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Blogue do Apostolado da Oração

E Deus fez-Se vulnerável – A LOUCURA DO AMOR

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Tendo Jesus chegado a casa, de novo a multidão acorreu, de tal maneira que nem podiam comer. E quando os seus familiares ouviram isto, saíram a ter mão n'Ele, pois diziam: «Está fora de Si!» (Mc 3, 20-21).

 

Nestes poucos versículos vemos como os familiares de Jesus chegaram a pensar que Ele estivesse fora de Si, que tivesse enlouquecido. Ele está tão envolvido na sua missão que Se esquece até mesmo de comer! Por isso começam a dizer: «Está louco»!

 

Jesus é impelido pelo Amor e o Amor não pode ser travado, leva-nos sempre para a frente, derruba as fronteiras do bom senso e destrói os limites do razoável. As escolhas do Amor são sempre marcadas por aquilo que, aos olhos daqueles que se consideram sensatos, parecem ser atos de loucura. Estes, do alto da sua suposta sensatez, dizem: «O amor é cego!». Não, o Amor não é cego! Quem ama, simplesmente, não se deixa ficar pelos limites autoimpostos dos riscos calculados e vê muito mais longe do que a tentação da segurança do conhecido nos quer impor. O Amor é o olhar mais simples e verdadeiro, é aquilo (Aquele!) que nos permite ver.

 

Diante da omnipotência de Deus, podemos ficar bloqueados. Pensamos n’Ele como um ser perfeito e distante, um ser total e imutável, que do alto da sua torre de cristal contempla e avalia a nossa progressão sobre esta terra. Como consequência, consideramos que a presença do mal no mundo seja alguma coisa que Ele, mais ou menos tranquilamente, aceita. Certo, quer que nos salvemos, mas no fundo pensamos que Ele é o responsável porque, se quisesse mesmo, poderia terminar com todo o sofrimento.

 

Diz São Paulo, na carta ao Filipenses: «Ele, que é de condição divina, não considerou como uma usurpação ser igual a Deus; no entanto, esvaziou-Se a Si mesmo, tomando a condição de servo... rebaixou-Se a Si mesmo, tornando-Se obediente até à morte e morte de cruz». Na sua omnipotência, Deus esvazia-Se a Si mesmo e renuncia a todo o poder. Ainda mais: renuncia à vontade do poder que escraviza. Jesus insiste que está entre nós como alguém que serve; esta é a maravilha: a Verdade incarna e liberta-nos esvaziando-Se.

 

Pavel Evdokimov, um teólogo Russo, professor em Paris e observador convidado no Concílio Vaticano II, em linha com a antiga Tradição da Igreja, dizia que o esvaziamento de Cristo de Si mesmo é a manifestação do «Manikòs éros», isto é, do «Amor louco» de Deus por nós. Deus é «louco» por amor. É de São Máximo, o Confessor (séc. VI), e Nicolau Cabásilas, um teólogo do século XIII, que refletiam sobre o Amor louco de Deus pelo Homem, que Evdokimov tira esta expressão da manifestação máxima da omnipotência de Deus: o seu Amor louco por cada um de nós que O leva a esvaziar-Se até à morte e morte de cruz.

 

Por Amor, Deus torna-Se infinitamente vulnerável para nos libertar, para que sejamos verdadeiramente livres. Ele não poderia impor-Se porque o Amor não Se impõe pela força. Diante do sofrimento absurdo que a vida nos pode trazer, diante de uma morte sem sentido ou de uma doença cruel de uma criança inocente, é a fragilidade vulnerável e invencível de Deus, esta manifestação absolutamente paradoxal da omnipotência de Deus, que devemos ter presente. O amor torna-nos vulneráveis e Deus, porque é Amor infinito, é infinitamente vulnerável: não pode fazer outra coisa que não seja sofrer connosco.

