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Blogue do Apostolado da Oração

O Dom da Gratidão

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Ainda bem pequenina, ouvia a minha avó dizer que há pessoas que estão sempre de mal com a vida. São infelizes e fazem os outros infelizes. Nada, nunca está bem para elas. Nos seus melhores dias, está tudo mais ou menos.

Lembro-me muitas vezes das palavras da minha avó, sobretudo quando conheço ou convivo com pessoas assim. São de uma negatividade e pessimismo quase contagiantes. O sol brilha, faz calor. A chuva cai, traz frio. Estas pessoas são simplesmente mal-agradecidas. Exigem da vida, de Deus e dos outros. Não sabem dar sem pedir em troca.


Aceitar e agradecer é um dom tão grande quanto maiores as dificuldades com que nos deparamos. Não é fácil ter um coração agradecido quando perdemos alguém que amamos, quando somos confrontados com uma doença grave, quando o sustento da nossa família está em causa, quando somos obrigados a um novo rumo que não prevíamos. É muito difícil compreender e ainda mais agradecer os momentos de dor e sofrimento. Mas é possível, quando se confia em Deus.

Quem tem um coração agradecido consegue enxergar o bem, a alegria e a felicidade até nas mais pequenas coisas. No sol que brilha e na chuva que cai. Num gesto solidário ou num sorriso de bom dia. Quem sabe agradecer as pequenas coisas do dia a dia, por norma, lida melhor e com mais ânimo com os grandes problemas.

As pessoas serenas e agradecidas são mais felizes. A felicidade advém de um coração cheio de amor, de fé e de esperança. Mas também da simplicidade e da generosidade. Só assim é possível encontrar o equilíbrio e a harmonia indispensáveis para viver bem, em sintonia com Deus e com os outros.

Como dizia a minha avó, as pessoas de mal com a vida deviam aprender a ter mais fé, a confiar mais em Deus e nos outros e perceber que não adianta viver à espera de recompensas para aquilo que querem, que a recompensa só chega quando se age de forma gratuita e desinteressada. Que a alegria e a felicidade dependem de cada um de nós.

 

Elisabete Carvalho

 

Os Efeitos da Ressurreição

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Cada amanhecer vem sempre carregado de uma promessa, uma nova oportunidade, uma passagem da escuridão e do silêncio da noite à luz e aos rumores do novo dia. Cada noite tem as suas histórias condensadas com o cansaço dos dias, dos pensamentos e emoções vividas, coloridas em tons de amor e também de sofrimento. São as histórias de cada um de nós, que podemos contar e meditar no coração.

Damo-nos conta que há amanheceres discretos e rotineiros, outros há que trazem consigo força e medo, mas há outros, únicos, que transcendem os dias passados e transfiguram aqueles que hão de vir.

A Páscoa de Jesus, o amanhecer do primeiro dia da semana, é o acontecimento que mudou para sempre os despertares e a história dos discípulos, a começar por Maria Madalena, as Santas Mulheres, Pedro, a Mãe Maria, os Onze e tantos outros que foram arrancados de uma noite profunda e triste para o Dia que fez novas todas as coisas.

Dois mil anos nos separam deste amanhecer único e tendemos a deixá-lo, com alguma nostalgia, inscrito na história do Evangelho e das suas testemunhas oculares. Mas as palavras de Jesus dirigem o nosso coração para uma atitude diferente, que tantas vezes esquecemos: “Eu estarei convosco até ao fim dos tempos!”; e ainda: “Felizes os que acreditam sem terem visto!”.

Os efeitos da santíssima Ressurreição não são dados à contemplação dos nossos olhos, tal como vemos o Sol que cada manhã se levanta. São um convite à contemplação transfigurada da vida, do mundo, das nossas relações, do trabalho de cada dia, do sofrimento e da morte, através dos olhos da nossa alma, onde ficou escrita a grande notícia: “Cristo ressuscitou!”. Cada amanhecer traz esta notícia, que não é apenas um dado da nossa fé, mas sim o caminho que a vida de hoje (este hoje) nos dá o privilégio de percorrer.

Que esta atitude de ressurreição contínua, na presença, na paz, na alegria e amor do Senhor Ressuscitado nos acompanhe sempre.

