecemos (que as notícias mais divulgam) é a do chamado Wahhabismo (de Wahhab, líder religioso do século XVIII). O Wahhabismo teve a sua origem na atual Arábia Saudita, e é a partir deste país (aliado do mundo ocidental) que se divulga por todo o mundo islâmico através de um simples fator: muitos dos líderes religiosos islâmicos formam-se na Arábia Saudita. O Wahhabismo é uma visão conservadora do Islão, aliando-se à insatisfação vivida pelas populações árabes do Médio Oriente e norte de África (da colonização europeia dos séculos XIX e XX às guerras do Golfo e do Afeganistão, passando pela criação do estado de Israel e às disputas com as populações palestinianas). Daqui que o Islão nos surja como uma realidade violenta (a sua expansão inicial deveu-se a um misto de conversão religiosa e de violência militar, um pouco como os países europeus fizeram na América Latina e África entre os séculos XVI e XIX); mas, no seu interior, o Islão possui uma riqueza e diversidade espiritual de que o Sufismo é o melhor exemplo.

 

Entre as parábolas e contos que nos chegam do Sufismo, encontramos uma belíssima história sobre um diálogo entre o profeta Moisés e um pastor. O tema da história é a oração e as fórmulas adequadas para falar com Deus. A sua autoria é de Jalaluddin Rumi, que viveu na Pérsia no século XIII.

 

Aqui fica uma breve versão deste conto: que, neste ano de 2017, as palavras para a oração não deixem de brotar do nosso coração; e que todas as mulheres e todos os homens não deixem de encontrar, nas suas tradições espirituais, a simplicidade que conduz à Paz.

 

Havia nas planícies da Pérsia um pastor de coração simples e puro. Não tinha estudos, nem conhecia os ensinamentos da religião, mas confiava em Deus. Certo dia, elevou esta prece:

 

«Oh querido e amado Senhor, onde estás Tu, Tu a quem eu dediquei a minha vida? Onde estás, Tu de quem eu sou apenas um humilde servo? Oh Deus, para quem eu vivo e respiro, por cuja graça existo...»

 

Nesse momento, Moisés ia a passar por perto, e escutou esta oração. Decidiu admoestar o pastor, dizendo-lhe:

 

«Como te atreves a falar a Deus dessa maneira? O que dizes são blasfémias. Será Deus Todo-Poderoso um simples ser humano? Usa sandálias e meias? É Ele uma criança por criar que precisa de leite para crescer? Não, não é! Deus é completo em si mesmo e de nada necessita».

 

O pastor retirou-se cabisbaixo: na sua simplicidade, não entendia o motivo pelo qual o profeta se indignou com as suas palavras, mas aceitou a sua autoridade. Moisés prosseguiu o seu caminho, orgulhoso por ter corrigido uma alma extraviada. Mas o Todo-Poderoso falou-lhe:

 

«Por que te vieste meter entre Nós e o nosso leal servo? Por que separaste o amante do seu Bem-Amado? Nós enviamos-te ao mundo para unires um ao outro e não para romper o laço que os ata.
Recorda-te que no Amor as palavras são apenas a casca exterior e nada significam. Nós não damos atenção à beleza da frase ou ao rigor da sentença. Nós apenas olhamos a realidade interior do coração. Assim conhecemos a sinceridade das nossas criaturas, mesmo quando as suas palavras são desajeitadas. Pois aqueles que ardem no fogo do Amor proferem também palavras de fogo».

 

Moisés compreendeu o seu erro, e partiu à procura do pastor.

 
[Esta é uma versão abreviada do conto Musa e o Pastor, publicado no livro de M. Bayat, M. Ali Jamnia, Contos do País dos Sufis (trad. José D. Morais) Lisboa 2002].

 

Rui Pedro Vasconcelos

Adeus à rotina

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Estamos a despedir-nos de mais um ano. Nele repetimos, vezes sem conta, os mesmos gestos, as palavras usuais, os afazeres costumados, os ritmos diários, os cumprimentos comuns e as amabilidades tradicionais. Repetir o que é bom é claramente aconselhável. Mas importa pôr qualidade naquilo que repetimos. Há que dar alma ao corpo esquelético das rotinas.