 

O deus impassível e severo de alguns teólogos revela-se em Jesus Cristo como um Pai misericordioso. Ele come com os pecadores e compadece-Se das nossas misérias: não é um deus imóvel, impassível, inacessível, perfeito na sua incapacidade de sofrer. Deus fez-Se vulnerável renunciando, livremente e por amor, à sua omnipotência formal. Ele compadece-Se de nós. Incarnando, manifesta o Amor que escolheu habitar entre nós e o Amor é sempre vulnerável, não o pode não ser, se é amor. E é na manhã do Domingo de Páscoa que se manifesta, resplandecente, a vulnerabilidade frágil e definitivamente vencedora do invencível Amor de Deus.

 

 

Marco Cunha, sj

Concede o teu perdão àquele que foste ontem

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O poeta e tradutor Armando Silva Carvalho – que nos deixou recentemente – propõe-nos no seu livro A Sombra do Mar estes versos de forte significado:

 

«Concede o teu perdão àquele que foste ontem

e não te conhece hoje debaixo do chuveiro.

(...)

A verdade é só uma, o que tu foste ontem

já não te conhece».

 

Recomeçar a cada dia constitui uma arte difícil. Transportamos no nosso seio as angústias pelo futuro que imaginamos, e em nós carregam-se as experiências do passado, muitas vezes amargas. Por vezes parece que nem merecemos uma nova oportunidade: já não vale a pena acreditar. Aqui se revela a importância vital que possui a Esperança na nossa vida: ela é o alimento que permite confiar e acreditar no presente e no futuro, apesar de tudo. Por isso outro poeta, Charles Peguy, declarava que a Esperança espanta o próprio Deus.

 

Não se trata de começar do zero: pertence ao próprio Deus, e a Ele unicamente, o criar a partir do nada. Somos o que a história nos fez e o que nela construímos e desconstruímos. O sinal maior da vida cristã estará, talvez, na arte de transportar as feridas como um sinal da nossa identidade, única e original. No dia de Páscoa, o Senhor apresenta-Se aos seus discípulos com as marcas da sua crucifixão, e eles reconhecem-No: do mais profundo fracasso, da morte mais ignominiosa, da maior angústia, emerge uma plenitude de vida e de graça. E que maior recriação haverá do que o perdão?

 

Os longos dias de verão podem suscitar em nós o cansaço e a sede do caminho; mas as suas frescas manhãs podem ser o sinal de um novo começo. «Concede o teu perdão àquele que foste ontem»; e segue o conselho de Macário, monge egípcio do século quarto, reparando nas suas palavras: «começa de novo»...

 

«Cada dia, desde que te levantas, começa de novo a viver em toda a virtude e nos preceitos de Deus, com grande paciência e misericórdia, no temor e amor de Deus e dos homens, com humildade de coração».

 

 

Texto: Rui Vasconcelos

Imagem: Filippo Rossi, 'Paupertas, Spes', 2012.

Descanso: direito ou dever?

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É claro que descansar é um direito. Uma pessoa não é uma máquina de trabalho. Aliás, como recorda S. João Paulo II, numa sua Encíclica, «o trabalho é para o homem e não o homem para o trabalho» (LE 6). Só assim o trabalho pode ser qualificado como humano, como um exercício de humanização.

 

O Concílio Vaticano II, que continua a ser a bússola que indica o norte para a Igreja atual, sublinha com clareza: «É preciso adaptar todo o processo de trabalho produtivo às necessidades da pessoa e às diferentes formas de vida; primeiro que tudo da vida doméstica, especialmente no que se refere às mães, e tendo sempre em conta o sexo e a idade. Proporcione-se, além disso, aos trabalhadores a possibilidade de desenvolver, na execução do próprio trabalho, as suas qualidades e personalidade. Ao mesmo tempo que aplicam responsavelmente a esta execução o seu tempo e forças, gozem, porém, todos de suficiente descanso e tempo livre para atender à vida familiar, cultural, social e religiosa» (GS 67).

