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Blogue do Apostolado da Oração

Aborto, dez anos depois do referendo

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1. No dia 10 de fevereiro, assinalaram-se dez anos do referendo que abriu as portas à legalização do aborto a pedido, em Portugal. Durante estes dez anos, foram praticados cerca de 176 mil abortos a pedido da mãe. Para um país como Portugal, com uma população de 10 milhões de habitantes e uma natalidade muito abaixo do mínimo necessário para a reposição das gerações, são números impressionantes.

 

2. Mais impressionante, porém, é o que os números facilmente escondem: o massacre diário praticado em Portugal contra seres humanos indefesos, massacre legal e, por muitos, considerado uma coisa boa – porque respeita a liberdade da mulher e, como tal, é assunto em que a sociedade não deve intervir, a não ser garantindo, à custa dos impostos de todos, a gratuidade deste «ato médico».

 

3. Em pouco menos de dez anos, eliminou-se, em Portugal, o equivalente à população de uma cidade de média dimensão. Se este massacre não acontecesse no silêncio dos hospitais e clínicas, se as vítimas pudessem chorar e gritar, fossem fotografadas e mostradas na televisão, ninguém toleraria, ninguém falaria de liberdade de escolha ou de direito a decidir. Chamar-se-ia a coisa pelo nome – assassínio de seres humanos indefesos. Exigir-se-ia a intervenção do Estado e a punição severa dos responsáveis, por crimes contra a humanidade.

 

4. Como se trata do aborto, porém, estamos culturalmente anestesiados – e as palavras anteriores parecem a muitos uma enormidade fanática. Por isso, pergunto: no aborto, ninguém morre? Ninguém é responsável? Não há seres humanos indefesos mortos por escolha de alguém? Não há um Estado que permite e financia estas mortes? Em tudo isto, para além dos 176 mil seres humanos deliberadamente mortos em dez anos, o pior são os estragos que esta violência difusa, silenciosa, fria e cínica causa no tecido social e nas vidas que por ela passam e lhe sobrevivem. Pode não ser já, pode não ser de modo evidente, mas todos pagaremos caro o facto de vivermos mergulhados na indiferença perante aqueles que são os mais descartáveis da nossa sociedade.

 

Elias Couto

 

Temperar a Vida

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Na Mensagem para a Quaresma deste ano, que acaba de ser divulgada, o Papa usa a parábola de Lázaro e do homem rico para nos fazer refletir sobre a importância do dar-se ao(s) outro(s). Segundo Francisco, este texto convida-nos a “abrir a porta do nosso coração ao outro, porque cada pessoa é um dom, seja ela o nosso vizinho ou o pobre desconhecido”.

 

Na nossa vida, na nossa maneira de pensar e no nosso modo de agir, ver o outro como um dom pode traduzir-se na simplicidade de um sorriso que transmitimos a uma pessoa que sentimos estar triste ou num olhar dirigido a um pobre que encontramos na rua (podemos nem lhe oferecer ajuda material, mas o nosso olhar de proximidade terá até mais sentido que a moeda que pudéssemos oferecer).

Os afazeres pessoais, profissionais, sociais e familiares em que nos vemos envolvidos diariamente acabam por vezes por nos envolver numa sequência mecânica de gestos e atitudes que, mesmo envolvendo a relação com outras pessoas, nos mantêm de certa forma algo distantes delas.

Para ver os outros como um dom, não precisamos de mudar de vida, não precisamos de deixar os nossos afazeres diários para nos dedicarmos exclusivamente aos outros, como que buscando um comportamento imaculado. Não é preciso deixarmos de nos preocupar connosco e com o que é essencial para termos uma vida digna. Aliás, nem é bom que tal aconteça.

É simplesmente necessário aproveitar de outro modo ritmos e ações de todos os dias, temperando-os de um modo diferente. Por exemplo, se sou estudante, posso ajudar um colega que vejo em dificuldades e que em momentos anteriores ignorei. Se sou trabalhador, posso pensar nos que vão beneficiar do meu trabalho (dos quais muitas vezes não me lembro), e pôr um empenho diferente naquilo que faço. Se sou pai/mãe, posso dar um sabor diferente às rotinas diárias, encarando-as como um momento de entrega aos filhos e não como um fardo que obrigatoriamente tenho de carregar.

Tendo por base a Mensagem do Papa, a Quaresma que se aproxima pode ser um momento oportuno para efetivamente começarmos a abrir a porta do nosso coração ao outro, vendo-o como um dom. Sintamos que não estamos sozinhos neste barco, que esta é uma missão de todos. E, utilizando as palavras de Francisco, “rezemos uns pelos outros para que, participando na vitória de Cristo, saibamos abrir as nossas portas ao frágil e ao pobre. Então poderemos viver e testemunhar em plenitude a alegria da Páscoa”.

 

Cláudia Pereira

 

A Santa Indiferença!

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Mas o quê? Agora até a indiferença é santa?

Esta palavra «indiferença», com o passar do tempo, adquiriu um significado muito diferente daquele que originariamente tinha. Na Igreja primitiva, era usada para indicar que uma pessoa não queria outra coisa que não fosse a vontade de Deus. Significava acreditar que a vontade de Deus é o melhor para nós e estar livre para a seguir.