Um ano novo nos bate à porta, mas que de novo poderá ter apenas os números da sequência do inevitável correr do tempo. Entrar no novo ano há de ser um dizer adeus à rotina, às repetições maquinais, ao mais do mesmo, ao arrastar o cansaço dos dias sem ânimo e esperança.


Quem não sabe o que é o peso da rotina? Os dias sucedem-se, como cópias invariavelmente iguais, cabendo-nos cumprir as mesmas tarefas, no lugar do costume, com horários idênticos, tendo ao nosso lado as mesmíssimas pessoas... E quem não se encontrou a sonhar, acordado, alguma vez, senão muitas: Como seria feliz se vivesse noutro contexto familiar, sem esta preocupação ou doença, tendo outro ofício, num lugar mais importante, noutra época histórica, sem as presentes dificuldades que encontro na minha vida, no mundo e na Igreja?! Quando chegará o comboio da felicidade que me vai transportar até ao paraíso na terra?! Em que porto se poderá tomar o barco do amor para alcançar a ilha onde o sol da felicidade não tem ocaso?!


Importa acordar destes sonhos e assentar bem os pés na realidade da vida. Só a vida real é a melhor vida possível. Para isto precisamos de fazer uma campanha de desbanalização do quotidiano, superficial e rotineiro, para que tenha o frescor da novidade que atrai e seduz. Cada dia que nos entra em casa é uma estreia mundial, que devemos aproveitar da melhor maneira. Gostaria de ser o primeiro a cumprir este triplo imperativo: Vive o dia de hoje como se fosse o teu primeiro dia! Vive o dia de hoje como se fosse o teu último dia! Vive o dia de hoje como se fosse o teu único dia!


Não há vacina contra a rotina, que nos fizesse viver livres do enfado, desgostoso e cansado, das repetições sem conta. Mas todos temos acesso gratuito aos remédios antirrotina. Basta cumprir a receita evangélica de Cristo de amar com todo o coração, com toda a alma, com todo o entendimento e com todas as forças. A força do amor faz novas todas as coisas. A sabedoria do nosso povo assim o recorda: Quem corre por gosto não cansa. Nem é cansativo, repetitivo, rotineiro.


A frescura da novidade, que afugenta a rotina, não vem de coisas grandiosas que tenhamos que fazer ou de cargos importantes que nos caiba exercer. Vem muito simplesmente de pôr amor nos nossos pensamentos, palavras e ações. Como recorda S. Francisco de Sales: «É o amor que dá valor a todas as nossas obras. Não é pela grandeza e multiplicidade das nossas obras que agradamos a Deus (e também ao nosso próximo), mas pelo amor com que as fazemos. E aceitar um beliscão com duas migalhas de amor vale mais que sofrer o martírio com uma só migalha do mesmo amor». Para sermos heróis e santos não é preciso fazer nada de grande e espetacular. Basta pôr amor nas palavras e gestos simples do quotidiano.


A rotina maquinal não se vence com operações de grande envergadura ou campanhas espetaculares de criatividade. Assim nos recorda o Papa Francisco, modelo de desterrar a rotina, surpreendendo-nos com atitudes de amor original: «O reino de Deus não é um espetáculo. Não chama a atenção nem se deixa levar pelo “barulho” do mundo… Nestas situações de santidade “anónima”, vivida na vida quotidiana, Deus está presente: pessoas que vivem com fé e perseverança o trabalho, seus compromissos na família, na paróquia. Não em testemunhos ruidosos que muitas vezes são como uma “caricatura do reino de Deus”. O Senhor nunca diz que o reino de Deus é um espetáculo. Pode ser uma festa, uma grande e bela festa a ser realizada no céu».


Com simplicidade, em palavras e gestos do quotidiano, digamos adeus à rotina. Vivendo no amor seremos novos e criativos.

 

Manuel Morujão, sj

Um Santo Natal

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Chegou o Natal! Mas, por incrível que pareça, já estamos há mais de um mês em ambiente natalício: as iluminações das ruas, as músicas, as compras, as campanhas, as inúmeras festas e jantares de escola, catequeses, grupos, trabalho...

