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Blogue do Apostolado da Oração

Gestos de misericórdia... mesmo aqui ao lado

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Foto: Tomislav-Georgiev (www.refugiados.pt)

 

Por estes dias, tive a oportunidade de contactar diretamente com uma família de refugiados. Fugidos de um país em guerra, onde o som de bombas a rebentar fazia parte do dia a dia, atravessaram fronteiras em busca de uma vida melhor. O casal e os quatro filhos (o mais novo ainda no ventre materno) fizeram parte do percurso de transporte rodovário. Outra parte foi percorrida a pé. No país onde procuraram acolhimento nasceu o elemento mais novo da família.


As dificuldades entretanto sentidas levaram-nos, como tantos outros, a tentar a sua sorte noutro local. Pelo meio, havia uma viagem de barco a fazer. Sim, como aquelas que ouvimos relatar na comunicação social.


Dezenas de pessoas, incluindo crianças, viram-se entretanto envolvidas por condições atmosféricas adversas. O barco teve uma avaria e ameaçava naufragar. Felizmente, uma embarcação de um país europeu resgatou todas as pessoas com vida. Para o fundo do mar foram os poucos pertences que ainda traziam.


Seguiu-se um tempo num campo de refugiados. Pouco depois, aceitaram a proposta de residir em Portugal. Estão a integrar-se e procuram adaptar-se o melhor possível à nova vida.


Muito se tem falado na importância do auxílio e do acolhimento a estas populações. Esgrimem-se argumentos a favor e argumentos contra. Mas, polémicas à parte sobre o apoio a estes cidadãos, estes dias senti que é bem diferente ouvir uma notícia na comunicação social... ou pegar ao colo numa criança que já atravessou o Mediterrâneo num barco e viveu em campos de refugiados. Uma criança que sorri com ternura para quem ternura lhe dá.


Quando uma família chega a um país de acolhimento, multiplicam-se gestos e campanhas de ajuda. Enquanto uns oferecem roupas, outros contribuem com géneros alimentares e há também quem acabe por oferecer, por exemplo, material escolar para as crianças. Estas ajudas são importantes. Mas, em vez de criar dependência em quem as recebe, devem ser uma forma de ajudar essas pessoas a tornarem-se autónomas e a irem gerindo aquilo que lhes pertence sem dependerem sempre de terceiros.


Importa, porém, que a vontade de ajudar quem chega a um país de acolhimento não cegue os nossos olhos relativamente aos refugiados que, há anos, moram na nossa rua, no nosso bairro, na nossa cidade. Devemos, pois, ter gestos de misericórdia... mesmo aqui ao lado. Sempre na lógica de a ajuda dada ser uma forma de as pessoas e famílias se autonomizarem e conseguirem melhores condições de vida.


Essas pessoas, por vezes com vergonha de pedir ajuda porque são conhecidas, não atravessaram fronteiras nem se fizeram ao Mediterrâneo em condições desumanas, mas também necessitam de roupas, géneros alimentares e material escolar. Não viveram em campos de refugiados, mas também precisam de um pouco de ternura, tendo certamente ternura para nos dar, nem que seja simplesmente dizendo “obrigado”.


Essa preocupação e atenção ao outro, que também nos obriga muitas vezes a descentrar de nós e dos nossos interesses, é, aliás, o cerne das obras de misericórdia que têm sido tão badaladas durante o Ano Santo que estamos a celebrar.


Quando damos de comer a quem tem fome ou de beber a quem tem sede, quando vestimos os nus, damos pousada aos peregrinos, prestamos assistência aos doentes, visitamos os presos ou enterramos os mortos, fazêmo-lo porque alguém precisa de nós. Se damos bons conselhos, ensinamos os ignorantes, corrigimos os que erram, consolamos quem está triste, perdoamos as injúrias, sofremos com paciência as fraquezas do próximo ou rogamos a Deus pelos que vivem e por quem já faleceu, estamos também a preocupar-nos com alguém, mesmo que isso tenha implicações diretas na nossa vida.


Importa, pois, que a prática das obras de misericórdia, seja com refugiados fugidos aos horrores da guerra e aos sons das bombas a rebentar, seja com aqueles que, sendo nossos vizinhos, também precisam de ajuda, tenha continuidade, mesmo depois de terminado o Ano Jubilar.

 

Cláudia Pereira

O P. Jacques Hamel e a Eutanásia da Europa

 

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1.
Só agora tenho oportunidade de prestar, por escrito, a minha homenagem ao P. Jacques Hamel, degolado por dois muçulmanos jihadistas, a 26 de julho, enquanto celebrava a Eucaristia. Diga-se, em abono da verdade, que o seu martírio recebeu poucas ou nenhumas homenagens, fora da sua diocese. Desde Roma até este extremo da Europa, o seu testemunho foi descartado com meia dúzia de considerações piedosas e politicamente corretas. Tal, infelizmente, está na moda, sobretudo porque não é de bom tom dizer que a sua morte aconteceu por ódio à fé cristã e em nome e por causa de uma religião. Mesmo os responsáveis hierárquicos da Igreja preferem refugiar-se nas banalidades da “religião da paz”, ou do “aqueles não representam o islão”... amalgamando tudo, não vá alguém lembrar-se de gritar “lobo” (neste caso, “islamofóbico”).