Vejamos: Santo Inácio de Loiola, fundador do Jesuítas, propõe um percurso espiritual, que ele mesmo experimentou na sua vida e depois propôs a todos aqueles que o quiserem experimentar, nos chamados Exercícios Espirituais. Tendo por fundamento a sua própria vida, Inácio foi capaz de saber ler a sua experiência espiritual à luz da vida de Cristo e não o poderia ter feito sozinho. Inspirando-se em vários autores espirituais da grande tradição da Igreja, por exemplo, São João Cassiano, São João Clímaco e outros, pôde então «ler» a ação de Deus na sua vida e depois, refletindo, pôde propor-nos o itinerário espiritual que hoje encontramos nos Exercícios Espirituais.

Diz Orígenes que Adão, antes do pecado, no paraíso, olhava para o alto e tinha os olhos fixos em Deus. Com o pecado, passou a olhar para baixo, para as coisas do mundo. Assim, encontrar Deus na nossa vida significa readquirir um olhar fixo n’Ele. E como podemos nós ter este olhar fixo em Deus? Diz Jesus que são os puros de coração que veem Deus (Mt 5, 8). Isto significa que são os puros de coração aqueles que têm o olhar fixo n’Ele. Ora, e purificar o coração… o que significa? Como se alcança?

Para estes autores espirituais é claro que este é um caminho progressivo e que não depende exclusivamente de nós: é uma graça a pedir, mas que pressupõe algum esforço do nosso lado. São João Clímaco, na «Escada do Paraíso», apresenta inicialmente este percurso como sendo uma escada que somos convidados a subir e que liga a terra ao Céu. Mais tarde, dirá que na verdade a escada liga a cabeça ao coração de cada um de nós, guia-nos para a nossa própria interioridade. É este o grande caminho da nossa vida em direção ao nosso interior, onde encontraremos o Senhor. O último «degrau» deste percurso, para o qual é preciso apontar, chama-se «indiferença» e São João Clímaco diz, com muito entusiasmo, que esta é «o Céu sobre a terra, a ressurreição antes da ressurreição dos corpos».

Atenção! Isto não significa viver sem sensibilidade, mas antes segundo a razão que vem da fé em Deus. Em poucas palavras: aquilo que o «indiferente» (entendido neste contexto) vive é uma insensibilidade em relação a tudo o que não tem a ver com a vida em Cristo e, por outro lado, desenvolve uma forte sensibilidade pela voz de Deus no mundo. Isto não significa insensibilidade ao sofrimento dos outros ou aos males do mundo, mas exatamente o seu contrário: o cristão que vive a indiferença, isto é, não vive preocupado consigo mesmo, é particularmente sensível aos sofrimentos do mundo precisamente porque está mais disponível para escutar a voz do Deus à sua volta.

Gonçalves da Câmara, Jesuíta português a quem Santo Inácio ditou a sua Autobiografia, dizia no seu Memorial que para Santo Inácio bastariam uns momentos na capela para recuperar a paz interior perante qualquer acontecimento adverso, mesmo que fosse a extinção da Companhia de Jesus. A indiferença é exatamente isto: indica a confiança total em Deus e a certeza que Ele nunca nos abandona. Outro modo de dizer esta indiferença pode ser «alma em paz» ou «tranquilidade interior». Quando, nos Exercícios Espirituais, Santo Inácio nos diz que «é necessário fazer-nos indiferentes a todas as coisas criadas, em tudo o que é concedido à liberdade do nosso livre arbítrio, e não lhe está proibido; de tal maneira que, da nossa parte, não queiramos mais saúde que doença, riqueza que pobreza, honra que desonra, vida longa que vida curta, e consequentemente em tudo o mais» (EE 23) está a dar-nos uma excelente indicação do significado da indiferença.

Vale a pena sublinhar ainda que Inácio diga que «é necessário fazer-nos» indiferentes. Exige da nossa parte alguma colaboração e esforço: em primeiro lugar, é necessária a purificação do pecado, precisamos escolher não querer pecar. Em segundo lugar, é necessária a escolha explícita de uma vida segundo o modelo de Jesus Cristo, isto é, escolher uma vida vivida em Amor: só este nos pode preencher o coração para que não nos deixemos turbar por aquilo que não vem de Deus.

A indiferença inaciana corresponde àquilo que Orígenes chama de «regresso ao paraíso», isto é, corresponde a fixar o olhar em Deus e não querer outra coisa sobre esta terra que não seja viver segundo esse olhar de Amor.

Marco Cunha, sj 

 

Os porquês do Silêncio: notas sobre uma entrevista

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Texto baseado na entrevista « ‘Silence’: Interview with Martin Scorsese »,

feita por António Spadaro SJ, in La Civiltà Cattolica, 2016 (nº 3996).

