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Blogue do Apostolado da Oração

“Há algo que fala em nós e nos fala”

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A frase foi escrita, há relativamente pouco tempo, num jornal de referência, por Eduardo Lourenço. Tropecei nela e nela tenho andado a tropeçar até hoje, dia em que começo estas linhas para “O mundo à nossa volta” do site do AO, mundo este tão cheio de barulhos e ruídos, alguns ensurdecedores, em que muito se fala, berra e vocifera, mas onde raramente as pessoas se ouvem. Se é que se querem ouvir, o que duvido. Ouvir dá muito trabalho porque implica disposição interior para a mudança e abertura ao outro. Por isso é mais fácil falar para “convencer” (só que isso não é comunicar), ou berrar para “vencer” (só que isso é despotismo), ou vociferar palavrões para “denegrir” (só que isso é ofender). Há muito barulho, mas o diálogo é de surdos por mais alto que se fale.

 

Talvez o problema resida na incapacidade de nos ouvirmos primeiro no íntimo de nós mesmos. E, talvez, o problema da incapacidade de nos ouvirmos no íntimo de nós mesmos esteja no medo de ouvir esse “algo que fala em nós” (porque nos incomoda) “e nos fala” (porque nos inquieta). Eduardo Lourenço referia-se à dimensão transcendente da vida humana. O homem em particular e a sociedade em geral não sabem o que fazer do transcendente nem com o transcendente porque, como disse, incomoda e inquieta. Por isso, tão pouco sabem o que fazer de Deus e com Deus. E porque na sua negação está simultaneamente implícita a sua afirmação, o melhor é esquecer, fazer de conta ou proceder “como se” não existisse.

 

E lá vamos, sem Deus quando não contra Deus, tentando construir a nossa história coletiva e as nossas histórias pessoais com todas as consequências conhecidas. O resultado está à vista. Basta ler as notícias e ver os telejornais para confirmar o versículo do Salmo que diz: “Se Deus não construir a cidade, em vão labutam os homens por construí-la” (cito de memória).

 

Felizmente que esse “algo que fala em nós e nos fala” continua lá, no mais fundo de nós próprios, a falar (voz) e a falar-nos (mensagem). Voz e mensagem a caminharem connosco ao longo das nossas histórias, como apelos de Deus à verdade que nos liberta e à reconciliação entre os homens, único caminho para a paz e bem-estar de todos e para todos e não só de alguns e para alguns.

 

Não sei se estou a escrever sobre Deus ou sobre o homem. Sei apenas que o homem pode negar Deus por palavras, obras e omissões, mas nunca conseguirá matar definitivamente a sua voz dentro de si, quer queira quer não, quer goste quer não goste. O grande problema no meio de tudo isto é que Deus e o Homem estão condenados a terem de se entender, pela simples razão de que Deus não pode deixar de ser o que é (Criador e Pai) e o Homem (Criatura e Filho) não consegue ser o que não é. Seria, quando muito, uma imagem falseada de si mesmo.

 

Neste “algo que fala em nós e nos fala” reside afinal a janela sempre aberta à esperança de melhores dias. E estes estão ao nosso alcance. Só é preciso abrirmo-nos a essa voz que, neste momento e neste contexto, traduzo na frase evangélica: “Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações”. A solução para os graves problemas que hoje ameaçam a sociedade, pode bem morar aqui. É na abertura a Deus que nos encontramos a nós próprios e uns com os outros. Mais que de desejos de paz tantas vezes expressos e proclamados solenemente (leia-se: com barulho) nas instâncias internacionais, precisamos, como de pão para a boca, de parar para escutar essa Voz que anda abafada. Acredito que é o caminho que nos pode levar ao abraço da reconciliação e da paz e nos torna irmãos.

 

A. da Costa Silva, s.j.

 

Ajudem a renascer a Esperança

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Continuam as notícias acerca de fogos, catástrofes, terrorismo que mata, crimes, guerra, violências, fraudes, raptos, etc. etc. Enchem os jornais e os telejornais de desgraças que deprimem e angustiam o povo. Há tanta coisa boa no mundo, tanto dom e serviço, tanta maravilha de amor, beleza, atenção e dedicação aos outros, experiências espirituais e lúdicas fabulosas, dignas, sérias, alegres. Parece que não há interesse, atenção, gosto em dar a conhecer essas maravilhas.