 

2. Premonitórias, as sábias palavras de Bento XVI em Ratisbona, alertando o Islão para a necessidade de se deixar confrontar pela razão e alertando o racionalismo ocidental para a necessidade de se deixar encontrar pelo Cristianismo. Em vez de escutarem o velho mestre, islamistas e racionalistas insultaram-no e só não organizaram, em conjunto, o seu linchamento público porque isso ainda não voltou a estar em uso no Ocidente. Lá chegaremos...

 

3. Na sua voz débil, de um ancião de 86 anos todo dedicado ao seu Senhor e aos seus irmãos, o P. Hamel grita-nos o que disse aos seus assassinos enquanto estava a ser degolado: “Afasta-te, Satanás!”. O mal tem nome, afinal, e os mártires são as primeiras testemunhas disso. No Ocidente, porém, esse nome foi silenciado. Bem haja, P. Hamel, pela coragem luminosa que emergiu do seu martírio. Perdoe-nos e peça ao seu Senhor perdão para nós, porque não temos a mesma coragem e nos apressamos a esconder a lâmpada debaixo da cama. Vemos as igrejas ficarem vazias e, em vez de tentar avivar a torcida que ainda fumega, fazemos planos pastorais muito alinhadinhos, repetindo as mesmas coisas de sempre, sem resultado nenhum. E nem pomos a hipótese de que as igrejas vazias da Europa são o requiem por nós, uma civilização descrente, cansada de si e pronta a morrer o mais politicamente correto que é possível: por eutanásia da memória.

 

Elias Couto

 

“E VI QUE ERA O MEU IRMÃO”

 

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Das minhas leituras recentes caiu-me debaixo dos olhos um ditado do Tibete que termina com o cabeçalho escolhido para este texto. Reza assim: “Um dia avistei qualquer coisa que mexia ao longe. Julguei que era um animal. Aproximei-me e apercebi-me que era um homem. Ele aproximou-se mais e vi que era o meu irmão”. Parei a leitura; algo me dizia algo merecedor de reflexão. E lembrei-me do relato evangélico em que Cristo cura um cego em duas etapas, começando por ver os homens como árvores ambulantes (“qualquer coisa que mexia”) e só depois como homens (“Aproximei-me e apercebi-me que era um homem”). A cura fica por aqui, enquanto o ditado tibetano vai mais longe, vendo naquele homem o seu irmão: “E vi que era o meu irmão”. Há movimento de aproximação progressiva: ao longe pensou ver um animal; mais perto viu um homem, um “semelhante”. E aqui ficaria se o homem “visto” não se aproximasse, ele também do homem que o via: “Ele aproximou-se mais e vi que era o meu irmão”. Neste “mais” da aproximação mútua viram-se e reconheceram-se como irmãos.


Para a maioria dos portugueses, setembro é o regresso à realidade do trabalho, às tensões do quotidiano, às preocupações da vida e ao mundo dos negócios onde prevalecem os interesses. E os interesses não “unem”, apenas “reúnem”; não aproximam, apenas juntam. O interesse pelo futebol ou pela música consegue colocar lado a lado milhares de adeptos e de fãs, homens e mulheres que mal se conhecem, se é que se conhecem. Vieram por um interesse comum; estão tão perto fisicamente uns dos outros como longe ao mesmo tempo. Os adeptos do futebol não vieram para se “encontrar” mas para ver o futebol e apoiar a sua equipa; os fãs dos concertos rock vieram para ouvir os seus cantores favoritos e bater palmas eufóricas. Depois cada um vai à sua vida. Milhares de homens e mulheres lado a lado em que os interesses não lhes juntaram as vidas. Essas ficaram à espera algures, no lugar para onde vão de regresso.


Perto e longe talvez seja a melhor forma de descrever a sociedade atual em correrias permanentes atrás de autocarros e de metros onde se sentam as pessoas lado a lado, tão perto e tão longe, a caminho dos empregos; tão perto e tão longe nos locais do trabalho, em silêncio, não vá a produção ser prejudicada; tão perto e tão longe no fim do dia, de regresso a casa nos mesmos autocarros e metros, com rostos cansados e vidas exaustas à espera do sofá (normalmente para eles) e da cozinha (infelizmente para elas), onde a televisão se encarrega de os deixar novamente tão perto e tão longe! E estão lado a lado! Não há tempo para pensar que ali está “o meu irmão”, muito menos para reconhecer a sua presença e muito menos ainda e, por isso mesmo, para sentir essa presença.