São estes os votos do Secretariado Nacional do Apostolado da Oração a todos aqueles que vão seguindo a nossa missão e colaborando no nosso serviço! Que o Senhor nos dê a graça de ajudar a todos a crescer na intimidade com o amor do Coração de Cristo Ressuscitado, unidos ao Santo Padre e à sua Rede Mundial de Oração, pelas intenções que ele traz no coração, para bem da Igreja e do Mundo. 

Uma Santa Páscoa!

 

 

P. António Valério, sj 

 

 

Uma Desgraça Nunca Vem Só

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Há poucas semanas, mais exatamente no dia 24 (março, 2017), fomos abalados com o assassinato de cinco pessoas (uma na barriga da mãe). Todos ficámos horrorizados perante tão bárbaro assassinato. Alguns perguntaram-se sobre a sanidade mental do agressor. Todos querem medidas que previnam tais «matanças».


A leitura comum do acontecimento é o horror perante a barbárie, o chorar com as famílias das vítimas, a transformação de uma tragédia privada num espetáculo público.


Mas há uma abordagem cristã do crime: o acolhimento do pecador, o acolhimento do criminoso. Temos que o acolher no nosso coração. Temos que o olhar nos olhos e dizer-lhe: «vem, entra dentro de mim que eu aconchego-te». Não é fácil, mas nós não temos uma religião fácil. Vai contra o nosso instinto, mas não é o instinto que nos comanda. (Ou é?) O que nos comanda – o que nos tem que comandar – é o Evangelho.

No Evangelho, Jesus perdoa e acolhe (!) sempre que as pessoas não lhe são hostis. Jesus não perdoa o pecado da dureza de coração dos fariseus, dos escribas e dos sumos sacerdotes, Jesus não Se pronuncia face ao pecado do chamado mau ladrão. De resto, não só perdoa como vai à procura da ovelha perdida. Este homem está perdido. É nosso dever irmos à procura dele com o nosso coração, com o nosso pensamento, com a nossa oração. É um homem desgraçado.

Nós, cristãos, estamos com ele. Nós, cristãos, perdoamos. E, se perdoamos, é porque há alguma coisa a perdoar. Há um crime que não varremos para debaixo do tapete. Mas distinguimos com clareza o crime do criminoso. Perdoamos o criminoso e pedimos para ele o perdão de Deus. Amamo-lo.

Mais. Distinguindo com clareza o crime do criminoso, o cristão – o leitor e eu – não nos julgamos melhores que o criminoso. O cristão pode dizer: «eu não pratiquei aquele crime». Não pode dizer: «sou melhor que aquele homem». E quantos de nós não nos sentimos melhores no nosso sofá ao ouvir as notícias na televisão. Nesse caso, Cristo vira-nos as costas e vai atrás daquela ovelha perdida.

Sejamos companheiros de Jesus, sejamos filhos do mesmo pai: amemos aquela ovelha desgarrada.

Gonçalo Miller Guerra, s.j.

Uma Carta ao Fim do Dia

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Senhor, hoje estou aqui para falar um pouco Contigo. Por isso, resolvi escrever esta mensagem.

Tenho sentido alguma sede de momentos mais fortes de oração, de crescimento interior. Por isso, decidi pedir alguns conselhos. Como quando precisamos de algo que não conseguimos obter sozinhos procuramos ajuda, também pus os pés a caminho.

Sabes, acho que é bom não termos receio de procurar ajuda quando precisamos. Deixando de lado um pouco de orgulho próprio, é bom abrir o nosso coração, deixando-o acolher o que outros nos transmitem. Sim, porque também a nível espiritual ninguém cresce sozinho.

Foi bom poder parar; poder sentir que estava a ter uns momentos para mim, momentos esses que depois me ajudam a melhorar a relação com os outros, na família, no trabalho, na comunidade.

Agradeço a disponibilidade e espírito de serviço de quem me escutou e me alertou para a importância de temperar a vida e os gestos do dia a dia com muito amor.

Os conselhos que recebi têm sido muito úteis e até tenho transmitido alguns deles a outras pessoas. É impressionante como gestos e palavras tão simples, muitas vezes banalizados, podem ter um efeito surpreendente.

O caminho vai-se fazendo... umas vezes num terreno mais uniforme, em que tudo “rola” sem dificuldade, outras vezes de forma mais irregular. Mas é assim mesmo!