 

Chega de andarmos deprimidos por tanta desgraça. Ajudem-nos a fazer renascer a esperança no futuro, o entusiasmo pela vida, o gosto de servir e amar. Basta de notícias só de misérias, de desgraças, de atentados à natureza e à vida humana. Precisamos todos que nos ajudem a viver a autoestima, a alegria, o entusiasmo para olhar o futuro com esperança.

 

É digno e justo louvar e agradecer o esforço dos muitos bombeiros, de outros agentes, de tantos voluntários generosos e sacrificados. Como é digno e justo rezar pelas vítimas, pelas famílias, pelos que ficaram sem nada. Acompanhar em oração as horas, os dias e noites de “inferno”.

 

É urgente condenar os atos de terrorismo e gritar que Deus, que Alá, não quer mortes de ódio, de vingança. É preciso condenar os processos de exploração humana e sexual de tantas mulheres e jovens e gritar que a vida é um dom precioso e digno, que tem de ser respeitado.

 

Como é de louvar o serviço dedicado de tantos militares da Guarda Nacional Republicana que, no Mediterrâneo, têm salvo centenas de refugiados. Como é encantador ver o serviço dedicado de tantos médicos sem fronteiras e de tantas centenas de voluntários que vão servir pobres e doentes em países onde há muita miséria, fome, doenças.

 

Tudo isto tem de ser feito e mostrado com moderação. Não deem cabo de nós e das crianças e adolescentes que veem televisão e choram quando veem casas a arder e pessoas a gritar de terror. Poupem-nos. Não precisamos de andar semanas a ver fogos, uns atrás dos outros, com ruína e todo o sofrimento que comportam.

 

Não só os cristãos, mas todas as pessoas de outras religiões e todos os que sentem “boa vontade”, temos de nos unir para ajudar a renascer a esperança. Olhar o futuro com otimismo, confiados no amor de Deus e na boa vontade dos homens. Fazer renascer a esperança, ser sentinelas da esperança que gritam aos corações que há muito bem à nossa volta, que há muita gente boa, que há muitas possibilidades de crescer na verdade e na justiça.

 

Precisamos de conhecer exemplos bons de dom e serviço, de construção de paz e concórdia, de sonhos que comandam a vida na direção certa, ou seja, no amor, no gosto de viver, no dom que faz os outros mais felizes. Não desistamos de viver a esperança como experiência interior que pacifica e alegra, que anima e conforta.

 

Nos meus quarenta e três anos de sacerdócio, tenho encontrado muita gente boa, dedicada, santa, capaz de se doar para fazer os outros mais felizes. Tenho encontrado muitos e muitos sacerdotes exemplares, castos e pobres, obedientes ao seu bispo e à Igreja, homens que não são funcionários do sagrado, mas que vivem uma dedicação a toda a prova, uma doação generosa ao seu povo, à Igreja, a Jesus Cristo.

 

Mas sempre que há um pequeno escândalo de algum que por fraqueza cometeu algo mau ou menos bom, temos longos discursos malévolos nos telejornais, repetidos vezes sem conta, como insinuações criminosas e difamatórias.

 

Olhemos o bem, o positivo, o muito que há de bom e de santo, de dedicação e de serviço generoso. Sejamos homens e mulheres de esperança, vivamos a alegria que nos vem da entrega e da doação generosa.

 

Texto: Dário Pedroso, sj

Fotografia: CAFOD Photo Library

As férias deviam durar todo o ano

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Ter um bom tempo de férias é exigente. Ora, exigência em tempo de férias parece uma palavra fora do lugar, pois ao longo de todo o ano sentimos que as responsabilidades e tarefas nos “exigem” tempo, energia, uma força de vontade que se vai esgotando, pouco a pouco. Férias, como habitualmente as consideramos, são uma espécie de suspensão do esforço, de não querer nada para além de estar precisamente a fazer isto: nada. Ou fazer aquilo que realmente nos apetece fazer, sem horários e sem imposições. Não estou a dizer que estes momentos de “nada” ou “fazer o que apetece” não são necessários, o problema é quando identificamos, sem mais, o descanso com estas duas coisas.