Pena que seja assim ou que tenha de ser assim, mas pensar que podia e pode ser de outra maneira é já um bom começo para mais um ano de trabalho, passadas que estão as férias supostamente de descanso. Se conseguirmos ver pessoas em vez de objetos já será bom; se conseguirmos ver irmãos nessas mesmas pessoas, tanto melhor. Vamos fazer por isso e o mundo será diferente. Disto tenho a certeza. E a prová-lo está Teresa de Calcutá a percorrer as ruas e vielas daquela cidade indiana, fazendo-se irmã e mãe dos desvalidos e abandonados da sociedade e que o Papa Francismo canonizou neste Domingo, dia 4. Vale a pena ler o livrinho de Roberto Allegri “A Mãe de Calcutá, Madre Teresa”, publicado recentemente pelo AO.

A. da Costa Silva, s.j.

 

VIVER BEM AS FÉRIAS

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Há poucas semanas, o Papa Francisco começou o seu tempo de férias que, como tem sido seu hábito, não vai implicar uma saída do Vaticano, permanecendo na sua residência, a casa de Santa Marta. Ficam suspensas as suas atividades normais, como as audiências e missas públicas, mas o seu ritmo diário não sofre grandes alterações. Da parte de pessoas próximas ao Santo Padre, explica-se o que muda nestes tempos: “Muda, pelo contrário, e muito, o tempo que o Papa Francisco dedica à oração, ao estudo, à leitura, a ouvir música, bem como aos temas próprios do seu cargo”.

Aprendamos um pouco deste exemplo para vivermos as nossas férias. Longe dos nossos ritmos habituais, poderemos ter tempo para nos dedicarmos àquilo que, ao longo do ano, nos vamos queixando de não poder fazer devido às nossas ocupações: tempo para rezar, tempo para nos cultivarmos, tempo para a leitura e a arte.

Mas saliento um ponto: “os temas próprios do seu cargo”. A pergunta vai direta ao essencial: Quais são os temas próprios do meu cargo, de quem sou? Fora do trabalho somos pais, mães, filhos, avós, cristãos, amigos... Ocuparmo-nos em sermos mais o que nos define como pessoas na nossa relação com Deus e uns com os outros. Um tempo de qualidade espiritual e humana é tão ou mais importante que o tempo para dormir ou não fazer nada. É um tempo que nos recria e nos ajuda a sentirmo-nos inteiros no que somos mais profundamente.

Com estes desejos, o Secretariado Nacional do Apostolado da Oração deseja a todos os que nos acompanham através das nossas publicações, site, redes sociais, no Passo-a-Rezar ou no Click To Pray, umas ótimas férias!

 

P. António Valério, sj 

(Secretário Nacional do Apostolado da Oração)

 

 

Celebrar o homem do "Mais"

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Inácio de Loiola, fundador da Companhia de Jesus, é o homem do “mais”, da maior glória de Deus, do maior serviço das almas, do bem mais universal, um homem apaixonado por Cristo, com grande amor e espírito de obediência à Igreja, com desejos grandes de fazer tudo para ajudar os outros. Pai e fundador, deixou grandes e maravilhosos textos, milhares de cartas, o pequeno/grande livro dos Exercícios Espirituais. Apóstolo de Roma, primeiro Superior Geral da Companhia de Jesus, tinha um coração universal cheio de fogo evangelizador. Homem do discernimento espiritual, conselheiro sábio e prudente, fundador determinado pela vontade de Deus.


Hoje, em mais de uma centena de países, em muitos serviços e ministérios, inseridos em múltiplos trabalhos, os seus seguidores, os jesuítas, procuram imitar o seu fundador, mestre e pai. Desde professores universitários, a apóstolos dos sem-abrigo, desde dedicados a dar os Exercícios Espirituais a capelães de hospitais e cadeias, desde confessores e diretores espirituais a trabalhadores dedicados com os refugiados, desde professores e mestres em colégios até párocos em diversas dioceses, desde homens da arte, da ciência, da cultura, a missionários pobres e perseguidos na China e em tantos outros países, todos unidos pelo mesmo ideal, seguindo as Constituições escritas por Inácio, buscando na oração a força e a graça de evangelizar como companheiros de Jesus, cerca de dezassete mil jesuítas espalhados pelo mundo procuram, apesar de frágeis e pecadores, ser instrumentos do Reino, servidores do mundo, na Igreja e com a Igreja.


Dia 31 de julho, aniversário da morte de Inácio de Loiola, em 1556, vamos celebrar a sua festa litúrgica e recordar sua vida e sua obra, sua oblação e seu serviço, sua paixão por Cristo e seu ideal de peregrino, seu encanto pelas missões e seu serviço dos pobres. E, olhando o mundo à nossa volta, descobriremos, agradecidos, tantos seguidores de Inácio, tantos leigos que seguem seu exemplo de vida evangélica, tantos e tantos que fazem anualmente a experiência dos Exercícios Espirituais, tempo forte de oração que liberta e que ajuda a ordenar a vida, e depois vivem com encanto e alegria a espiritualidade inaciana. Centenas de leigos a viverem a sua participação em grupos de Comunidades de Vida Cristã (CVX), muitas dezenas a organizar campos de férias e a ocupar-se dos mais jovens e dos mais pobres, dezenas a colaborar nas revistas da Companhia de Jesus em Portugal, nas paróquias que os jesuítas levam por diante, nas obras apostólicas, como o Apostolado de Oração, na colaboração dedicada em Casas de Exercícios, em Colégios, na Faculdade de Filosofia em Braga, em quatro Centros Universitários, etc., etc. Inácio continua vivo, no mundo à nossa volta, na vida de muitos jesuítas e de centenas e centenas de leigos que colaboram com eles, em muitas e variadas obras.