Nesta caminhada de crescimento, entra também a celebração do sacramento da reconciliação, celebrado sem pressas, abrindo o coração a Deus e não simplesmente “despejando” uma lista de pecados.

Porque há sempre coisas para limpar no coração. E saber que alguém nos ouve e que somos perdoados é importante também para crescermos.

Desculpa o desabafo, mas precisava de escrever esta mensagem para expressar o que vou sentindo. Obrigada pela atenção!

 

Cláudia Pereira

 

Ódios e Populismos

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Há dias, vi o vídeo de uma mulher numa manifestação. Desvairada, insultava os polícias com os piores palavrões. Pior do que isso, era o ódio evidente no modo como se dirigia aos agentes da autoridade. E, pelo meio, gritava: EU SOU PROFESSORA! Perguntei-me o que podia ensinar alguém assim...

 

1. A resposta acabou por me surgir, pensando no contexto da manifestação. Tratava-se de uma manifestação contra alguém democraticamente eleito, mas cuja eleição o “campo” contrário simplesmente se recusava a aceitar. O que naquela manifestação e noutras semelhantes se afirmava era o ódio como forma de fazer política – mas atirando sobre “os outros” a responsabilidade pelo ódio e o facto de odiar. Aquela PROFESSORA, afinal, podia ensinar muito aos seus alunos. Podia ensinar-lhes como, orwellianamente, se muda a linguagem e se faz do concidadão com ideias diferentes um não-ser ou um não-humano.

 

2. Acontece o mesmo com o insulto da moda, em política: “populista”. “Populistas” são aqueles que se predefiniu como pertencendo à “direita”, politicamente falando. Entre nós, por exemplo, a líder de um certo “bloco” pode dizer os mais bafientos disparates estalinistas ou maoistas, fazendo apelo aos instintos mais básicos das “massas”, que ninguém estranha nem lhe chama “populista”. E o governo da geringonça pode prometer “sol na eira e chuva no nabal” a todos e todos os dias do ano, que ninguém chama a isto “populismo”. Esse é um epíteto-insulto com que só a direita – sem direito de cidadania plena nos nossos regimes politicamente corretos – tem direito a ser mimoseada.

 

3. Na Europa, e não só, começa a tornar-se evidente o cansaço de muita gente com o internacionalismo marxista, disfarçado de progressismo, que domina grande parte das “elites intelectuais” e com o multiculturalismo serôdio das mesmas elites, no qual só não há lugar para as tradições culturais dos povos europeus. Chamar “populismo” a este cansaço pode funcionar durante algum tempo, mas a prazo só vai aumentar o cansaço. Insistir nisso e tratar com desprezo as pessoas que se sentem órfãs da sua cultura pode vir a revelar-se, parafraseando um famoso ditador, “a mãe de todas as desgraças”.

 

Elias Couto

 

 

 

Ao Encontro da Páscoa pelo Caminho da Quaresma

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Estamos a caminho da Celebração da Páscoa do Senhor e, através dela, das nossas páscoas como vivência e experiência cristãs. A Quaresma como caminho e percurso chega sempre carregada de ressonâncias bíblicas assente em algumas ideias-chave: o “deserto” (lugar de solidão, afastamento e lonjura); a situação de “fome” e “jejum” (lugar de carência) levando a realidade humana para o mundo das miragens e tentações; o “monte” (Sinai/Horeb) como lugar privilegiado de encontro com o Sagrado onde Deus revela e Se revela ao homem e de onde nascem decisões transformadoras de vida e missões clarificadas.

 

Hoje chamar-lhe-íamos lugar privilegiado de oração onde o homem encontra Deus e Deus encontra o homem nas suas fragilidades, inseguranças, fugas e medos. Foi a grande graça concedida a Moisés que, fugido para as montanhas de Madian e mais conduzido pelo rebanho do sogro do que por vontade própria, chegaria ao monte Horeb, onde faria a experiência da Sarça Ardente, recebendo como missão a condução dum povo que o livro do Êxodo contará longamente.

 

Julgo importante recordar três experiências bíblicas pelo que de esclarecedor têm como paradigma da nossa caminhada quaresmal, quer em Igreja, quer a nível pessoal. No deserto entrou o povo bíblico como um amontoado de doze tribos; nele caminhou quarenta anos até chegar à Terra Prometida como “povo” e “Povo de Deus”; encontrando Deus, encontrou-se a si mesmo na sua identidade e missão futura.