 

Mas o descanso é muito mais que um direito. É também um dever. O descanso é uma questão de justiça social, de justiça familiar, comunitária. Quem vive num ritmo excessivamente acelerado de vida, por vezes estonteante, sem tempo para exercitar o dever de parar, de descansar, não está apenas a prejudicar-se a si mesmo, mas é fonte de nervosismo, impaciência e cansaço à sua volta. É como um carro sem travões, que só para e estaciona quando se esbarra contra um obstáculo.

 

Luís de Camões assim adverte num verso luminoso: «Não te canses que me cansas». Descansar não é abandonar-se à preguiça ociosa, ao não fazer nada egocêntrico. Descansar deve ser um exercício de caridade prática, de altruísmo amigo. Os outros precisam de mim descansado, relaxado, pacificado. Descansar é um verbo comunitário, um serviço assistencial, um presente de paz que ofereço a quem convive comigo.

 

Não é verdade que contactar com certas pessoas, em determinadas situações de cansaço, nos enerva, complica e esgota? Por outro lado, é um tempo ferial, uma prática de descanso pacificador encontrar pessoas que nos transmitem o oxigénio da paz e do repouso. Porque não considerar o descanso como um serviço social, um ministério apostólico?

 

O descanso é mais que um anexo da nossa agenda de afazeres, um pormenor insignificante da nossa personalidade. A arte de descansar define-nos. «Diz-me como descansas e eu te direi quem és», assim parafraseio o conhecido ditado popular. O descanso não é uma fórmula mágica de relaxação dos músculos e nervos, uma receita automática de um são ritmo biológico. É sobretudo um modo construtivo de encarar a vida, um clima de paz interior que se cultiva, um coração disposto a amar aconteça o que acontecer. O descanso que é mera evasão de nós próprios não leva a lado nenhum, é um beco sem saída. Assim, afirma um autor: «Quando não encontramos o repouso em nós próprios, é inútil procurá-lo noutro lado» (La Rochefoucauld). Advertindo que só em nós está a chave da solução, assim nota Fernando Pessoa: «É em nós que é tudo... Ali, ali, a vida é jovem e o amor sorri».

 

Não obriguemos ninguém a pagar a fatura do nosso cansaço enervante. Ofereçamos a todos o cheque do nosso descanso pacificador. Descansar é um dever caridoso, altruísta.

 

Manuel Morujão, sj

 

 

Aquele dom que está mesmo lá no fundo

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O leitor imagine que quer escrever um livro. Que sonhou durante alguns anos com escrever um livro e que finalmente se decidiu. Entusiasmaram-no a escrever um romance.

 

Depois de ter começado, vieram as dúvidas. Mas para que é que eu estou a fazer isto? Mas será que tenho talento? E como é que eu sei que tenho talento? Isto é um tiro no escuro. E se o livro é um fracasso? E se não arranjo editor? E se ninguém compra? E se a crítica o desfaz? Enfim, há motivos de sobra para o leitor não andar para a frente.

 

Por outro lado, vai mostrando bocadinhos a este e àquele, recebendo críticas, aperfeiçoando o texto, ganhando confiança e lá vai andando. Mas claro que continua a ser um tiro no escuro e essa tensão começa a ser insuportável. Escrever para a eventualidade de se chegar ao fim com um fracasso de todo o tamanho é insuportável. Então, é preciso alguma coisa que dê alegria ao ato de escrever. É preciso que escrever não seja só para se ter sucesso.

 

A partir daqui, o leitor pergunta-se: porque é que eu comecei a escrever? E porque é que ainda estou a escrever? Comecei a escrever por um impulso, como que empurrado por alguma coisa interior. Chegou a hora de ver se isso que me empurra continua no tempo, tem energia para me empurrar ao longo de todo o processo de escrita, se tenho alegria ao escrever.

 

Então, ou escrevemos por necessidade interior, escrevemos porque isso nos realiza, escrevemos porque temos prazer nisso ou não nos aguentamos na longa caminhada. Numa palavra, temos que escrever por amor a nós próprios. E também escrevemos por amor ao leitor. Escrevendo por amor, escrevemos necessariamente para Deus, pois que Deus é Amor.