 

Esta identificação tão comum não traduz o potencial de umas boas férias, e o modo melhor de o ver é pelos seus frutos. Depois de uns dias ou umas semanas de “nada”, mesmo que seja a viajar por todo o lado ou, até que enfim, nos programas prometidos à família e aos amigos, a ler um livro, a ir ao cinema, a ir a um festival, a fazer desporto, a ir à praia ou à montanha, etc... o que acontece? Terminam estes dias e chega a nostalgia – até tristeza se poderia chamar – de voltar ao trabalho. Conclusão: acabamos as férias certamente contentes e agradecidos com o que aconteceu, mas tristes com o que está a chegar. E a tristeza não é um bom fruto. Diferente seria se acabássemos as férias cheios de alegria por regressar ao “tempo comum” que, aliás, é aquilo que mais excelente temos, a nossa vida quotidiana.

 

A exigência de umas boas férias é aliar o tempo de descanso, com tudo o que de bom e apetecível implica, com uma arte, esta sim exigente. Procuremos fazer com que o tempo de férias seja algo como desenhar o quadro perfeito da nossa vida, no qual nos podemos rever continuamente. Um quadro pintado com os traços das nossas relações mais queridas e das atividades que engrandecem o coração e o olhar, e com as cores bem definidas de Deus, as quais tantas vezes, ao longo do ano, surgem em tons tão desmaiados. As férias dão-nos tempo de qualidade para as coisas mais importantes, são um espaço de lançamento para a vida real, não um intervalo que depois desaparece e nos faz encarar a vida com cara e coração fechados.

 

Agora, que é tão fácil fazer fotografias de todos os momentos, faço-lhe esta sugestão. No final das férias, vividas nesta arte, selecione algumas imagens deste tempo que retratem o melhor da sua vida: Deus, a família, o cultivo do espírito... e mantenha-as em lugar visível. Nos momentos de rotina e cansaço e desânimo, volte à contemplação destes espaços de vida, para neles encontrar o segredo da alegria das coisas simples e gratuitas, que se podem fazer todos os dias. Poderá ser surpreendido ao dar-se conta que, afinal, as férias podem durar todo o ano.

 

A equipa do Secretariado Nacional do Apostolado da Oração deseja, assim, a todos, um reconfortante tempo de férias, cheio desta arte de contemplar a vida, com os seus frutos de alegria para o início do novo ano de trabalho.

 

António Valério, sj

 

 

 

E Deus fez-Se vulnerável – A LOUCURA DO AMOR

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Tendo Jesus chegado a casa, de novo a multidão acorreu, de tal maneira que nem podiam comer. E quando os seus familiares ouviram isto, saíram a ter mão n'Ele, pois diziam: «Está fora de Si!» (Mc 3, 20-21).

 

Nestes poucos versículos vemos como os familiares de Jesus chegaram a pensar que Ele estivesse fora de Si, que tivesse enlouquecido. Ele está tão envolvido na sua missão que Se esquece até mesmo de comer! Por isso começam a dizer: «Está louco»!

 

Jesus é impelido pelo Amor e o Amor não pode ser travado, leva-nos sempre para a frente, derruba as fronteiras do bom senso e destrói os limites do razoável. As escolhas do Amor são sempre marcadas por aquilo que, aos olhos daqueles que se consideram sensatos, parecem ser atos de loucura. Estes, do alto da sua suposta sensatez, dizem: «O amor é cego!». Não, o Amor não é cego! Quem ama, simplesmente, não se deixa ficar pelos limites autoimpostos dos riscos calculados e vê muito mais longe do que a tentação da segurança do conhecido nos quer impor. O Amor é o olhar mais simples e verdadeiro, é aquilo (Aquele!) que nos permite ver.

 

Diante da omnipotência de Deus, podemos ficar bloqueados. Pensamos n’Ele como um ser perfeito e distante, um ser total e imutável, que do alto da sua torre de cristal contempla e avalia a nossa progressão sobre esta terra. Como consequência, consideramos que a presença do mal no mundo seja alguma coisa que Ele, mais ou menos tranquilamente, aceita. Certo, quer que nos salvemos, mas no fundo pensamos que Ele é o responsável porque, se quisesse mesmo, poderia terminar com todo o sofrimento.