Rui Fernandes, sj

 

Como chegou Martin Scorsese ao "Silêncio"? O realizador acabara de realizar "A Última Tentação de Cristo". O Arcebispo Paul Moore, da Igreja Episcopal em Nova Iorque, tendo visto e comentado o filme, ofereceu-lhe o livro de Shusaku Endo. Começava aí uma história de interrogações e provocações interiores sobre a vida e seus ‘lugares’: a violência, a fé, a integridade, o horror, a graça. Estávamos em 1988.

 

Não sei ao certo se terei pensado em fazer o filme imediatamente. A história era tão perturbadora e tocava-me tão profundamente que não sabia se alguma vez teria sequer capacidade de o fazer. Mas, com o passar do tempo, algo me dizia: ‘Tens que tentar’. (...) Olhando para trás, penso que este longo processo de gestação foi, para mim, uma forma de viver com a história e de viver a vida - a minha própria vida - em torno dela, em torno das ideias do livro. Essas ideias mexeram comigo e fizeram-me regressar novamente à questão da fé. Olhando para trás, tudo isto se me assemelha a uma peregrinação - foi assim que o senti.

 

Partindo da longa entrevista de Martin Scorsese agora publicada, é difícil separar a sua reflexão sobre a fé (ou a sua «obsessão pelo espiritual») da sua meditação sobre a vida. De imediato, porque a questão de Deus, da fé ou da santidade se lhe apresentou, antes de mais, como uma interrogação existencial. Acólito, vivendo num meio familiar católico com raízes italianas, o realizador cresceu embebido em relatos de um Deus castigador, apenas temperados pelo testemunho do seu pároco (padre Principe) - um homem capaz de misericórdia.

 

Tal como muitas outras crianças, vivi estarrecido e muitíssimo impressionado pelo aspecto severo de Deus, tal qual nos era apresentado - segundo o qual Deus nos castiga quando/se fazemos algo de errado, o Deus dos raios e trovões.

 

Por outro lado, a fé, antes de ser uma questão ritual, parecia-lhe ser sobretudo uma experiência de todos os dias.

 

De pequeno fui percebendo que ‘ser praticante’ não é algo que acontece num espaço sagrado, durante certos ritos, a determinadas horas do dia. ‘Ser praticante’ é algo que acontece lá fora, a toda a hora. ‘Ser praticante’, de facto, é tudo o que fazes, bom ou mau, e [o modo como] reflectes sobre isso. Eis o desafio.

 

Ora, o desafio parece ser tanto maior se considerarmos o quão ambígua a vida pode ser. A vida tem um lado brutal, violento, auto-destrutivo.

 

Será que podemos cultivar a bondade a ponto de, numa fase futura da evolução da humanidade, a violência desapareça? O certo é que, nesta fase, a violência existe. É algo que fazemos. É importante mostrá-lo, para que ninguém caia no erro de pensar que a violência que só toca aos outros - que os ‘violentos’ são os outros. «Eu era incapaz de fazer tal coisa». Bem, na verdade, eras.

A violência é uma parte do ser humano. O humor, nos meus filmes, provém das pessoas e da sua forma de pensar, ou da sua irreflexão. A violência e a ‘profanidade’ da vida. Ou o aspecto telúrico, se quisermos ser mais elegantes. A profanidade e a obscenidade existem, o que significa que fazem parte da natureza humana. Não que ela o seja por inerência - mas antes que é uma das formas possíveis de ser-se humano. Não é uma boa possibilidade, mas é uma possibilidade.

 

Falando do seu célebre "Touro Enraivecido" (Raging Bull, 1980), o realizador mostra como, tantas vezes, a violência (ou o castigo) contra os outros esconde uma outra forma de violência, não menos sangrenta, contra si próprio. Subtilmente, a questão da imagem de Deus (o Deus da punição) remete para a nossa capacidade de integrar a nossa própria imperfeição.

 

[No filme "Touro Enraivecido", o personagem] Jake castiga todos os que estão à sua volta quando, de facto, ele se está a castigar a si próprio. No final, quando ele se olha ao espelho, vê que deve ser misericordioso consigo próprio. Dizendo de outro modo, ele tem que se aceitar e viver consigo mesmo. Talvez então se lhe torne mais fácil viver com os outros, e acolher a sua bondade. (...) [É preciso] aceitar-se a si próprio, viver consigo mesmo. (...) Penso que essa é uma forma de definir o que seja a ‘salvação’. Isso estende-se às pessoas que amas: a tua família, os teus amigos, os teus entes queridos. Tentas ser o melhor que puderes, e o mais sensato e compassivo que te for possível.

 

Retratar a vida sem ignorar os seus contornos ásperos insere-se numa dinâmica fundamental de ‘reconhecimento’. Reconhecer-se sem ilusões mas sem punições. Essa seria, talvez, uma primeira dimensão da vida espiritual, segundo Scorsese. Essa dinâmica interior anda a par de outra, exterior. Como viver (e manter) a fé em condições de adversidade?

O cineasta abordou por diversas vezes a questão, ora procurando o testemunho de santos, ora reflectindo sobre o que significa ser-se padre. Ao longo da sua carreira, o realizador mostrou interesse em retratar vidas de santos, perguntando-se porque são santos os santos? Uma vez mais, a ideia da compaixão emerge como lugar fundamental.