Ocasionalmente, surge a oportunidade de parar um pouco e fazer um caminho interior de preparação, em especial o tempo que a liturgia da Igreja nos propõe, o Advento. Mas podemos ver nisto quase uma esquizofrenia. Por dentro, o Natal não chegou, vivemos em Advento, mas fora, à nossa volta, parece que já aconteceu, ainda por cima, desde há varias semanas!

Há uma pergunta importante a fazer: não estaremos já a viver o Natal de forma tão apressada e ruidosa que chegamos exaustos à noite de dia 24? E tão cheios de tantas coisas que quase não há espaço para o que se vai celebrar? É pena, pois o Advento, como tempo de espera, é tempo de deserto, silêncio, acolhimento, dar espaço à surpresa.
Não é muito possível alhearmo-nos do que se vive à nossa volta, faz parte dos ritmos sociais. Mas seria bom que não perdêssemos o contacto com o vazio próprio deste tempo. Um vazio sereno, porque tem esperança, um vazio silencioso, porque deseja ouvir a mais maravilhosa notícia que alguma vez foi dirigida à humanidade: “Hoje nasceu para Vós o Salvador!”.

Ainda vamos a tempo de pausarmos e repousarmos neste Advento, já tão próximo do Natal. Deixemos que no dia 25 de dezembro haja verdadeira festa e surpresa. Tudo o que acontece antes é bonito, mas não é ainda a festa verdadeira. Celebrando assim o Natal, deixamos acontecer em nós o que Deus nos quer comunicar, a sua presença amorosa no meio de nós. Tal como deve ser a nossa presença uns com os outros: uma imagem deste amor.

São estes os votos de Natal do Secretariado Nacional do Apostolado da Oração (Rede Mundial de Oração do Papa) em Portugal. Que Deus Menino dê a todos a sua paz e a sua alegria!

 

P. António Valério, s.j.

MENINOS-SOLDADOS, INFÂNCIAS NEGADAS

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Aproxima-se o Natal, aquela época mágica em que sobressai a alegria das crianças. E é para as crianças que o Papa nos chama a atenção neste mês de dezembro, para as crianças-soldados, aquelas que vivem bem longe das luzes, das prendas e do conforto de uma família.

 

Portugal não conhece de perto esta realidade, mas ela existe e é tão triste e atroz que mais parece uma história do mal só imaginável em filmes. Porque distante e incómoda, a situação destas crianças é quase ignorada. Uma espécie de problema daqueles povos lá longe que vivem sempre em conflito.

 

Os meninos-soldados são crianças em plena infância, algumas com menos de dez anos, que em vez de brinquedos têm armas, as brincadeiras de faz de conta são substituídas por treinos militares e os jogos implicam matar seres humanos.

 

Nasceram e cresceram no meio da guerra. Umas integram as fileiras dos combatentes por vontade própria, geralmente motivadas por situações de extrema pobreza, desestruturação familiar, orfandade, pouco acesso à escolarização, sentimentos de vingança (muitas foram testemunhas ou vítimas de violência extrema). Outras são forçadas a fazê-lo, por exemplo, raptadas à saída da escola, quando vão buscar água ou a brincar na rua. Há casos em que os próprios pais oferecem os filhos em troca de um pequeno salário para matar a fome a toda a família. Há ainda crianças que, vendo-se em situações de violência e de caos, encontram proteção num grupo armado.

 

Estas crianças vivem sobretudo no Médio Oriente e em África, mas também em alguns países da América Latina. Neste último caso, são usados especialmente pelos cartéis de droga. Embora a maioria seja rapazes, também há muitas raparigas. Os grupos armados, os "senhores da guerra" recrutam propositadamente crianças porque são mais obedientes que os adultos, são fáceis de instrumentalizar e não questionam ordens.

 

O impacto dos conflitos armados na vida destas crianças é devastador e muitas vezes invisível. As que sobrevivem sofrem em silêncio durante anos, sem auto-estima, com medo, verdadeiramente atormentadas. A negação e destruição dos sonhos destes meninos deve implicar-nos a todos, incluindo os mais acomodados num mundo de paz.