Ainda durante a vida de Inácio se deu início em Portugal à fundação da primeira Província da Ordem religiosa por ele fundada e se começaram grandes empreendimentos como o Colégio das Artes, em Coimbra, hoje edifício pertencente à Universidade. Sob a orientação de Inácio de Loiola partiram de Portugal muitos missionários, como Francisco Xavier, quer para o Brasil quer para a África e o Oriente, tendo chegado à Índia, ao Japão, à China. Pelo mundo além, em muitos países, há marcas culturais e evangelizadoras dos jesuítas portugueses, missionários de muita audácia e de grande dedicação. Quem visita a Madeira ou os Açores pode visitar os edifícios dos Colégios e das Igrejas fundadas pelos jesuítas portugueses. E o mesmo se pode afirmar de muitas cidades do Brasil, de Angola, Moçambique, Macau, Timor, Goa, etc. A Província portuguesa que Inácio fundou foi uma Província de mártires, de jesuítas, padres, irmãos e estudantes que derramaram seu sangue por Cristo, como o grande São João de Brito nos matos do Maduré, na Índia, ou o grupo dos que se reuniram no Vale do Rosal, na Charneca da Caparica, que partiram rumo ao Brasil e foram martirizados junto das Canárias.


Em muitas partes do mundo, Inácio de Loiola e o seu carisma continuam vivos, graças ao esforço, ao sangue derramado, à dedicação de muitos jesuítas na Índia, na China, na Síria, nalguns países africanos, na América Latina, donde nos veio o Papa Francisco. Muitas odisseias de amor, de vida doada até ao fim, de dedicação e de serviço, com o desejo da maior glória de Deus e do bem mais universal.

 

Dário Pedroso, s.j.

A HISTÓRIA DE RUTE

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“A profundidade está escondida. Onde? Na superfície”. (Von Hofmannstahl)

O livro de Rute ocupa algumas páginas – poucas, apenas quatro capítulos que se leem calmamente numa hora – na parte do Antigo Testamento a que os hebreus chamam de “Escritos”: a par da “Lei” (os cinco livros do Pentateuco) e dos “Profetas”, os “Escritos” apresentam-nos a experiência de fé no quotidiano, por entre os passos e passagens, encontros e desencontros da nossa própria vida. Porque a Bíblia não narra apenas eventos extraordinários ou grandes acontecimentos salvíficos: também na história de uma migrante se revela a presença de Deus.

 

Elimelec é um chefe de família hebreu, pai de dois filhos, que, devido a uma situação de fome e carestia em Israel, se vê forçado a emigrar de Belém de Judá para um país vizinho chamado Moab. Aí se estabeleceu; e, a julgar pelo silêncio do texto, podemos depreender que Elimelec se estabeleceu sem dificuldades de maior, conseguindo superar a situação de carestia.

 

Mas, num espaço de dez anos, morrem na família quer o patriarca Elimelec, quer os seus dois filhos, que entretanto haviam casado com duas jovens de Moab chamadas Rute e Orfa. Noemi, viúva de Elimelec, decide então regressar à sua terra natal para encontrar junto da família afastada algum apoio: salvo raras exceções, a mulher dependia – em Israel como, regra geral, em toda a antiguidade – da proteção económica e social do marido e dos filhos; por isso, perder quer o marido, quer os filhos significava, por outras palavras, cair numa situação de máxima fragilidade e vulnerabilidade. O livro de Rute apresenta-nos a história de uma presença e ação de Deus manifestadas, não na força e no poder dos grandes sinais, mas no silêncio e vulnerabilidade de duas viúvas.

 

Duas viúvas porque Rute decide ficar com a sua sogra Noemi, ao passo que Orfa regressa à sua família de origem. Rute acompanha Noemi no regresso a Israel: o que Rute diz a Noemi reveste-se de uma rara qualidade:

«Rute respondeu: “Não insistas para que te deixe, pois onde tu fores, eu irei contigo e onde pernoitares, aí ficarei; o teu povo será o meu povo e o teu Deus será o meu Deus. Onde morreres, também eu quero morrer e ali serei sepultada. Que o Senhor me trate com rigor e ainda o acrescente, se até mesmo a morte me separar de ti”» (Rt 1, 16-22).