 

[Pensei explorar uma questão]: o que é um santo? (...) Temos figuras como um Francisco, uma Catarina, uma Teresa. Nenhum deles era aquilo a que eu chamaria de um santo activista, e eles eram extremamente diferentes de alguém como o Padre Pio, por exemplo. A essência [da santidade] - compaixão, amor, viver a vida imitando a Cristo - e a questão sobre como viver uma vida assim no mundo moderno - foi algo que ocupou Rossellini no seu filme Europa ‘51.

 

A imitação de Cristo seria, então, o fundamento de uma experiência de fé. O tema da ‘imitação’ não está isento de dificuldades. Como pode alguém ser em função de um outro? Aqui, a figura do ‘padre’ é arquetípica. O ‘padre’, sendo ‘chamado’, deve procurar viver descentrado de si, numa atitude de disponibilidade aos outros.

 

Quando era mais novo pensei fazer um filme sobre ser padre. [Pensei, eu próprio, ser padre, até que acabei por descobrir, aos 15 anos, que] uma vocação é algo de muito especial, algo que não podes adquirir por ti mesmo e que não é algo que possas ter apenas porque gostavas de ser parecido com outro pessoa. (...) Ora, se alguém é de facto chamado, como pode lidar com o seu orgulho próprio? (...) Por isso, a questão é : como pode um padre libertar-se do seu ego? Do seu orgulho? Eu queria fazer esse filme. E fi-lo com "Silêncio", quase 60 anos depois. (...) Rodrigues bate-se precisamente com essa questão.

 

Quando chegamos ao "Silêncio", vemo-nos perante um filme que condensa uma reflexão sobre a fé. O que significa crer? De que modo imagem de Deus e reconhecimento de si interagem? Como crer quando a fé é posta à prova? O filme coloca-nos enfim diante do aspecto paradoxal da fé, onde renunciar e afirmar podem coincidir, tal como a misericórdia pode coincidir com o reconhecimento da miséria.

 

Não sabemos em que é que o padre Ferreira acreditava, de facto, do ponto de vista histórico. Mas, no romance de Endo, parece claro que ele perde a fé. Numa perspectiva diferente: talvez lhe parecesse insuportável lidar com a vergonha de renunciar à fé, ainda que fosse para salvar a vida de outros.

Rodrigues, por seu turno é alguém que renuncia à fé e que, por esse meio, a recupera. É esse o paradoxo. Simplificando: Rodrigues ouve Jesus dirigir-se-lhe, enquanto Ferreira não; aí está a diferença.

 

 

 

 

ANO CENTENÁRIO DAS APARIÇÕES DE FÁTIMA

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   Imagem: Santuário de Fátima


Como vai ser o ano 2017, o tempo dirá. Da minha parte apenas desejo que seja o que Deus quiser e os homens deixem que seja. Hoje fala-se e escreve-se com demasiada frequência sobre o desmoronamento do projeto europeu, chegando a ouvir-se anúncios catastrofistas do fim da civilização ocidental. Há sinais de mal-estar, para não dizer de má consciência e desnorte, acompanhados da consciência de valores perdidos em favor de relativismos de toda a ordem, de insegurança e medos e do salve-se quem puder no meio de acusações mútuas. No caso português, também começam a ouvir-se vozes pessimistas de fim de regime. E, no entanto, acredito, que pode bem ser um ano de graça se quisermos e soubermos aproveitar o Centenário das Aparições de Fátima para uma reflexão profunda sobre os caminhos que coletivamente estamos a percorrer e tivermos a coragem de mudar de vida na linha da mensagem que Fátima nos transmitiu. As celebrações do Centenário, com o seu ponto alto nos dias 12/13 de maio próximo no Santuário de Fátima, com a presença do Papa Francisco, são já em si uma graça e uma “provocação”.

O Centenário das Aparições leva-nos obrigatoriamente para o drama europeu de 1917 (a revolução comunista na Rússia e a 1ª Grande Guerra Mundial com tudo o que isso significou) e, no caso português, para o 5 de outubro e a implantação da 1ª República, cujas consequências não foram assim tão meigas como nos querem fazer crer (não sei mesmo se não estaremos ainda a pagar por elas), mas leva-nos também com o olhar e o pensamento para a ação misteriosa de Deus a trabalhar naquele contexto histórico através de três crianças (Lúcia, Francisco e Jacinta) de tenra idade, ao ponto de a sua mensagem se impor à Igreja, ao país e ao mundo. E a trabalhar continua Deus, felizmente para bem nosso e da humanidade.

As pessoas fixam-se muito no fenómeno em si das aparições (milagre do sol, etc.), quando o importante é o que ali, naquele lugar insignificante, desconhecido e sem história chamado “cova” da Iria, começa a nascer e a crescer: uma história que, contra ventos e marés, chegou até nós numa caminhada, para já, de cem anos. E que não era uma história de crianças (tipo carochinha), nem sequer de homens (que tudo fizeram para que não existisse), mas de Deus. O milagre que verdadeiramente importa realçar é o que aconteceu e continua acontecendo naquele Santuário de Nossa Senhora de Fátima para onde continuam a correr milhares e milhares de peregrinos vindos de todas as partes do mundo.