 

Ainda que ao longe, o nosso contributo é possível e importante, seja através da oração, como pede o Santo Padre; da compaixão, padecendo com o outro, como sugere Maria Calderón, uma psicóloga espanhola que trabalhou no Congo com crianças "resgatadas" aos grupos armados; e de uma cultura de paz, a que estamos chamados sobretudo enquanto cristãos.

 

Elisabete Carvalho

 

 

 

A VOCAÇÃO

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Caro leitor, hoje vou-lhe falar da vocação.

A vocação é-nos dada por Deus. A vocação é o que corresponde ao mais fundo do nosso ser. A vocação revela-se quando contacta com determinada(s) circunstância(s).

A vontade de Deus revela-se através da nossa vontade mais íntima. Mas essa vontade mais íntima tem que se ir construindo através da reflexão sobre as experiências que vamos tendo, se bem que também possamos descobrir a nossa vocação numa experiência de amor à primeira vista, mas que depois tem que ir sendo confirmada.

É assim que vamos descobrindo o que é que queremos fazer na vida, com quem é que queremos casar, se queremos seguir a vida religiosa, se queremos este ou aquele emprego.

E qual é a vocação de tanta gente que arranja um emprego só para ganhar a vida?

Eu acho que, dentro de certos parâmetros, as pessoas, quando «escolhem» um emprego, já se orientam mais ou menos para uma área para a qual acham que têm vocação. Por exemplo, normalmente um homem, por muito que precise de emprego, só se tiver determinadas características é que se candidata, por exemplo, a servente de pedreiro ou taxista. A pessoa sem grande especialização ou com uma especialização em que o mercado já está saturado, candidata-se a uma área de trabalho. Digamos que tem vocação a determinada área. Estou a lembrar-me de uma rapariga que se formou numa área em que o mercado de trabalho está saturadíssimo e aceitou um emprego como vendedora numa loja, mas não quis ir servir num café. Lá entendeu que era uma área do serviço aos clientes para a qual não tinha vocação.

E Deus no meio disto tudo? É Deus quem nos dá a vocação através do nosso pensamento, das nossas características, da nossa circunstância e, sobretudo, através do que temos no mais fundo de nós mesmos.

Por isso é que ajuda fazermos as escolhas com Deus, para termos a certeza que estamos a ser completamente honestos e que estamos a entrar em linha de conta com a nossa cabeça e o nosso coração.

Há várias problemáticas que se prendem com a vocação sobre as quais eu não tenho espaço para falar: as situações em que a vocação da pessoa é frustrada por alguma infelicidade. Ou porque a pessoa se droga, ou fica paraplégica ou alguma outra circunstância que a impede de desenvolver os seus talentos. Mas se o leitor quiser que eu lhe fale sobre isso, escreva-me para millerguerragoncalo1@gmail.com.

E é tudo. Bom Advento e Bom Natal.

 

Gonçalo Miller Guerra, s.j.

 

FELIZ ANO NOVO

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“Feliz Ano Novo!”. “Happy New Year!”. “Felice Anno Nuovo!”. A mensagem foi partilhada por uma pessoa amiga. “Caiu-me” estes dias no meu perfil de uma rede social. No meio de pensamentos tão distintos, entre imagens de locais a visitar, informações sobre as últimas notícias do país e do mundo, anúncios de imóveis, sugestões de gastronomia, publicidades a presentes ou promoções ótimas para as compras natalícias, chamou-me a atenção. Chamou-me a atenção e fez-me pensar.

Ano Novo? Já? Depois pensei: “sim, faz todo o sentido”. Este domingo [27 de novembro] começou um novo ano litúrgico. Neste caso concreto, começámos o Ano A, durante o qual é proclamado, nas eucaristias dominicais, o Evangelho de São Mateus. Como um sacerdote amigo dizia há dias, não temos foguetes, não temos champanhe... mas festejamos esta passagem de ano.

Apercebemo-nos disso? Provavelmente, até reparamos que o sacerdote estes dias veste um paramento de uma cor diferente, até constatamos que na igreja onde costumamos ir há sinais exteriores de que este é um tempo novo (uma decoração mais singela, uma coroa com várias velas, que se vão acendendo semana após semana...). Mas, vemos esse tempo apenas como os dias que antecedem o Natal e todos os preparativos a ele associados? Ou temos a noção que este é verdadeiramente um novo ano, o início de um novo ciclo?