 

Nas palavras de Rute – uma estrangeira para Israel – encontramos a definição por excelência da aliança de Deus com Israel: uma aliança de pertença mútua e de fidelidade até à morte. Para o texto, a aliança de Deus revela-se na fidelidade de uma estrangeira a uma viúva de Israel: algo que, segundo as leis de Israel, Rute não tinha obrigação de fazer.

 

Noemi e Rute chegam a Belém, e Rute começa a respigar nos campos durante a ceifa da cevada. Trata-se de uma das tradições mais veneráveis em Israel: os agricultores, segundo a lei, só podiam ceifar uma vez os campos; o que daí sobrasse seria deixado nos campos para que os pobres e migrantes – despossuídos de propriedades e rendimentos – pudessem respigar e recolher a sua parte. A propriedade em Israel é privada, mas não é fechada: tem um espaço de respiro que lhe permite, em parte, libertar-se do egoísmo absoluto.

 

A história termina bem: Rute casa-se com um parente afastado de Elimelec chamado Booz, garantindo assim proteção para si e para Noemi. O diálogo de Booz com Rute é também de uma beleza única: «Já me contaram tudo o que fizeste pela tua sogra, depois da morte do teu marido: como deixaste o teu pai, a tua mãe e a terra onde nasceste e vieste para um povo que há bem pouco nem conhecias. O Senhor te pague por todo o bem que fizeste; que o Senhor, Deus de Israel, sob cujas asas te acolheste, te dê a recompensa merecida» (Rt 2, 11-12).

 

Conclui o texto referindo que Rute terá um filho de nome Obed, que será o avô de David, o grande rei de Israel. Rute, a estrangeira, entra assim na genealogia que dará origem ao Messias de Israel: sim, o Messias será um mestiço, não um sangue-puro. Mateus recolherá este dado, ao colocar o nome de Rute na genealogia de Jesus (Mt 1, 5).

 

Precisamos urgentemente de histórias que nos recordem aquilo que somos. Vivemos tempos difíceis, onde emerge – de modo lento mas inexorável – uma mentalidade segundo a qual o estrangeiro representa uma ameaça à nossa segurança, aos nossos empregos (uma bem maior ameaça ao emprego e à coesão social advém da fuga de capitais para paraísos fiscais, por exemplo), à nossa cultura e modo de vida. O livro de Rute aponta uma flecha no coração da história bíblica e da nossa própria história, falando-nos de migração. E recorda-nos como tudo começou, quando Deus pediu a Abraão para sair da sua terra, rumo a uma terra que não era a sua… (cf. Gn 12, 1-4).

 

(imagem: Rute e Noemi, vitral da Igreja de Saint James em Halifax, Canadá).

 

DESESTATIZAR A EDUCAÇÃO

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Perante o presente assédio ideológico do Ministério da Educação ao serviço público de educação prestado por escolas/colégios com contrato de associação, ocorre-me fazer algumas breves observações.

 

Assim afirma o artigo 43.º da Constituição da República Portuguesa: «É garantida a liberdade de aprender e ensinar». «O Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer diretrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas». Portanto, a lei fundamental do nosso País proíbe que o Estado se arvore em educador do povo, como acontece em países governados por ditaduras de esquerda ou de direita.

 

O direito, e consequente dever, de educar pertence aos pais, como recorda o artigo 26.º da Declaração Universal dos Direitos do Homem: «Aos pais pertence a prioridade do direito de escolher o género de educação a dar aos filhos». Na mesma linha, afirma o n.º 3 do artigo 14.º da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia: «São respeitados (...) o direito dos pais de assegurarem a educação e o ensino dos filhos de acordo com as suas convicções religiosas, filosóficas e pedagógicas». Ao direito dos pais escolherem o tipo de educação que querem para [os] seus filhos corresponde o dever do Estado de respeitar e viabilizar na prática tal direito.

 

Dir-se-á que em Portugal se cumpre à risca este direito dos pais escolherem o tipo de educação que desejam dar aos seus filhos. Alexandra Leitão, Secretária de Estado, que confessou ser a autora ideológica da norma que corta os contratos de associação, confessou também que escolheu, «por acaso» (há acasos absolutamente intencionais), pôr os seus filhos no Colégio Alemão, em Lisboa, escola particular fora da rede pública de educação, onde os pais devem pagar elevadas propinas. Um justo exercício de liberdade, mas que não é uma carta de recomendação da qualidade das escolas estatais.

 

Simplesmente importa notar que o exercício deste direito fica bem caro aos pais. É o livre exercício de um direito reservado aos ricos, ou dito mais diplomaticamente, aos que têm uma boa base financeira. Negar o mesmo direito aos de escassos recursos, ou dizendo o mesmo menos diplomaticamente, aos pobres, é uma injustiça que brada aos céus. A liberdade não é um direito que se compra, mas é um dever concedê-la a todos, sem qualquer distinção.