Para o deserto, com medo da ameaça de morte por parte da rainha Jezabel, fugiu Elias de si mesmo e da missão profética durante quarenta dias e quarenta noites; nele andou perdido até cair de cansaço e sono; aí o encontra Deus e alimenta para continuar a caminhada até ao Monte Horeb, onde recebe a força necessária para novamente regressar à missão e a si mesmo.

No deserto Se refugiará Cristo durante quarenta dias e quarenta noites para responder à forma concreta como devia realizar a missão recebida do Pai, vencendo na sua pessoa a tríplice tentação de todo e qualquer homem: a tentação do material (“Não só de pão vive o homem”), da vanglória (“Não tentarás o Senhor teu Deus”) e do poder (“Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto”). Será apenas e tão só Servo e Filho do Homem (um de nós, connosco e no meio de nós), abrindo, desta maneira, no seu caminho o nosso caminho pascal pela linha do serviço.  

É para este “deserto” que a Igreja nos convoca; é para este “monte” onde Deus nos espera que somos convidados a partir com os nossos medos, fraquezas e limitações. Só que fica no ar uma pergunta: onde está esse deserto e esse monte?

Cristo nunca perdeu a noção do deserto e do monte na sua vida pública. As Bem-aventuranças foram proclamadas no monte, a escolha dos Doze Apóstolos foi antecedida duma longa oração no monte, no seu dia a dia retirava-Se com frequência para “um lugar deserto”, no Horto separa-Se dos seus discípulos (“Sentai-vos aqui enquanto Eu vou além orar”) e aos seus discípulos recomenda o estar só com Deus (“Tu, porém, quando orares, entra no quarto mais secreto, fecha a porta e reza em segredo ao teu Pai e Ele que vê o oculto, há de recompensar-te”).

É para dentro deste ambiente que hoje sou convidado a entrar; é para dentro da realidade profunda do nosso mundo pessoal, onde apenas entram Deus e eu, que o mesmo Deus nos chama. Talvez esteja aí o nosso deserto, cheio de solidão, vazio de tentações; talvez esteja aí o mundo das renúncias por fazer para que, através do jejum e abstinência, aprendamos a abdicar (abster-se) do “mais” em favor do “melhor” e a dizer “não” para sermos capazes de dizer “sim” à vontade de Deus e ao seu projeto, projeto este que nos leva necessariamente aos irmãos para, juntos, continuarmos a nossa caminhada quaresmal ao encontro da Páscoa e das nossas páscoas.

 

A. da Costa Silva, sj

QUARESMA: CAMINHADA NA SANTIDADE

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A Quaresma coloca-nos a caminho para conseguirmos chegar à Páscoa que é a passagem, que é a conversão ao amor de Jesus e dos outros. O esforço da Quaresma tem de ser o caminho do amor a Deus na oração, no louvor, na meditação da Palavra, na presença a Jesus do sacrário, na contemplação das suas dores, paixão e morte, e no amor do próximo recordando o mandamento novo da caridade fraterna e lembrando a palavra do Papa Francisco: o outro é um dom. Acolher o outro como dom, tratá-lo como dom, amá-lo como dom, servi-lo como dom de Deus, é o nosso caminho quaresmal.

 

A santidade é o amor, é a vida de Deus em nós, é a seiva divina que nos transforma e converte. A oração e a penitência só têm sentido se nos levam a amar, amar mais, amar melhor. Então tudo deve convergir para uma caminha que tem por meta o amor. Só amando seremos mais santos, ficaremos preparados para a Páscoa, seremos discípulos amados do Mestre, que foi à Cruz e deu a vida por nós. Amar sempre, nunca desistir de amar. Amar em casa, a família, amar na paróquia e ser elo de ligação e de unidade, de ausência de crítica e de rancor e divisão. Amar sobretudo o pobre, o doente, o que vive só, o que está mais abandonado, isolado, marginalizado. Amar e servir no emprego, na escola, na universidade. Ter o coração aberto aos outros que são dom de Deus para serem amados.