 

Diz São Paulo, na carta ao Filipenses: «Ele, que é de condição divina, não considerou como uma usurpação ser igual a Deus; no entanto, esvaziou-Se a Si mesmo, tomando a condição de servo... rebaixou-Se a Si mesmo, tornando-Se obediente até à morte e morte de cruz». Na sua omnipotência, Deus esvazia-Se a Si mesmo e renuncia a todo o poder. Ainda mais: renuncia à vontade do poder que escraviza. Jesus insiste que está entre nós como alguém que serve; esta é a maravilha: a Verdade incarna e liberta-nos esvaziando-Se.

 

Pavel Evdokimov, um teólogo Russo, professor em Paris e observador convidado no Concílio Vaticano II, em linha com a antiga Tradição da Igreja, dizia que o esvaziamento de Cristo de Si mesmo é a manifestação do «Manikòs éros», isto é, do «Amor louco» de Deus por nós. Deus é «louco» por amor. É de São Máximo, o Confessor (séc. VI), e Nicolau Cabásilas, um teólogo do século XIII, que refletiam sobre o Amor louco de Deus pelo Homem, que Evdokimov tira esta expressão da manifestação máxima da omnipotência de Deus: o seu Amor louco por cada um de nós que O leva a esvaziar-Se até à morte e morte de cruz.

 

Por Amor, Deus torna-Se infinitamente vulnerável para nos libertar, para que sejamos verdadeiramente livres. Ele não poderia impor-Se porque o Amor não Se impõe pela força. Diante do sofrimento absurdo que a vida nos pode trazer, diante de uma morte sem sentido ou de uma doença cruel de uma criança inocente, é a fragilidade vulnerável e invencível de Deus, esta manifestação absolutamente paradoxal da omnipotência de Deus, que devemos ter presente. O amor torna-nos vulneráveis e Deus, porque é Amor infinito, é infinitamente vulnerável: não pode fazer outra coisa que não seja sofrer connosco.

 

O deus impassível e severo de alguns teólogos revela-se em Jesus Cristo como um Pai misericordioso. Ele come com os pecadores e compadece-Se das nossas misérias: não é um deus imóvel, impassível, inacessível, perfeito na sua incapacidade de sofrer. Deus fez-Se vulnerável renunciando, livremente e por amor, à sua omnipotência formal. Ele compadece-Se de nós. Incarnando, manifesta o Amor que escolheu habitar entre nós e o Amor é sempre vulnerável, não o pode não ser, se é amor. E é na manhã do Domingo de Páscoa que se manifesta, resplandecente, a vulnerabilidade frágil e definitivamente vencedora do invencível Amor de Deus.

 

 

Marco Cunha, sj

Concede o teu perdão àquele que foste ontem

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O poeta e tradutor Armando Silva Carvalho – que nos deixou recentemente – propõe-nos no seu livro A Sombra do Mar estes versos de forte significado:

 

«Concede o teu perdão àquele que foste ontem

e não te conhece hoje debaixo do chuveiro.

(...)

A verdade é só uma, o que tu foste ontem

já não te conhece».

 

Recomeçar a cada dia constitui uma arte difícil. Transportamos no nosso seio as angústias pelo futuro que imaginamos, e em nós carregam-se as experiências do passado, muitas vezes amargas. Por vezes parece que nem merecemos uma nova oportunidade: já não vale a pena acreditar. Aqui se revela a importância vital que possui a Esperança na nossa vida: ela é o alimento que permite confiar e acreditar no presente e no futuro, apesar de tudo. Por isso outro poeta, Charles Peguy, declarava que a Esperança espanta o próprio Deus.

 

Não se trata de começar do zero: pertence ao próprio Deus, e a Ele unicamente, o criar a partir do nada. Somos o que a história nos fez e o que nela construímos e desconstruímos. O sinal maior da vida cristã estará, talvez, na arte de transportar as feridas como um sinal da nossa identidade, única e original. No dia de Páscoa, o Senhor apresenta-Se aos seus discípulos com as marcas da sua crucifixão, e eles reconhecem-No: do mais profundo fracasso, da morte mais ignominiosa, da maior angústia, emerge uma plenitude de vida e de graça. E que maior recriação haverá do que o perdão?