 

Quão longe estamos em Portugal de os pais poderem, na prática, exercitar o direito constitucional de escolherem o tipo de educação que desejam proporcionar aos filhos! O serviço público de ensino proporcionado por escolas/colégios particulares com contrato de associação é uma feliz pequena ilha (menos de 0,3%) de liberdade real, no mar de estatização do ensino ou da opção de ir para as alternativas caras do ensino particular, para quem tem capacidade financeira de o fazer. É esta pequena ilha de liberdade real que o Ministério da Educação decidiu cortar substancialmente, de modo desajeitado e prepotente, negando-se ao diálogo e rasgando os contratos assinados um ano antes com a duração de três anos. Em todo o lado custa deparar-nos com a falta de educação, mas muito mais quando se trata da casa onde deveria habitar como sua residência oficial.

 

Nos tempos da velha senhora, a tentação de estatizar o ensino era igual ou ainda maior. Mas tratou-se de uma quarentena de anos de ditadura do velho Estado novo, com pensamento absolutista e cartilha única. Vivemos felizmente em democracia, que não pode ficar encaixilhada no nome e congelada em palavras ocas, mas que tem de descer às realidades concretas, especialmente no campo da educação. Se é intolerável o estatismo de direita, controlador e despótico, não o é menos o estatismo de esquerda. O estado e o governo são para as pessoas e não as pessoas para o estado e o governo.

 

Importa democratizar a democracia. Urge libertar a liberdade também no campo da educação. Há que libertar o direito, ainda cativo, de os pais poderem, na prática, escolher a educação que querem proporcionar aos seus filhos.

 

Manuel Morujão, s.j.

 

 

 

 

A LOUCURA DO AMOR DE DEUS – E Deus fez-Se vulnerável

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Tendo Jesus chegado a casa, de novo a multidão acorreu, de tal maneira que nem podiam comer. E quando os seus familiares ouviram isto, saíram a ter mão n'Ele, pois diziam: «Está fora de Si!» (Mc 3, 20-21).

 

Nestes poucos versículos vemos como os familiares de Jesus chegaram a pensar que Ele estivesse fora de Si, que tivesse enlouquecido. Ele está completamente envolvido pela sua missão e esquece-Se até mesmo de comer! «Está louco», pensam.

É impelido pelo Amor e o Amor não pode ser travado, leva-nos sempre para a frente, derruba as fronteiras do bom senso e destrói os limites do razoável. As escolhas do Amor são sempre marcadas por um pouco de loucura. Não, o Amor não é cego! Quem ama simplesmente não se deixa ficar pelos limites autoimpostos dos riscos calculados.

Diante da omnipotência de Deus podemos ficar bloqueados. Pensamos n’Ele como um ser perfeito e distante, um ser total e imutável, que do alto da sua torre de cristal contempla e avalia a nossa progressão sobre esta terra. Como consequência, consideramos que a presença do mal no mundo é alguma coisa que Ele, mais ou menos tranquilamente, aceita e permite. Certo, quer que nos salvemos, mas no fundo reconhecemos que Ele é responsável pelo mal porque, mesmo que não seja culpa d’Ele, se quisesse mesmo poderia terminar com todo o sofrimento.

Diz São Paulo na carta ao Filipenses: «Ele, que é de condição divina, não considerou como uma usurpação ser igual a Deus; no entanto, esvaziou-Se a Si mesmo, tomando a condição de servo... rebaixou-Se a Si mesmo, tornando-Se obediente até à morte e morte de cruz». Na sua omnipotência, Deus esvazia-Se a Si mesmo e renuncia a todo o poder. Ainda mais: renuncia à vontade do poder que escraviza. Jesus insiste que está entre nós como alguém que serve; esta é a maravilha: a Verdade incarna e liberta-nos esvaziando-Se.

Pavel Evdokimov, um teólogo Russo, professor em Paris e observador convidado no Concílio Vaticano II, em linha com a antiga Tradição da Igreja, dizia que o esvaziamento do Senhor de Si mesmo é a manifestação do «Manikòs Éros», do «Amor louco» de Deus por nós. Deus é «louco» por amor! É de São Máximo, o Confessor (século VI) e Nicolau Cabásilas, um teólogo do século XIII, que refletiam sobre o Amor louco de Deus pelo Homem, que Evdokimov tira esta expressão da manifestação máxima da omnipotência de Deus: o seu Amor louco por cada um de nós que O leva a esvaziar-Se até à morte e morte de cruz.

Por Amor, Deus torna-Se infinitamente vulnerável: para nos libertar, para que fôssemos verdadeiramente livres, Ele não poderia impor-Se porque o Amor não se impõe pela força. Diante do sofrimento absurdo que a vida às vezes nos traz, diante de uma morte sem sentido ou de uma doença cruel de uma criança inocente é a fragilidade vulnerável e invencível de Deus, esta noção absolutamente paradoxal da omnipotência de Deus que devemos ter presente. O amor torna-nos vulneráveis e Deus, porque é Amor infinito, é infinitamente vulnerável: não pode fazer outra coisa que não seja sofrer connosco.