Não sei se 2017 vai ser um ano parecido com os contextos da nossa 1ª República e da revolução comunista de 1917; penso, porém, que as Aparições de Fátima, olhadas com atenção e fé, podem ajudar e muito a encontrar caminhos e soluções para os grandes desafios que hoje se colocam a todos nós no momento presente das nossas histórias coletivas. E saber que Deus está metido nesta embrulhada é meio caminho andado para não perdermos a paz e continuarmos a lutar por aquilo em que acreditamos. Porque Deus está connosco. E Maria, a Mãe de Jesus, também.

Quer queiramos quer não, o ano de 2017 ficará sempre ligado a 1917 pelo Centenário das Aparições; para a nossa história como “2017 – Ano Centenário das Aparições de Fátima”; para a nossa devoção ficará certamente a marca indelével do carinho misericordioso de Deus de que o Papa Francisco é portador. Ficará, espero e espero que perdure, o “mimo” de Deus e a “ternura” de Maria, a “Nossa” Senhora de Fátima.

 

A. da Costa Silva, s.j.

 

 

 

A BATALHA ENTRE LUZ E TREVAS

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É muito claro na Escritura, sobretudo em S. João, quer no Evangelho quer nas cartas, que a Luz veio às trevas e estas não a receberam. É também claro a luta das trevas contra a Luz. Esta incomoda, desinstala, põe a claro o mal, o ódio, o crime, o roubo, a fraude, a promiscuidade, o tráfico de pessoas, a venda criminosa de armas, a falta de liberdade, etc. O poder do mal e do maligno, chamem-lhe demónio ou satanás, príncipe das trevas, como lhe chamava Jesus, continua a lutar contra o bem, a verdade, a santidade, a vida das pessoas, a liberdade religiosa, e lança as trevas, qual nevoeiro que impede de ver o bem, a beleza, o amor, o valor da vida, da paz, e nos engana, seduz, arrasta para o abismo do mal, da falta de dignidade, de cobardia, de sedução e intimidação, que nos manobra como quer e deseja.

Damo-nos conta de tudo isto, desta luta que se arrasta há séculos e que continua hoje no mundo à nossa volta. Mata-se, rouba-se, faz-se explodir bombas, derrama-se sangue, vendem-se pessoas, exploram-se os pobres, esmagam-se liberdades, fomenta-se a exploração económica para que os pobres sejam mais pobres, semeia-se a violência doméstica. Manobras macabras, satânicas querem ofuscar a Luz que é Jesus, sua Palavra, que é a Verdade, a Justiça, a Vida humana com toda a sua riqueza. Vai-se semeando, como areia no ar que gera penumbra que impede ver o caminho do bem e da verdade e ficarmos insensíveis à calúnia, à mentira, à exploração de menores, à venda de raparigas para a prostituição, etc. Mesmo com muito otimismo e muita esperança de um Ano Novo repleto de graça e de dons de Deus, o mal continua a manobrar inteligências e corações, vidas inteiras. O panorama não é famoso, brilhante. As trevas continuam a lutar, a fazer seus estragos, desfazendo vidas, cidades, países. Sangue inocente continua a correr, milhões de pessoas sofrem a fome e morrem por causa dela, porque há muita ganância, muita exploração, muito crime contra a vida e o amor, contra a liberdade e a paz. Há desertos sem pão, sem amor, sem liberdade, sem fé, sem Deus. Há famílias sem unidade, sem amor, sem dignidade, muitas sem emprego, sem pão, sem carinho.


Mas Jesus é a Luz. Maria é a Mãe que nos deu a Luz. Neste Ano do Centenário das suas Aparições em Fátima, temos que ouvir muitas vezes estas suas palavras: “O meu Imaculado Coração será o vosso refúgio e o caminho que conduz a Deus”. E também outras que nos animam: “Por fim o meu Coração Imaculado triunfará”. Foi Nossa Senhora, a Mulher que calcou a cabeça da serpente, que venceu o dragão enganador, que nos pode ajudar na luta contra o poder do mal, do pecado, das trevas. Ela, Mãe e Rainha, quer ajudar-nos e pede a nossa conversão, a nossa oração, a nossa penitência. Mas continuamos surdos às suas palavras, aos seus pedidos, às suas promessas, aos seus apelos. Com Maria seremos vencedores e a vitória será nossa, porque é d’Ela, da Mãe de Coração Imaculado. Falta-nos fé, falta-nos oração, falta-nos silêncio para escutar Deus e a Mãe. Estamos adormecidos, tíbios, frouxos, mundanos. Precisamos de conversão sincera, autêntica, vital, para que a Luz brilhe e ofusque o poder do mal e do pecado, destrua a escuridão da noite tenebrosa do maligno. Precisamos de ser mais evangélicos e acreditar na Palavra de Jesus. Precisamos de deixar o pecado e os seus tentáculos de mal. Precisamos de agir com audácia, com muita fé e muita oração.