 

A alma do mundo está doente, o coração da humanidade está doente. E a grande doença é a falta de amor. Daí haver tanta guerra, tanto crime, tanto egoísmo, tanto ódio, tanto desprezo pelos milhões que vivem com fome, sem casa, sem emprego, sem alegria, sem carinho, sem amor. Mundo cruel, satânico, manobrado pelo pai da mentira, pelo príncipe das trevas. Mundo da opulência, do dinheiro que manobra e tece enganos, furtos, condenações horríveis, marginalizações criminosas, corrupção, falta de liberdade interior. Se houver mais amor evangélico, haverá menos abortos, menos adultérios, menos fome, menos desprezo pela pessoa humana que é para nós um dom de Deus. Se houver mais amor, haverá mais justiça, mais distribuição e partilha de bens, mais proximidade do pobre, do sem-abrigo, do doente, mais respeito pela liberdade humana e pela dignidade de cada pessoa. Um mundo com a alma e o coração doente, gravemente doente, onde reina a mentira, a injustiça, a exploração, o tráfico de pessoas humanas, onde se despreza a Deus, a sua lei, a sua Igreja, e onde se matam homens e mulheres criados à imagem de Deus.

 

Corações endurecidos pelo poder, pelo dinheiro, pelo ódio, com ânsia de morte, de destruição. Corações endurecidos que não se debruçam para ajudar, para servir, para partilhar o que são e têm. Corações endurecidos pela ânsia de prazer, de comodismo, minados pelo egoísmo feroz e cruel, que semeia dor, fome, e não estende a mão nem abre o coração ao mais pobre e marginalizado. Corações endurecidos que perderam o dom de amar, de olhar os outros com carinho, com desejo de servir, de ir ao encontro de quem sofre, semeando com audácia, pão e paz, amor e alegria, verdade e justiça.

 

 

Viver a Quaresma com sabor a Páscoa amando sem cessar, descobrindo modos concretos de amar mais e melhor. Imitar o Senhor Jesus “que passou fazendo o bem e curando a muitos” e que foi até ao extremo do amor na morte como dom pleno de Si mesmo. Imitá-Lo, viver à sua semelhança, fazer tudo para que a Quaresma seja caminhada de amor rumo à Páscoa. A oração diária deve conduzir-nos ao amor. A Eucaristia deve ser cada dia “escola de amor”. Só amando seremos mais santos, mais felizes, mais parecidos com Jesus, o Divino Mestre. Amar sempre, amar a todos, amar mais, não se cansar de amar. Semear com nosso exemplo e testemunho de vida o amor evangélico, a caridade sem limites, a partilha generosa, o desejo de só fazer e dizer o bem, o serviço dedicado aos outros, a atenção atenta aos necessitados, a partilha feita com delicadeza e generosidade. Um caminho quaresmal semeado de caridade, vivido em caridade, partilhando amor, gerando Cristo num mundo doente que só com Ele poderá ser curado.

 

Dário Pedroso, sj

 

 

 

O manto da misericórdia

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A nossa forma habitual de pensar tende a ver o caminho cristão como um caminho de aperfeiçoamento, um caminho de crescimento pessoal, ético e religioso. A vivência cristã corresponde, na nossa mentalidade, a um tentar chegar cada vez mais perto a um modelo de virtude (que tendemos a identificar com Cristo).

 

Aqui entra o paradoxo: a abertura à experiência da Graça provoca em nós um baixar das nossas defesas. Percebemos que, nas narrativas dos Evangelhos, os discípulos são chamados a passar progressivamente do lado dos fariseus e doutores da lei (seguros da sua justificação), para o lado dos que reconhecem as suas feridas e clamam a Jesus: «Senhor, tem piedade de nós» (cf. Lucas 18, 35-43).

 

Talvez este seja um sentido privilegiado do tempo de Quaresma que agora se inicia: através dos sinais (as cinzas, o jejum, a esmola), e através de um escutar mais aberto e atento das Escrituras, poderemos ser acolhidos na experiência da Misericórdia que nos faz nascer de novo, ainda que sejamos velhos (de idade, de mentalidade... cf. João 3, 2-3). Assim poderemos compreender as palavras libertadoras de Isaac de Nínive, monge cristão do século VII:

 

«Deixa-te perseguir, mas tu não persigas;
deixa-te crucificar, mas tu não crucifiques;
deixa-te ultrajar, mas tu não ultrajes;
deixa-te caluniar, mas tu não calunies.
Sê alegre com os que se alegram;
chora com os que choram.
Tal é o sinal da verdadeira pureza.
Sofre com os que sofrem;
compadece-te dos pecadores;
e alegra-te com os que se arrependem.
Sê amigo de todos...
Estende o teu manto sobre aqueles que vês cair em pecado e cobre-os;
e se não podes carregar sobre ti o seu erro,
e receber em sua vez a punição,
não os oprimas mais»1.