 

O leitor, se tem alguma coisa lá no fundo que há muito gostava de fazer mas não sabe se tem esse dom, arrisque. Se tem esse desejo lá dentro, vai ver que encontra prazer na caminhada e que Deus lhe aparece pela frente.

 

Gonçalo Miller Guerra, sj

São João Batista, solstício e comunidade

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Como o Sol que brilha intensamente nestes dias, S. João Batista é uma luz que indica o caminho da esperança e aponta a salvação. É a voz que clama no deserto e apela à consciência coletiva para se preparar para a chegada do Messias. Com coragem, S. João Batista anuncia valores novos para a sociedade, mostrando-se coerente no seu discurso e na mensagem de boa nova.

 

A Igreja celebra o santo em duas datas: dia do seu nascimento, a 24 de junho, e a sua decapitação, a 29 de agosto. Fixado seis meses antes da Natividade de Jesus, o nascimento de S. João apelidava-se, noutros tempos, de ‘Natividade de verão’.

 

A piedade popular sempre reservou para S. João Batista um lugar à parte dos apóstolos e dos santos, sublimando, na festividade joanina, algumas tradições pagãs ligadas à vida e à renovação.

 

Exaltam-se as virtudes das ervas bentas e surgem, nas ruas, os alhos-porros, símbolos masculinos, e os manjericos e cidreiras, símbolos femininos.

 

A água está presente nas orvalhadas, sinais de fecundidade, e nas cascatas de S. João, com os seus rios e fontes, espécie de presépio de verão na qual S. João Batista é a figura central e onde se encontram todos os elementos da comunidade.

 

A luz e o Sol são recordados no fogo de artifício que cai do céu e nas fogueiras de S. João, que desafiam os mais corajosos a superar as dificuldades, trazendo-lhes boa saúde.

 

Festividade de dimensão urbanística e, ao mesmo tempo, rural, a Natividade de S. João convida os participantes a apropriarem-se dos espaços comuns, como os pátios, adros e largos, para celebrar a grande festa, convertendo-os em grandes salas de convívio.

 

É neste ambiente, em que toda a comunidade sai à rua, que se quebram barreiras. Dá-se horizontalização das relações: todos os estratos sociais se aproximam e convivem.

 

A festa popular é, assim, uma manifestação do povo de Deus que se alegra, confraterniza e retira todas as barreiras sociais para que as pessoas se aproximem e vivam o S. João num clima especial de proximidade e de consciência coletiva.

 

Bom S. João!

 

 

Maria Betânia Ribeiro

O Sonho de Alex

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“É sempre fixe quando alguém trabalha em alguma coisa difícil e alcança o seu sonho. Espero que alguém se possa inspirar nisto”. A afirmação é do norte-americano Alex Honnold, um jovem de 31 anos que, sozinho, sem cordas ou qualquer equipamento de segurança, escalou estes dias o mítico “El Capitan”, uma escarpa com 900 metros, no estado da Califórnia, Estados Unidos da América.

 

Depois de três horas e 56 minutos a escalar, Alex Honnold chegou ao topo, sentou-se, comeu uma maçã, ouviu o chilrear dos passarinhos e descreveu a maior experiência da sua vida.

  

Este feito do jovem americano pode servir de inspiração para pessoas de todas as idades e o seu testemunho pode ser transposto para um vasto campo de experiências e realidades.

 

Alex sonhou e fez o possível, e se calhar o impossível, para concretizar o seu sonho. Tal como ele, todos na vida temos sonhos. Crianças, jovens, adultos e idosos sonham projetos, condições de vida, amizades... Alguns desses sonhos são concretizáveis. Outros mais utópicos...

 

Perante os sonhos que vamos tendo e que vão alimentando o nosso imaginário, importa não ter uma atitude passiva. Importa pôr os pés a caminho e lutar para que eles se realizem. Mesmo que o sonho como o idealizamos não seja completamente alcançado, o caminho que fizermos pode levar-nos a outros sonhos e a experiências que nunca tínhamos vivenciado.