Jesus usou estas expressões: “o príncipe das trevas”, “o homicida desde o começo”, “o príncipe deste mundo”. Hoje não falamos delas ou por ignorância, ou por medo, ou por desejo de não parecermos retrógrados, ou porque o mal nos manobra a inteligência e a língua, e, sobretudo o coração. Mas o mal entra em nós, está em nós quando criticamos ou caluniamos, quando inventamos algo de falso de alguém, quando não somos atentos e delicados com os mais pobres, doentes ou abandonados, quando desprezamos alguém, quando tiramos a alegria do coração de uma pessoa, quando acumulamos o supérfluo que pertence aos pobres, quando nos deixamos levar pela vaidade e pelo egoísmo e não nos lançamos ao serviço humilde e ao amor sem reservas, quando acumulamos bens sem necessidade, quando o nosso eu é rebelde ao Evangelho e suas exigências, quando não temos sentido de unidade, de paz e comunhão na paróquia, na família, na diocese. Sempre que não temos coração pobre e humilde e não servimos com simplicidade a Igreja nossa Mãe, não trabalhamos em comunhão com o Papa, quando não somos instrumentos de apostolado ativo, convictos e convincentes, quando o mundano nos impede de rezar, de viver uma vida de sacramentos cuidada e amorosa, estamos a ser manobrados pelo mal. É a luta contínua das trevas e da Luz. Não nos deixemos enganar. Não tenhamos medo nem nos deixemos seduzir pelo maligno. Um filho de Deus luta para não pecar, não estar do lado das trevas, não se deixar enganar pela poeira que nos impede de ver e de ser ao jeito de Jesus.

 

Dário Pedroso, sj

 

 

Palavras de fogo

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O Sufismo é uma das mais belas tradições espirituais da Humanidade. Nasceu no seio do Islão, e as suas origens remontam a Maomé. Transmitida de mestre para discípulo e presente hoje em numerosas comunidades, a vivência do Sufismo reside no aprofundamento espiritual dos ensinamentos do Islão, mediante símbolos, contos e narrativas. Por exemplo, para o Sufismo a “guerra santa” (al-jihad al-akbar) é a luta contra o nosso próprio ego, contra os impulsos egoístas que nos habitam e que impedem a nossa aproximação de Deus; só depois vem a luta contra a injustiça e a opressão, a al-jihad al-asghar (“guerra menor”).

 

Por aqui podemos compreender como, na realidade, o Islão é uma religião e um fenómeno complexo. Atualmente, a versão que melhor conhecemos (que as notícias mais divulgam) é a do chamado Wahhabismo (de Wahhab, líder religioso do século XVIII). O Wahhabismo teve a sua origem na atual Arábia Saudita, e é a partir deste país (aliado do mundo ocidental) que se divulga por todo o mundo islâmico através de um simples fator: muitos dos líderes religiosos islâmicos formam-se na Arábia Saudita. O Wahhabismo é uma visão conservadora do Islão, aliando-se à insatisfação vivida pelas populações árabes do Médio Oriente e norte de África (da colonização europeia dos séculos XIX e XX às guerras do Golfo e do Afeganistão, passando pela criação do estado de Israel e às disputas com as populações palestinianas). Daqui que o Islão nos surja como uma realidade violenta (a sua expansão inicial deveu-se a um misto de conversão religiosa e de violência militar, um pouco como os países europeus fizeram na América Latina e África entre os séculos XVI e XIX); mas, no seu interior, o Islão possui uma riqueza e diversidade espiritual de que o Sufismo é o melhor exemplo.

 

Entre as parábolas e contos que nos chegam do Sufismo, encontramos uma belíssima história sobre um diálogo entre o profeta Moisés e um pastor. O tema da história é a oração e as fórmulas adequadas para falar com Deus. A sua autoria é de Jalaluddin Rumi, que viveu na Pérsia no século XIII.

 

Aqui fica uma breve versão deste conto: que, neste ano de 2017, as palavras para a oração não deixem de brotar do nosso coração; e que todas as mulheres e todos os homens não deixem de encontrar, nas suas tradições espirituais, a simplicidade que conduz à Paz.

 

Havia nas planícies da Pérsia um pastor de coração simples e puro. Não tinha estudos, nem conhecia os ensinamentos da religião, mas confiava em Deus. Certo dia, elevou esta prece:

 

«Oh querido e amado Senhor, onde estás Tu, Tu a quem eu dediquei a minha vida? Onde estás, Tu de quem eu sou apenas um humilde servo? Oh Deus, para quem eu vivo e respiro, por cuja graça existo...»

 

Nesse momento, Moisés ia a passar por perto, e escutou esta oração. Decidiu admoestar o pastor, dizendo-lhe:

 

«Como te atreves a falar a Deus dessa maneira? O que dizes são blasfémias. Será Deus Todo-Poderoso um simples ser humano? Usa sandálias e meias? É Ele uma criança por criar que precisa de leite para crescer? Não, não é! Deus é completo em si mesmo e de nada necessita».