Sendo um novo ano, podemos aproveitar esta passagem de ano para festejar, para formular votos de felicidade a quem conhecemos, para assumir propósitos e objetivos, que queremos concretizar. Tal como fazemos, com tanta naturalidade, na passagem de ano civil, de 31 de dezembro para 1 de janeiro... em cada ano.

Se nessa altura já nos habituamos a definir objetivos concretos, adaptados à vida e circunstâncias particulares de cada um, na passagem de ano que agora celebrámos também nos podemos preocupar em formular propósitos... por exemplo, propósitos que nos aproximem mais de Deus.

Porque não, por exemplo, assumir o desafio de praticar as obras de misericórdia, fazer o propósito de cuidar melhor os momentos de oração, procurar verdadeiramente estar em paz connosco próprios, com os outros e com Deus, celebrar o sacramento da reconciliação com verdadeiro sentido de arrependimento e desejo de conversão? Porque não aproveitar para fazer uma leitura há tanto tempo ansiada, e constantemente adiada? Porque não simplesmente aproveitar para estar mais tempo em silêncio, sem preocupações especiais, simplesmente contemplando a criação e deixando as coisas acontecer?

Que este novo ano, que agora começou, seja verdadeiramente diferente. Por isso, “roubando” a ideia à pessoa amiga que formulou os votos nas redes sociais, aqui ficam os meus votos de “Feliz Ano Novo!”

 

Cláudia Pereira

 

 

A-DEUS, LEONARD

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A música de Leonard Cohen começou a fazer-me companhia ainda na adolescência. Escutando a rádio, era surpreendido, de vez em quando, pela sonoridade profundamente melancólica daquela voz inimitável, grave como nenhuma outra. E ficava à espera da próxima vez em que a rádio me traria de novo aqueles sons únicos.

Bastante mais tarde, já no tempo dos CD, comecei a poder comprar: sem método, nem regra, um CD agora, outro depois. Comprava os CD de Leonard Cohen como comprava livros: quando podia, pelo prazer de os ter, pela alegria de os ouvir, porque começava a entender as palavras e ia descobrindo, para além do músico, um poeta extraordinário.

Leonard Cohen não juntava palavras para pendurar numa música. Cantava histórias, de amor, de perda, de solidão, mesmo quando essas histórias não rimavam com coisa nenhuma, a não ser com corações quebrados pelo passar dos anos e pelo desgaste que a vida traz. Histórias de mulheres amadas ou símbolos do amor (Suzanne, Marianne, Joan of Arc...), histórias de gente quebrada, como o mendigo nas ruas de Nova Iorque com um letreiro onde se lia Please, don’t pass me by – I am blind, but you can see (e uma fabulosa interpretação ao vivo, em Londres, na qual todos somos cegos e gritamos para não nos passarem ao lado!), histórias de amores românticos feitos de abandono e tristeza, porque amor rima sempre com dor...

Depois, soube que Leonard Cohen, canadiano de nascimento, era de ascendência judaica. E isso ajudou-me a reler algumas das suas poesias, tão marcadas por figuras bíblicas ou pela liturgia judaica. Leonard Cohen já não era apenas o poeta que lutava com uma humanidade quebrada, mas também um homem em luta com Deus: Jacob e o Anjo. Agora podia acompanhá-lo interiormente no seu Hallelujah, pois, por muitos erros que se cometam, há um raio de luz em cada palavra...; ou caminhar ao lado de Abraão e Isaac, até ao cimo do monte, numa das suas mais estranhas e pungentes poesias (Story of Isaac), trazendo para hoje uma das narrativas mais arrepiantes de toda a Bíblia: vós que construis agora estes altares para sacrificar estas crianças, não o façais nunca mais.

Leonard Cohen morreu a 7 de novembro, com 82 anos. No mês anterior, tinha publicado o 14º álbum. A poesia que lhe dá o título não podia ser mais elucidativa – You want it darker – We kill the flame. Leonard canta um mundo que escurece, a vida que se vai apagando, um Deus com O qual não pode deixar de lutar. Mas conclui: Hineni, hineni (Aqui estou, em hebraico), acrescentando: Estou pronto, meu Senhor.