 

Ao assumirmos este tipo de postura, estamos a dar exemplo a outros, incentivando-os a, também eles, lutarem por aquilo que pretendem. Tal como aconteceu com Alex Honnold. Que o exemplo deste alpinista profissional possa servir de motivação, pelo menos a quem ler o seu testemunho.

 

Inspiremo-nos nas palavras de Fernando Pessoa: “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”.

 

 

Cláudia Pereira

 

 

Francisco, os Embriões e a Porcaria

 

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1. Há situações que me fazem regressar a temas sobre os quais tinha decidido deixar de escrever, não por falta de importância, mas por considerar os mesmos culturalmente decididos. É o caso do aborto livre a pedido. Sendo o “buraco negro” daquela que, apesar de tudo, continuo a chamar civilização ocidental, encontra-se, não obstante, culturalmente encerrado. A sua legalização não tem volta atrás e mesmo aqueles que nos opomos claramente a isso precisamos de o assumir, se queremos encontrar propostas alternativas capazes de manter vivo o direito dos nascituros à vida.

 

2. Recentemente, confrontei-me com uma dessas situações. O Papa Francisco, numa das suas publicações no Twitter, escreveu: “Nenhum fim justifica a destruição de embriões humanos”. Nada de extraordinário, trata-se da doutrina constante da Igreja sobre o tema. Extraordinário foi o comentário, também no Twitter, de uma das mais emblemáticas paladinas do aborto livre a pedido e de todas as outras causas fraturantes. Escreveu: “crianças a morrer por todo o lado e este preocupado com a porcaria dos embriões”.

 

3. Como se pode acreditar na preocupação pelas “crianças a morrer por todo o lado”, quando os embriões humanos são “porcaria”? E como se pode olhar para os embriões humanos – humanos, não de galinhas ou de macacos – como porcaria? Pode-se, sim, para lhes retirar a humanidade, a sua única defesa face ao abortismo militante. Desumanizadas, as crianças ainda por nascer são facilmente incluídas na cultura do descartável de que fala tantas vezes o Papa.

 

4. Escrevi acima que o aborto livre a pedido é o “buraco negro” da civilização ocidental. Eis porquê. Tendo eliminado o respeito por algumas vidas – as mais frágeis e invisíveis – acabará sugando o respeito por toda a vida: começa-se no aborto, continua-se na eutanásia para os muito idosos e doentes incuráveis que a desejem e, a seu tempo, irá tudo quanto fica pelo meio. Bastará ser desagradável – uma porcaria – para o culturalmente correto do momento.

 

Elias Couto

 

Perguntas sobre a Qualidade da Vida de Oração

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Não há regras gerais para a oração, pois não há duas pessoas iguais. A sua individualidade, a sua história, o seu mundo dos desejos e as suas relações fazem cada pessoa única no mundo e única diante de Deus. Por isso, apresentamos aqui cinco breves questões, muito práticas, que poderão ajudar a ter consciência da qualidade da própria vida de oração.

 

  1. Não existe boa oração sem paixão, ou seja, sem um coração que queira Deus e se mova com o desejo de O encontrar e ouvir. Isto tem como pressuposto que a pessoa que quer rezar tem uma certeza que é a base de tudo: Deus ocupa um lugar essencial no mundo das minhas relações?

 

  1. O nosso dia a dia é feito de muitas ocupações, somos interpelados continuamente a dispor de tempo e energia para tudo o que nos vai surgindo. Para não ficar à deriva, é preciso priorizar, fazer primeiro o mais importante e a seguir aquilo que é secundário. A oração está na lista das prioridades?

 

  1. A graça de Deus, que nos vai transformando na oração, mesmo que não sejamos conscientes disso, tem reflexo nas nossas atitudes perante a vida e os outros. O primeiro sinal de uma boa vida de oração é o crescimento de uma sensibilidade que permite ver que cada acontecimento, um encontro, uma situação boa ou má, são oportunidades que Deus nos dá para fazer algo que transmita bondade e paz. Os imprevistos com que me deparo tiram-me a paz, ou desafiam-me a dar o melhor de mim?