 

O pastor retirou-se cabisbaixo: na sua simplicidade, não entendia o motivo pelo qual o profeta se indignou com as suas palavras, mas aceitou a sua autoridade. Moisés prosseguiu o seu caminho, orgulhoso por ter corrigido uma alma extraviada. Mas o Todo-Poderoso falou-lhe:

 

«Por que te vieste meter entre Nós e o nosso leal servo? Por que separaste o amante do seu Bem-Amado? Nós enviamos-te ao mundo para unires um ao outro e não para romper o laço que os ata.
Recorda-te que no Amor as palavras são apenas a casca exterior e nada significam. Nós não damos atenção à beleza da frase ou ao rigor da sentença. Nós apenas olhamos a realidade interior do coração. Assim conhecemos a sinceridade das nossas criaturas, mesmo quando as suas palavras são desajeitadas. Pois aqueles que ardem no fogo do Amor proferem também palavras de fogo».

 

Moisés compreendeu o seu erro, e partiu à procura do pastor.

 
[Esta é uma versão abreviada do conto Musa e o Pastor, publicado no livro de M. Bayat, M. Ali Jamnia, Contos do País dos Sufis (trad. José D. Morais) Lisboa 2002].

 

Rui Pedro Vasconcelos

Adeus à rotina

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Estamos a despedir-nos de mais um ano. Nele repetimos, vezes sem conta, os mesmos gestos, as palavras usuais, os afazeres costumados, os ritmos diários, os cumprimentos comuns e as amabilidades tradicionais. Repetir o que é bom é claramente aconselhável. Mas importa pôr qualidade naquilo que repetimos. Há que dar alma ao corpo esquelético das rotinas.


Um ano novo nos bate à porta, mas que de novo poderá ter apenas os números da sequência do inevitável correr do tempo. Entrar no novo ano há de ser um dizer adeus à rotina, às repetições maquinais, ao mais do mesmo, ao arrastar o cansaço dos dias sem ânimo e esperança.


Quem não sabe o que é o peso da rotina? Os dias sucedem-se, como cópias invariavelmente iguais, cabendo-nos cumprir as mesmas tarefas, no lugar do costume, com horários idênticos, tendo ao nosso lado as mesmíssimas pessoas... E quem não se encontrou a sonhar, acordado, alguma vez, senão muitas: Como seria feliz se vivesse noutro contexto familiar, sem esta preocupação ou doença, tendo outro ofício, num lugar mais importante, noutra época histórica, sem as presentes dificuldades que encontro na minha vida, no mundo e na Igreja?! Quando chegará o comboio da felicidade que me vai transportar até ao paraíso na terra?! Em que porto se poderá tomar o barco do amor para alcançar a ilha onde o sol da felicidade não tem ocaso?!


Importa acordar destes sonhos e assentar bem os pés na realidade da vida. Só a vida real é a melhor vida possível. Para isto precisamos de fazer uma campanha de desbanalização do quotidiano, superficial e rotineiro, para que tenha o frescor da novidade que atrai e seduz. Cada dia que nos entra em casa é uma estreia mundial, que devemos aproveitar da melhor maneira. Gostaria de ser o primeiro a cumprir este triplo imperativo: Vive o dia de hoje como se fosse o teu primeiro dia! Vive o dia de hoje como se fosse o teu último dia! Vive o dia de hoje como se fosse o teu único dia!


Não há vacina contra a rotina, que nos fizesse viver livres do enfado, desgostoso e cansado, das repetições sem conta. Mas todos temos acesso gratuito aos remédios antirrotina. Basta cumprir a receita evangélica de Cristo de amar com todo o coração, com toda a alma, com todo o entendimento e com todas as forças. A força do amor faz novas todas as coisas. A sabedoria do nosso povo assim o recorda: Quem corre por gosto não cansa. Nem é cansativo, repetitivo, rotineiro.


A frescura da novidade, que afugenta a rotina, não vem de coisas grandiosas que tenhamos que fazer ou de cargos importantes que nos caiba exercer. Vem muito simplesmente de pôr amor nos nossos pensamentos, palavras e ações. Como recorda S. Francisco de Sales: «É o amor que dá valor a todas as nossas obras. Não é pela grandeza e multiplicidade das nossas obras que agradamos a Deus (e também ao nosso próximo), mas pelo amor com que as fazemos. E aceitar um beliscão com duas migalhas de amor vale mais que sofrer o martírio com uma só migalha do mesmo amor». Para sermos heróis e santos não é preciso fazer nada de grande e espetacular. Basta pôr amor nas palavras e gestos simples do quotidiano.


A rotina maquinal não se vence com operações de grande envergadura ou campanhas espetaculares de criatividade. Assim nos recorda o Papa Francisco, modelo de desterrar a rotina, surpreendendo-nos com atitudes de amor original: «O reino de Deus não é um espetáculo. Não chama a atenção nem se deixa levar pelo “barulho” do mundo… Nestas situações de santidade “anónima”, vivida na vida quotidiana, Deus está presente: pessoas que vivem com fé e perseverança o trabalho, seus compromissos na família, na paróquia. Não em testemunhos ruidosos que muitas vezes são como uma “caricatura do reino de Deus”. O Senhor nunca diz que o reino de Deus é um espetáculo. Pode ser uma festa, uma grande e bela festa a ser realizada no céu».