Leonard Cohen terminou a sua luta com Deus. As suas palavras e a sua música continuam a acompanhar-me na minha – até esse dia em que espero poder dizer adeus e entregar tudo A-Deus.

 

Elias Couto 

 

 

 

 

NOVEMBRO BEM MERECE UMA REFLEXÃO

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Hoje, dia em que começo esta nota, o tempo está tristonho e fechado, com sabor melancólico. Dizem que é outono e outono é assim, e, porque é assim, até deu aso à expressão “outono da vida” para descrever a velhice. novembro coube-lhe nascer aqui, emparedado entre um pré-anúncio de fim de alguma coisa e começo de algo que quer nascer. Naquela árvore a despir-se lentamente das folhas amarelecidas caindo abandonadas no passeio, ou nos dias mais pequenos onde a noite parece ter pressa em engolir o dia e a escuridão em matar a luz, há qualquer coisa que novembro quer esconder sem esconder e mostrar sem mostrar, contentando-se com apontar para a folha nova que irá nascer, para outro dia com luz, até chegar, espero, o “Dia sem Ocaso” e a “Grande Luz” profeticamente anunciada em Isaías: “Um povo que andava nas trevas viu uma grande luz”. Sabemos a Quem se referia. Mais do que morrer, novembro parece fermentar vida futura.

 

Em termos litúrgicos, abre com a celebração da Vida plena (Solenidade de Todos os Santos), imediatamente seguida da lembrança da Morte na Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos (“Mês das Almas”, gosta de lhe chamar a piedade popular), para fechar o mesmo ano litúrgico com o Triunfo de Cristo Rei, saído vitorioso da morte como Senhor Ressuscitado. Desta forma “fecha”, “abrindo” tempo novo em que a Vida vence a Morte, deixando-nos o fim do ciclo litúrgico aberto em esperança e como Esperança que o Credo recolhe no seu último artigo de fé (“Espero a ressurreição dos mortos e a vinda do mundo que há de vir”). Será tempo sem tempo, será “Vida Eterna” (que dura sempre), será o “aqui” aberto ao “além” desta vida onde habita o mistério de Deus e do Homem, alargando os horizontes da vida humana, e, mais importante, dando-lhe sentido. A vida não acaba, apenas se transforma (recebe outra forma) de mortal em imortal. Acaba “esta” vida, não acaba “a” vida.

Este “além” sempre foi, é e será uma questão essencial, inquietante e incontornável para o homem em geral e para cada um de nós em particular, caso não queira (não queiramos) fazer desta vida um absurdo qualquer à boa maneira de Sartre. A história tem tentado responder-lhe com a reincarnação e a imortalidade. Em ambos os casos a outra vida fica fora de mim, quer recomeçada noutro (reincarnação), quer prolongada noutros, de geração em geração (imortalidade). novembro fecha para abrir o Natal, o mesmo é dizer o Nascimento de Alguém que dirá de si mesmo: “Eu Sou a Ressurreição e a Vida”, abrindo com Ele o meu amanhã onde serei Eu e não outro ou lembrança de outros.

É este “além” que explica os martírios dos irmãos Macabeus de que fala a Bíblia perante as exigências de apostasia por parte do rei sírio (“Vale a pena morrer às mãos dos homens, quando temos a esperança em Deus de que Ele nos ressuscitará” – 2Mac 7, 14) e de tantos mártires ao longo da história da Igreja. O verdadeiramente trágico não é o que acontece a esta vida ou nesta vida, mas o que sobra para além dela; o trágico não é morrer, mas ficar na morte. Por isso aqui fica a minha profissão de fé na ressurreição dos mortos e a vinda do mundo que há de vir, traduzida em palavras da 2Ped 7, 14: “Nós, porém, segundo a sua promessa, esperamos céus novos e uma nova terra, onde habite a justiça”. São palavras de esperança. Com ela faço votos que novembro nos entregue um bom dezembro, onde o Senhor quer vir ao nosso encontro, para connosco continuar a ser o Caminho dos nossos caminhos na senda desta Esperança.

P.S.: Hoje, dia em que termino a nota, o tempo está solarengo, embora frio. Nem de propósito.

A. da Costa Silva, s.j.