 

Que o manto da misericórdia nos abra os olhos e o coração, para contemplarmos a manhã de Páscoa. E que esta Quaresma seja um tempo feliz e fecundo.

 

 

Rui Vasconcelos

 

 

1Isaac de Nínive, Discursos Ascéticos, 58; citado em A Via da Misericórdia (org. Isidro Lamelas), Lisboa 2016, p. 44.

Imagem: Georges Rouault, Christ moque par soldats, 1932

A "alegria ao poder" ou o poder da alegria

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Estamos em maré de Carnaval. Ninguém levará a mal que fale da alegria. Embora a alegria seja para exercitar todos os dias de todos os anos. Embora nem todos os tipos de alegria, no Carnaval ou fora dele, sejam de recomendar. Há que cultivar a alergia à alegria cínica e trocista, à alegria irónica e mordaz. Que alegrias tão tristes e deprimentes, em contramão e marcha-atrás do sentido único do sorriso amigo e da festa fraternal!

 

A alegria foi inventada desde sempre por Deus família de ótimo bom humor (Pai, Filho e Espírito Santo), fonte inesgotável de júbilo e festa. A sisudez, austeramente tristonha, não pode vir de Deus. É uma emanação do inferno de Lúcifer e companhia. A história, sem começo nem fim, de Deus eterno é um hino à alegria jubilosa, aconteça o que acontecer. É uma história de salvação, apesar de todos os desvarios humanos, por vezes gravíssimos, de bradar aos céus. Felizmente que Deus tem superabundante bom humor, respondendo aos nossos desacatos e malvadezas com um sorriso misericordioso, maternalmente paternal.

 

Criados à imagem e semelhança de Deus, todos temos o ADN divino da alegria bem humorada. Mas cada um segundo o seu jeito e estilo. Há a alegria dos extrovertidos e a dos introvertidos; a alegria dos espontâneos e a dos reflexivos; a alegria daqueles a quem tudo correu ao seu gosto e a alegria purificada pelo sofrimento. Não podemos sonhar com uma alegria cor-de-rosa, soft e fácilzinha, ensaiada para as ocasiões em que o vento sopra de feição nos mastros do barco da nossa vida. A alegria deve ser estilo arco-íris, integrando as cores mais luminosas e as mais obscuras. Não é de noite que mais precisamos da luz? Não é no abismo da angústia que mais urge plantar os amores-perfeitos da alegria?

 

Poderá alguém objetar: Eu sou uma pessoa séria. Não me peçam para ser folgazão. Tenham paciência, mas nunca alinharei em ser folião num cortejo de Carnaval. Há gente que leva a vida a rir, mas eu quero levar a vida a sério… Importa sublinhar que a seriedade sã deve andar de mãos dadas com a alegria. O conhecido artista Almada Negreiros afirmou, por escrito e com a vida, que «a alegria é a coisa mais séria deste mundo». Alguns dizem que Cristo chorou várias vezes, mas nunca riu. É uma injusta acusação a quem foi «perfeito Deus e perfeito homem» e assim nos exortou no seu discurso de despedida: «Que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa» (João 15, 11). Viver na alegria é cumprir a vontade explícita de Cristo. A alegria é um mandamento humano e cristão, não numa opção de luxo para psicologias divertidas e hilariantes. Não é um adorno, mas uma trave-mestra de quem vive orientado por Deus Amor. «Deus é alegria» afirmou o Papa Paulo VI. Paul Claudel, poeta e dramaturgo de renome, esclarece que «o único dever neste mundo é a alegria». É o dever de ser feliz fazendo felizes os outros. São Paulo recorda aos cristãos esta obrigação: «Alegrai-vos sempre no Senhor. De novo vos digo, alegrai-vos!» (Fl 4, 4).

 

Não basta ser alegre. É preciso dar qualidade à alegria. Não à chalaça, à troça e à chocarrice. Há que dar graça às nossas graças para que sejam cordialmente engraçadas. Importa crescer na qualidade amorosa da alegria, até atingirmos o planalto da consolação e alcançarmos o cimo do júbilo e o cume da exultação.