O deus impassível e severo de alguns teólogos revela-se em Jesus Cristo como um Pai misericordioso. Ele come com os pecadores e compadece-Se das nossas misérias: não é um deus imóvel, impassível, inacessível, perfeito na sua incapacidade de sofrer. Deus fez-Se vulnerável renunciando, livremente e por amor, à sua omnipotência formal. Ele compadece-Se de nós; incarnando manifesta que o Amor veio habitar entre nós e o Amor é sempre vulnerável, não o pode não ser se é amor.

É na manhã do Domingo de Páscoa que se manifesta, resplandecente, a vulnerabilidade frágil e definitivamente vencedora do invencível Amor de Deus.

 

Texto: Marco Cunha, s.j.

Foto: Lava-pés (pormenor), Capela Redmptoris Mater, Vaticano. (Marko Rupnik, sj)

 

 

 

 

RESSENTIMENTO E PERDÃO

Hoje vamos falar do ressentimento e do perdão no hino da caridade...

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Diz-nos S. Paulo que o amor não guarda ressentimento.

Primeiro, o que é o ressentimento?

 O ressentimento é a «mágoa sentida por uma ofensa». Não me parece que seja possível impedir o ressentimento. Todos nós ficamos ressentidos se nos ofendem, se nos magoam. Ora, esta mágoa depende muito do tipo de ofensa que nos fazem. A ofensa vai de uma brincadeira que nos magoa até um ato de uma crueldade inaudita. Reparemos que S. Paulo não nos diz que o amor não fica ressentido. Diz que não guarda ressentimento. Aqui, eu gostava de acrescentar uma coisa: a pessoa cristã, magoada, pode não guardar ressentimento para sempre, mas guarda ressentimento durante algum tempo. Senão não era uma pessoa normal. E se fomos muito magoados, o ressentimento dura muito tempo. E, ainda, se somos magoados constantemente, o ressentimento também é constante; não acaba enquanto a dor se mantiver.

Diz-nos S. Paulo que o amor não guarda ressentimento.

Primeiro, o que é o ressentimento? O ressentimento é a «mágoa sentida por uma ofensa». Não me parece que seja possível impedir o ressentimento. Todos nós ficamos ressentidos se nos ofendem, se nos magoam. Ora, esta mágoa depende muito do tipo de ofensa que nos fazem. A ofensa vai de uma brincadeira que nos magoa até um ato de uma crueldade inaudita. Reparemos que S. Paulo não nos diz que o amor não fica ressentido. Diz que não guarda ressentimento. Aqui, eu gostava de acrescentar uma coisa: a pessoa cristã, magoada, pode não guardar ressentimento para sempre, mas guarda ressentimento durante algum tempo. Senão não era uma pessoa normal. E se fomos muito magoados, o ressentimento dura muito tempo. E, ainda, se somos magoados constantemente, o ressentimento também é constante; não acaba enquanto a dor se mantiver.

O ressentimento é, pois, proporcional à dor da ferida e à nossa sensibilidade. O ressentimento há de passar, mas se fomos muito magoados, não passa durante muito tempo. E se formos constantemente magoados, nunca passa. Há, assim, duas causas que podem fazer o nosso ressentimento durar muito tempo:

– ou um ato que nos magoou muito,

– ou uma série de atos que não param.

Vou dar dois exemplos:

Uma vez tive que fazer o enterro de uma senhora que tinha sido assaltada, violada, assassinada e depois os criminosos ainda deitaram fogo à casa. A família dessa senhora vai guardar ressentimento durante muito tempo porque é uma ferida horrorosa. Provavelmente vai, mesmo, guardar ressentimento toda a vida, se bem que possa ir diminuindo.

Outro caso, que pode acontecer, é nós sermos magoados de forma continuada. Neste caso, há alguém que não para de nos magoar, que nos está sempre a magoar. Assim o ressentimento não acaba porque aquilo que nos magoa também não acaba.

Às vezes achamos que não estamos em posição de sacudir essa pessoa das nossas vidas. Na minha vida de padre já me deparei com pessoas que eram muito humilhadas no emprego, mas que não conseguiam arranjar outro. E também me deparei com pessoas achincalhadas pelos pais, não tendo forças para cortar com eles porque achavam que não se podiam desligar dos pais. Já para não falar dos casos de violência doméstica, em que a pessoa atacada não luta para se libertar daquela situação.

 

S. Paulo também nos diz: «a caridade tudo desculpa». Sim, o amor desculpa tudo mas às vezes demora muito tempo.

E o que é desculpar? Desculpar é deixarmos de querer mal à pessoa que nos fez mal. Desculpar é ainda rezar por essa pessoa. E é ser capaz de querer bem. Desculpar não é convidar a pessoa para minha casa, desculpar não é convidar para casa quem me fez mal ou fazer-me amigo dessa pessoa. Também não é esquecer.