Com simplicidade, em palavras e gestos do quotidiano, digamos adeus à rotina. Vivendo no amor seremos novos e criativos.

 

Manuel Morujão, sj

Um Santo Natal

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Chegou o Natal! Mas, por incrível que pareça, já estamos há mais de um mês em ambiente natalício: as iluminações das ruas, as músicas, as compras, as campanhas, as inúmeras festas e jantares de escola, catequeses, grupos, trabalho...

Ocasionalmente, surge a oportunidade de parar um pouco e fazer um caminho interior de preparação, em especial o tempo que a liturgia da Igreja nos propõe, o Advento. Mas podemos ver nisto quase uma esquizofrenia. Por dentro, o Natal não chegou, vivemos em Advento, mas fora, à nossa volta, parece que já aconteceu, ainda por cima, desde há varias semanas!

Há uma pergunta importante a fazer: não estaremos já a viver o Natal de forma tão apressada e ruidosa que chegamos exaustos à noite de dia 24? E tão cheios de tantas coisas que quase não há espaço para o que se vai celebrar? É pena, pois o Advento, como tempo de espera, é tempo de deserto, silêncio, acolhimento, dar espaço à surpresa.
Não é muito possível alhearmo-nos do que se vive à nossa volta, faz parte dos ritmos sociais. Mas seria bom que não perdêssemos o contacto com o vazio próprio deste tempo. Um vazio sereno, porque tem esperança, um vazio silencioso, porque deseja ouvir a mais maravilhosa notícia que alguma vez foi dirigida à humanidade: “Hoje nasceu para Vós o Salvador!”.

Ainda vamos a tempo de pausarmos e repousarmos neste Advento, já tão próximo do Natal. Deixemos que no dia 25 de dezembro haja verdadeira festa e surpresa. Tudo o que acontece antes é bonito, mas não é ainda a festa verdadeira. Celebrando assim o Natal, deixamos acontecer em nós o que Deus nos quer comunicar, a sua presença amorosa no meio de nós. Tal como deve ser a nossa presença uns com os outros: uma imagem deste amor.

São estes os votos de Natal do Secretariado Nacional do Apostolado da Oração (Rede Mundial de Oração do Papa) em Portugal. Que Deus Menino dê a todos a sua paz e a sua alegria!

 

P. António Valério, s.j.

MENINOS-SOLDADOS, INFÂNCIAS NEGADAS

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Aproxima-se o Natal, aquela época mágica em que sobressai a alegria das crianças. E é para as crianças que o Papa nos chama a atenção neste mês de dezembro, para as crianças-soldados, aquelas que vivem bem longe das luzes, das prendas e do conforto de uma família.

 

Portugal não conhece de perto esta realidade, mas ela existe e é tão triste e atroz que mais parece uma história do mal só imaginável em filmes. Porque distante e incómoda, a situação destas crianças é quase ignorada. Uma espécie de problema daqueles povos lá longe que vivem sempre em conflito.

 

Os meninos-soldados são crianças em plena infância, algumas com menos de dez anos, que em vez de brinquedos têm armas, as brincadeiras de faz de conta são substituídas por treinos militares e os jogos implicam matar seres humanos.

 

Nasceram e cresceram no meio da guerra. Umas integram as fileiras dos combatentes por vontade própria, geralmente motivadas por situações de extrema pobreza, desestruturação familiar, orfandade, pouco acesso à escolarização, sentimentos de vingança (muitas foram testemunhas ou vítimas de violência extrema). Outras são forçadas a fazê-lo, por exemplo, raptadas à saída da escola, quando vão buscar água ou a brincar na rua. Há casos em que os próprios pais oferecem os filhos em troca de um pequeno salário para matar a fome a toda a família. Há ainda crianças que, vendo-se em situações de violência e de caos, encontram proteção num grupo armado.

 

Estas crianças vivem sobretudo no Médio Oriente e em África, mas também em alguns países da América Latina. Neste último caso, são usados especialmente pelos cartéis de droga. Embora a maioria seja rapazes, também há muitas raparigas. Os grupos armados, os "senhores da guerra" recrutam propositadamente crianças porque são mais obedientes que os adultos, são fáceis de instrumentalizar e não questionam ordens.

 

O impacto dos conflitos armados na vida destas crianças é devastador e muitas vezes invisível. As que sobrevivem sofrem em silêncio durante anos, sem auto-estima, com medo, verdadeiramente atormentadas. A negação e destruição dos sonhos destes meninos deve implicar-nos a todos, incluindo os mais acomodados num mundo de paz.

 

Ainda que ao longe, o nosso contributo é possível e importante, seja através da oração, como pede o Santo Padre; da compaixão, padecendo com o outro, como sugere Maria Calderón, uma psicóloga espanhola que trabalhou no Congo com crianças "resgatadas" aos grupos armados; e de uma cultura de paz, a que estamos chamados sobretudo enquanto cristãos.

 

Elisabete Carvalho