 

Um nosso conterrâneo, de há 14 séculos atrás, S. Martinho de Dume, exortava-nos à ascética da antitristeza para chegarmos à mística do júbilo: «À tristeza, se puderes, não lhe dês entrada no coração; se não puderes, não a ostentes no rosto». Obrigado, irmão Martinho, por esta exortação de um idealismo tão realista.

 

O Papa Francisco tem sido um corajoso profeta da alegria. As suas duas exortações apostólicas são como o diapasão pelo qual afinar toda a nossa vida: «A alegria do Evangelho» e «A alegria do amor». Das múltiplas citações que poderia fazer na linha da alegria, cito apenas esta passagem de «A alegria do amor»: «As alegrias mais intensas da vida surgem quando se pode provocar a felicidade dos outros, numa antecipação do Céu. Vem a propósito recordar a cena feliz do filme A festa de Babette, quando a generosa cozinheira recebe um abraço agradecido e este elogio: “Como deliciarás os anjos!”. É doce e consoladora a alegria de fazer as delícias dos outros, vê-los usufruir delas. Este júbilo, feito de amor fraterno, não é o da vaidade de quem olha para si mesmo, mas o do amante que se compraz no bem do ser amado, que transborda para o outro e se torna fecundo nele» (n. 129).

 

Permitam-me propor-vos este programa de Carnaval: um desfile de horas e lugares para alegrar a todos os que encontrar. Um programa de «Tristeza zero. Alegrias mil». Vai ser também o meu programa.

 

A alegria ao poder? O poder da alegria! É imenso. Capaz de ressuscitar mortos de tristeza.

 

Manuel Morujão, sj

O filme “O Silêncio”

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Por esta altura, muitos dos que me leem já terão visto o filme “O Silêncio”, de maneira que já se poderão posicionar face a umas observações que se me ocorre fazer.


Perto do fim do filme, Rodrigues renega a sua fé publicamente, parece-nos que para salvar aqueles que estão com a cabeça enterrada nas covas a morrer lentamente. Mas a sua apostasia vai tomar uma dimensão que estilhaça os limites da privacidade daquele ato. Os japoneses não deixam que se pense que aquilo foi apenas um momento de fraqueza; obrigam-no a provar – tanto quanto exteriormente é possível provar, e é só isso que lhes interessa – que renegou a fé para sempre, obrigando-o a converter-se ao Confucionismo, fazendo-o apostatar com regularidade e fazendo-o adotar os costumes japoneses, impondo-lhe inclusivamente uma família. Mas há mais. Puseram-no a denunciar símbolos cristãos que, ao serem descobertos, levavam à prisão de quem os trazia da Europa.


No filme, o sacerdote ouve a voz de Cristo dizendo-lhe que apostatar está certo. O filme transmite-nos a ideia de que, embora Ferreira e este sacerdote tenham apostatado, continuam a ter fé: a Ferreira escapa-se-lhe a expressão “Nosso Senhor” quando está à procura de símbolos cristãos nos objetos trazidos pelos holandeses e Rodrigues confessa e vê-se, no final, que guardou sempre uma cruz. Parece que terão guardado a sua fé em privado. Pelo menos o segundo sacerdote. Mas isto em nada atenua o seu testemunho público.


Gostava de confrontar o leitor com a minha opinião. Eu entendo que não era lícito este sacerdote ter apostatado – e estou só a ocupar-me dele – porque a apostasia foi um ato público que – como o inquisidor intuiu, e bem – no Japão representava a Igreja inteira. (Claro que Rodrigues salvou aquelas vidas, mas vidas essas que se tinham entregado ao martírio de sua livre vontade, porque não tinham querido renegar a fé.) Para o inquisidor e para todos os cristãos ainda vivos, com a apostasia dos sacerdotes, foi a hierarquia da Igreja que apostatou. Hierarquia que alimentava o povo espiritualmente e que depois permaneceu no meio desse mesmo povo como confucionista, defraudando todos os que se mantiveram cristãos. Foi o símbolo vivo da religião que apostatou e vestiu uma pele japonesa. Símbolo para todos os cristãos que estavam vivos e símbolo para o governo japonês. Com a apostasia, esse símbolo esfumou-se.


(Nota: isto é a minha opinião teórica. Humildemente, não sei se teria forças para o martírio.)

 

Gonçalo Miller Guerra, sj