Este ponto é muito importante porque há muitas pessoas que confundem as duas coisas. Podemos já ter perdoado e continuar a lembrar o mal que nos fizeram. Continuar, mesmo, a sentir dor, incómodo, revolta (etc.) de cada vez que pensamos na pessoa que nos magoou não quer dizer que não tenhamos perdoado. São sensações que têm mais a ver com a Psicologia do que com a Moral. São sensações de quem não esqueceu e não de quem não perdoou. Não tem a ver com o perdão, tem a ver com aquilo que nos marca. Positiva ou negativamente. Tanto não esquecemos o dia da Primeira Comunhão como aquela terrível ida ao dentista. Daí que se a ofensa foi muito grande, como nos marcou muito, nunca mais vá ser esquecida. Mas atenção que enquanto a ofensa não parar, não é possível perdoar. Se uma pessoa nos achincalha ou maltrata com regularidade, a ferida (psicológica) que nos provoca está permanentemente a ser aberta, logo é muito difícil, senão de todo impossível, perdoar.

 

Concluindo:

O ressentimento é a dor que sentimos.

Esta dor demora tanto mais tempo a passar quarto maior foi a ofensa.

Perdoar é não querer mal e ser capaz de rezar por. Nem implica ser amigo nem implica esquecer.

No próximo artigo vamos ver o seguinte:

Se perdoar não implica ficar amigo, como é que podemos amar os inimigos?

 

Texto: Gonçalo Miller Guerra, s.j.

Imagem: Ilda David'

 

LIÇÕES DE AMOR

 

Santo Agostinho dizia que "ninguém ama aquilo que não conhece”, o que se aplica na perfeição à atitude que temos para com as pessoas com deficiência. Como não se enquadram nos instituídos padrões de beleza e de sucesso, são facilmente ignoradas, repudiadas e até escondidas, muitas vezes pelas próprias famílias.

 

Há pessoas deficientes com histórias de vida terríveis, que vivem ou viveram em condições miseráveis, mas que, mesmo assim, são capazes das maiores lições de amor. Para não falar da gratidão com que tratam quem lhes quer bem.

 

Conto-vos a história do Paulo. Tem 39 anos e é deficiente mental. Ficou órfão de mãe aos 10 anos. Foi viver com uma família de acolhimento. A irmã, deficiente profunda, foi entregue a uma outra família de acolhimento. Moravam próximos. O Paulo via a irmã sempre que queria. Até que um dia a irmã foi institucionalizada bem longe da aldeia onde nasceram e cresceram. Já lá vão mais de 15 anos e ainda hoje o Paulo continua regularmente a bater à porta para saber da irmã, porque, diz ele, «ela é minha irmã e eu quero saber dela».

 

Mas também há lições de amor naquelas famílias que muitas vezes se nos apresentam como disfuncionais e negligentes. Lembro-me, por exemplo, de um outro Paulo que vivia sozinho com a mãe, trancado dias e dias num quarto de uma casa em ruínas, com um cão feroz à porta. A mãe recolhia cartão nas feiras para vender e assim conseguir um sustento. O Paulo reunia condições para ir à escola e viver integrado, mas apenas saía de vez em quando para as feiras. A situação considerada de risco estava identificada pelas entidades competentes e no dia em que o Tribunal ordenou a retirada do menor à mãe, a instituição acolhedora decidiu não o fazer e explicou as razões: havia uma relação muito forte entre a mãe e o Paulo. Era desumano separá-los. A única riqueza daquela mãe era o filho e para o proteger e «defender dos outros» mantinha-o trancado em casa. Uma estranha forma de amor, mas que não podia ser descartada. Aquela mãe só precisava de ajuda e de condições para viver com dignidade e sem medo.

 

Medo e falta de condições materiais e espirituais é o que leva muitas famílias a fazerem com que os seus deficientes se tornem invisíveis. Muitas escondem para proteger, maltratam porque não conhecem outras formas de lidar com a agressividade e outras manifestações da doença, têm vergonha de pedir ajuda, vivem desgastadas, não sabem a quem recorrer e, na verdade, há casos para os quais o Estado e a sociedade não têm resposta.

 

Estas famílias, algumas verdadeiramente heróicas, precisam essencialmente de compreensão, solidariedade e apoio. Assim como os seus deficientes, que, apesar das crises e limitações, são pessoas ternas, de sorriso fácil e de abraço imediato.

 

Na celebração do Jubileu dos Doentes e das Pessoas com Deficiência, o Papa afirmou que é necessário aceitar a limitação e o sofrimento para compreender «o verdadeiro sentido da vida».

 

Francisco sustentou que «o mundo não se torna melhor quando se compõe apenas de pessoas aparentemente ‘perfeitas’ (para não dizer ‘maquilhadas’), mas quando crescem a solidariedade, a mútua aceitação e o respeito entre os seres humanos».

Na ocasião, o Papa propôs «a terapia do sorriso» e disse que «a felicidade que cada um deseja pode exprimir-se de muitos modos, mas só é possível alcançá-la se se for capaz de amar».

 

Em vez de ignorar, lamentar, experimentemos conhecer a riqueza de sentimentos das pessoas com deficiência e descobriremos um mundo de afetos, onde a felicidade existe.

 

Elisabete Carvalho