 

  1. O outro sinal da qualidade da vida de oração é o teste das nossas relações. Quem acaba de se encontrar comigo, sai mais triste ou mais feliz? Mais desanimado ou acolhido e com maior vontade de viver bem a sua vida?

 

  1. Por fim, temos a consequência da oração. Não há vida autêntica de relação com Deus se isso não me leva à comunidade, através do serviço e da celebração. É essencial para mim servir os outros como missão evangélica e celebrar a minha fé com as outras pessoas, contando as maravilhas que Deus faz em mim?

 

A resposta positiva a todas estas questões indica que está no bom caminho da oração e que ainda poderá progredir muito na sua vida, animado e entusiasmado por Deus! Se a algumas perguntas respondeu negativamente, não desanime, aproveite esse ponto concreto para pedir a Deus a graça de um maior esforço. Deus dá-Se a quem deseja dar-se-Lhe de coração aberto.

 

P. António Valério, sj

 

 

 

Um Deus de beleza

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Diz um autor russo, Pavel Florenskij, que «a verdade manifestada é o amor. O amor realizado é a beleza». Esta frase diz-nos de um modo muito condensado que a beleza está profundamente ligada à natureza de Deus. Como nos diz São João, «Deus é amor» e o amor manifesta-se como beleza.

 

Ao longo da história da Igreja, foram muitos os teólogos e pensadores que refletiram sobre esta questão. Hoje vemos que «a beleza está na moda», como diz um teólogo contemporâneo, Pierangelo Sequeri. O problema, diz Sequeri, é que muitas vezes confundimos a beleza com a mera cosmética, com os «enfeites» que adornam aquilo que em si não é beleza. Tentamos disfarçar a fealdade de algumas coisas das nossas vidas com mentiras. Queremos esconder aquilo que na nossa vida é escuro e feio com uma capa de cosméticos. Não é isso a beleza.

O Cardeal Ratzinger, anos antes de ser eleito Papa Bento XVI, diz-nos que é importante renovar o modo como somos anunciadores do Evangelho. «A beleza, diz o Cardeal Ratzinger, é conhecimento (...), uma forma superior de conhecimento porque toca o homem com toda a grandeza da verdade. (...) O verdadeiro conhecimento é ser atingido pelo dardo da beleza que fere o homem (...). Ser tocados e conquistados através da beleza de Cristo é um conhecimento mais real e mais profundo do que a dedução racional». Ao longo deste discurso, o Cardeal Ratzinger vai sublinhando a pertinência de recuperarmos a importância da beleza como manifestação do Amor de Deus. De facto, chega mesmo a dizer que esta é «uma urgência do nosso tempo».

Este não é um mero problema de bem-estar, ou um simples problema teológico, mas é, na verdade, um problema vital. Somos convidados a fazer da nossa vida um lugar de beleza, um lugar de espanto pelas maravilhas que o Senhor, o «Pastor Belo», nos dá de graça a cada passo da nossa vida.

«Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova», diz Santo Agostinho, que faz uma profunda reflexão sobre a beleza e conclui que a razão de ser da alegria perfeita, do amor, do saborear profundo da vida, da união entre todos nós, numa palavra, de toda a beleza, é só Deus. Tudo o que existe vem de Deus Trino e é atraído por Ele. «Na Trindade encontra-se a fonte suprema de todas as coisas, a beleza perfeita, a alegria completa». É esta beleza que nos atrai e nos inspira a fazermos o movimento de saída de nós em direção ao Pai.

A beleza verdadeira é aquela que nos atrai e faz passar das criaturas ao Criador, dos dons de Deus ao Deus de todos os dons, faz-nos ir «para além» do aqui e agora e atrai-nos para a nossa realidade mais profunda e completa, que é o abraço definitivo do Pai, a contemplação de Deus, o encontro amoroso que faz de nós filhos muito amados. A verdadeira beleza é aquela de um coração pacificado e encontrado. Esta brota da graça de Deus, morto e ressuscitado por cada um de nós.