 

Os longos dias de verão podem suscitar em nós o cansaço e a sede do caminho; mas as suas frescas manhãs podem ser o sinal de um novo começo. «Concede o teu perdão àquele que foste ontem»; e segue o conselho de Macário, monge egípcio do século quarto, reparando nas suas palavras: «começa de novo»...

 

«Cada dia, desde que te levantas, começa de novo a viver em toda a virtude e nos preceitos de Deus, com grande paciência e misericórdia, no temor e amor de Deus e dos homens, com humildade de coração».

 

 

Texto: Rui Vasconcelos

Imagem: Filippo Rossi, 'Paupertas, Spes', 2012.

Descanso: direito ou dever?

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É claro que descansar é um direito. Uma pessoa não é uma máquina de trabalho. Aliás, como recorda S. João Paulo II, numa sua Encíclica, «o trabalho é para o homem e não o homem para o trabalho» (LE 6). Só assim o trabalho pode ser qualificado como humano, como um exercício de humanização.

 

O Concílio Vaticano II, que continua a ser a bússola que indica o norte para a Igreja atual, sublinha com clareza: «É preciso adaptar todo o processo de trabalho produtivo às necessidades da pessoa e às diferentes formas de vida; primeiro que tudo da vida doméstica, especialmente no que se refere às mães, e tendo sempre em conta o sexo e a idade. Proporcione-se, além disso, aos trabalhadores a possibilidade de desenvolver, na execução do próprio trabalho, as suas qualidades e personalidade. Ao mesmo tempo que aplicam responsavelmente a esta execução o seu tempo e forças, gozem, porém, todos de suficiente descanso e tempo livre para atender à vida familiar, cultural, social e religiosa» (GS 67).

 

Mas o descanso é muito mais que um direito. É também um dever. O descanso é uma questão de justiça social, de justiça familiar, comunitária. Quem vive num ritmo excessivamente acelerado de vida, por vezes estonteante, sem tempo para exercitar o dever de parar, de descansar, não está apenas a prejudicar-se a si mesmo, mas é fonte de nervosismo, impaciência e cansaço à sua volta. É como um carro sem travões, que só para e estaciona quando se esbarra contra um obstáculo.

 

Luís de Camões assim adverte num verso luminoso: «Não te canses que me cansas». Descansar não é abandonar-se à preguiça ociosa, ao não fazer nada egocêntrico. Descansar deve ser um exercício de caridade prática, de altruísmo amigo. Os outros precisam de mim descansado, relaxado, pacificado. Descansar é um verbo comunitário, um serviço assistencial, um presente de paz que ofereço a quem convive comigo.

 

Não é verdade que contactar com certas pessoas, em determinadas situações de cansaço, nos enerva, complica e esgota? Por outro lado, é um tempo ferial, uma prática de descanso pacificador encontrar pessoas que nos transmitem o oxigénio da paz e do repouso. Porque não considerar o descanso como um serviço social, um ministério apostólico?

 

O descanso é mais que um anexo da nossa agenda de afazeres, um pormenor insignificante da nossa personalidade. A arte de descansar define-nos. «Diz-me como descansas e eu te direi quem és», assim parafraseio o conhecido ditado popular. O descanso não é uma fórmula mágica de relaxação dos músculos e nervos, uma receita automática de um são ritmo biológico. É sobretudo um modo construtivo de encarar a vida, um clima de paz interior que se cultiva, um coração disposto a amar aconteça o que acontecer. O descanso que é mera evasão de nós próprios não leva a lado nenhum, é um beco sem saída. Assim, afirma um autor: «Quando não encontramos o repouso em nós próprios, é inútil procurá-lo noutro lado» (La Rochefoucauld). Advertindo que só em nós está a chave da solução, assim nota Fernando Pessoa: «É em nós que é tudo... Ali, ali, a vida é jovem e o amor sorri».

 

Não obriguemos ninguém a pagar a fatura do nosso cansaço enervante. Ofereçamos a todos o cheque do nosso descanso pacificador. Descansar é um dever caridoso, altruísta.