 

Marco Cunha, s.j.

 

PEREGRINO COM MARIA

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Peregrino veio, peregrino partiu. Falo evidentemente do Papa Francisco, que acaba de nos deixar, transportado por um avião da TAP, batizado (dizem-me) com o nome do grande e célebre pintor português (1475-1542) “Grão Vasco” do tempo dos Descobrimentos. Estamos na história a fazer-se nas “Terras de Santa Maria”.

 

Veio a Fátima para celebrar o Centenário das Aparições de Nossa Senhora aos Três Pastorinhos, mas insistiu que o fazia como peregrino com peregrinos numa Igreja que deseja ver como peregrina a sair “para fora”. Fez-se Peregrino de Nossa Senhora de Fátima, precisamente onde a história de Deus se cruza mais uma vez com a história de Portugal. Grão Vasco leva um pouco dessa história ao levá-lo de regresso a Roma para, a partir do centro da cristandade, continuar a sua peregrinação por outros mundos, outras terras e, já agora, por outros mares “ainda por navegar” e que vão para além de nós, do nosso mundo, dos nossos mares, da nossa história e até das nossas histórias.

 

É para esse “para além de nós” que o Papa Francisco nos convidou a ir. Chamou-lhe “as periferias” onde habitam outras terras com histórias de clamores silenciados mas que bradam aos céus. Naquele pobre, sentado e de mão estendida há um grito (“Ajuda-me”); naquele sem-abrigo deitado entre cartões há um pedido (“Acolhe-me”); naquele toxicodependente há uma voz carente (“Ama-me”), e por aí adiante.

 

Estamos no mundo dos pobres e abandonados, dos presos e desempregados, dos doentes e das pessoas com deficiências; estamos no mundo das carências de toda a ordem, sejam elas económicas ou sociais, morais ou espirituais; estamos no mundo do vazio (“Era do Vazio” alguém lhe chamou), onde aparentemente se tem tudo e não se tem nada, nem sequer a voz popular do “Quem tem uma mãe, tem tudo; quem não tem mãe, não tem nada”. Por isso, gostei de ouvir a voz comovida e convicta do Papa diante daquele mar de gente no recinto do Santuário: “Temos Mãe, Temos Mãe”. 

 

Não era preciso dizer mais nada, nem era preciso falar de Esperança e Paz. Bastava deixar-lhe o rosto a falar de ternura com os gestos a “tocarem” nas pessoas enquanto o carinho e a misericórdia lhes tocavam as vidas quais toques de Deus a acontecer em pinturas de luzes e sombras tão bem espelhadas no sol e nas nuvens do momento. Bastava o silêncio da oração prolongada para recolher tudo isso. E deixar-se ficar assim no colo da Mãe sem falar, apenas escutando e sem pensar, apenas sentindo. É nesse silêncio que por vezes acontece o milagre da Plenitude da Graça a encher os nossos vazios interiores com o Sol bailando em cântico de alegria. Mesmo sem o sabermos explicar.

 

E partiu em jeito de despedida. Da partida de Fátima retenho o momento do Adeus do Papa com o lenço branco a abanar enquanto o olhar seguia a andor que levava Maria ao seu “recolhimento” na capelinha onde a devoção popular a “acolheu”. Da base aérea de Monte Real guardo a sua imagem, já na porta do avião, com a pasta preta na mão esquerda caída ao longo do corpo, enquanto a mão direita fazia o gesto comum e simples de despedida, que envia embrulhado no sorriso do olhar para o Presidente da República e o Bispo de Leiria-Fátima, nossos representantes. Espero que nos entreguem o gesto e o sorriso. E partiu como veio. Dizem que partiu contente. E nós contentes ficámos. Contentes e agradecidos.

 

Texto: A. da Costa Silva, s.j.

Imagem: Ricardo Perna/Família Cristã