 

Manuel Morujão, sj

 

 

Aquele dom que está mesmo lá no fundo

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O leitor imagine que quer escrever um livro. Que sonhou durante alguns anos com escrever um livro e que finalmente se decidiu. Entusiasmaram-no a escrever um romance.

 

Depois de ter começado, vieram as dúvidas. Mas para que é que eu estou a fazer isto? Mas será que tenho talento? E como é que eu sei que tenho talento? Isto é um tiro no escuro. E se o livro é um fracasso? E se não arranjo editor? E se ninguém compra? E se a crítica o desfaz? Enfim, há motivos de sobra para o leitor não andar para a frente.

 

Por outro lado, vai mostrando bocadinhos a este e àquele, recebendo críticas, aperfeiçoando o texto, ganhando confiança e lá vai andando. Mas claro que continua a ser um tiro no escuro e essa tensão começa a ser insuportável. Escrever para a eventualidade de se chegar ao fim com um fracasso de todo o tamanho é insuportável. Então, é preciso alguma coisa que dê alegria ao ato de escrever. É preciso que escrever não seja só para se ter sucesso.

 

A partir daqui, o leitor pergunta-se: porque é que eu comecei a escrever? E porque é que ainda estou a escrever? Comecei a escrever por um impulso, como que empurrado por alguma coisa interior. Chegou a hora de ver se isso que me empurra continua no tempo, tem energia para me empurrar ao longo de todo o processo de escrita, se tenho alegria ao escrever.

 

Então, ou escrevemos por necessidade interior, escrevemos porque isso nos realiza, escrevemos porque temos prazer nisso ou não nos aguentamos na longa caminhada. Numa palavra, temos que escrever por amor a nós próprios. E também escrevemos por amor ao leitor. Escrevendo por amor, escrevemos necessariamente para Deus, pois que Deus é Amor.

 

O leitor, se tem alguma coisa lá no fundo que há muito gostava de fazer mas não sabe se tem esse dom, arrisque. Se tem esse desejo lá dentro, vai ver que encontra prazer na caminhada e que Deus lhe aparece pela frente.

 

Gonçalo Miller Guerra, sj

São João Batista, solstício e comunidade

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Como o Sol que brilha intensamente nestes dias, S. João Batista é uma luz que indica o caminho da esperança e aponta a salvação. É a voz que clama no deserto e apela à consciência coletiva para se preparar para a chegada do Messias. Com coragem, S. João Batista anuncia valores novos para a sociedade, mostrando-se coerente no seu discurso e na mensagem de boa nova.

 

A Igreja celebra o santo em duas datas: dia do seu nascimento, a 24 de junho, e a sua decapitação, a 29 de agosto. Fixado seis meses antes da Natividade de Jesus, o nascimento de S. João apelidava-se, noutros tempos, de ‘Natividade de verão’.

 

A piedade popular sempre reservou para S. João Batista um lugar à parte dos apóstolos e dos santos, sublimando, na festividade joanina, algumas tradições pagãs ligadas à vida e à renovação.

 

Exaltam-se as virtudes das ervas bentas e surgem, nas ruas, os alhos-porros, símbolos masculinos, e os manjericos e cidreiras, símbolos femininos.

 

A água está presente nas orvalhadas, sinais de fecundidade, e nas cascatas de S. João, com os seus rios e fontes, espécie de presépio de verão na qual S. João Batista é a figura central e onde se encontram todos os elementos da comunidade.

 

A luz e o Sol são recordados no fogo de artifício que cai do céu e nas fogueiras de S. João, que desafiam os mais corajosos a superar as dificuldades, trazendo-lhes boa saúde.

 

Festividade de dimensão urbanística e, ao mesmo tempo, rural, a Natividade de S. João convida os participantes a apropriarem-se dos espaços comuns, como os pátios, adros e largos, para celebrar a grande festa, convertendo-os em grandes salas de convívio.

 

É neste ambiente, em que toda a comunidade sai à rua, que se quebram barreiras. Dá-se horizontalização das relações: todos os estratos sociais se aproximam e convivem.

 

A festa popular é, assim, uma manifestação do povo de Deus que se alegra, confraterniza e retira todas as barreiras sociais para que as pessoas se aproximem e vivam o S. João num clima especial de proximidade e de consciência coletiva.

 

Bom S. João!

 

 

Maria Betânia Ribeiro

O Sonho de Alex

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“É sempre fixe quando alguém trabalha em alguma coisa difícil e alcança o seu sonho. Espero que alguém se possa inspirar nisto”. A afirmação é do norte-americano Alex Honnold, um jovem de 31 anos que, sozinho, sem cordas ou qualquer equipamento de segurança, escalou estes dias o mítico “El Capitan”, uma escarpa com 900 metros, no estado da Califórnia, Estados Unidos da América.

 

Depois de três horas e 56 minutos a escalar, Alex Honnold chegou ao topo, sentou-se, comeu uma maçã, ouviu o chilrear dos passarinhos e descreveu a maior experiência da sua vida.

  

Este feito do jovem americano pode servir de inspiração para pessoas de todas as idades e o seu testemunho pode ser transposto para um vasto campo de experiências e realidades.

 

Alex sonhou e fez o possível, e se calhar o impossível, para concretizar o seu sonho. Tal como ele, todos na vida temos sonhos. Crianças, jovens, adultos e idosos sonham projetos, condições de vida, amizades... Alguns desses sonhos são concretizáveis. Outros mais utópicos...

 

Perante os sonhos que vamos tendo e que vão alimentando o nosso imaginário, importa não ter uma atitude passiva. Importa pôr os pés a caminho e lutar para que eles se realizem. Mesmo que o sonho como o idealizamos não seja completamente alcançado, o caminho que fizermos pode levar-nos a outros sonhos e a experiências que nunca tínhamos vivenciado.

 

Ao assumirmos este tipo de postura, estamos a dar exemplo a outros, incentivando-os a, também eles, lutarem por aquilo que pretendem. Tal como aconteceu com Alex Honnold. Que o exemplo deste alpinista profissional possa servir de motivação, pelo menos a quem ler o seu testemunho.

 

Inspiremo-nos nas palavras de Fernando Pessoa: “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”.

 

 

Cláudia Pereira

 

 

Francisco, os Embriões e a Porcaria

 

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1. Há situações que me fazem regressar a temas sobre os quais tinha decidido deixar de escrever, não por falta de importância, mas por considerar os mesmos culturalmente decididos. É o caso do aborto livre a pedido. Sendo o “buraco negro” daquela que, apesar de tudo, continuo a chamar civilização ocidental, encontra-se, não obstante, culturalmente encerrado. A sua legalização não tem volta atrás e mesmo aqueles que nos opomos claramente a isso precisamos de o assumir, se queremos encontrar propostas alternativas capazes de manter vivo o direito dos nascituros à vida.

 

2. Recentemente, confrontei-me com uma dessas situações. O Papa Francisco, numa das suas publicações no Twitter, escreveu: “Nenhum fim justifica a destruição de embriões humanos”. Nada de extraordinário, trata-se da doutrina constante da Igreja sobre o tema. Extraordinário foi o comentário, também no Twitter, de uma das mais emblemáticas paladinas do aborto livre a pedido e de todas as outras causas fraturantes. Escreveu: “crianças a morrer por todo o lado e este preocupado com a porcaria dos embriões”.

 

3. Como se pode acreditar na preocupação pelas “crianças a morrer por todo o lado”, quando os embriões humanos são “porcaria”? E como se pode olhar para os embriões humanos – humanos, não de galinhas ou de macacos – como porcaria? Pode-se, sim, para lhes retirar a humanidade, a sua única defesa face ao abortismo militante. Desumanizadas, as crianças ainda por nascer são facilmente incluídas na cultura do descartável de que fala tantas vezes o Papa.

 

4. Escrevi acima que o aborto livre a pedido é o “buraco negro” da civilização ocidental. Eis porquê. Tendo eliminado o respeito por algumas vidas – as mais frágeis e invisíveis – acabará sugando o respeito por toda a vida: começa-se no aborto, continua-se na eutanásia para os muito idosos e doentes incuráveis que a desejem e, a seu tempo, irá tudo quanto fica pelo meio. Bastará ser desagradável – uma porcaria – para o culturalmente correto do momento.

 

Elias Couto