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Blogue do Apostolado da Oração

Um Deus de beleza

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Diz um autor russo, Pavel Florenskij, que «a verdade manifestada é o amor. O amor realizado é a beleza». Esta frase diz-nos de um modo muito condensado que a beleza está profundamente ligada à natureza de Deus. Como nos diz São João, «Deus é amor» e o amor manifesta-se como beleza.

 

Ao longo da história da Igreja, foram muitos os teólogos e pensadores que refletiram sobre esta questão. Hoje vemos que «a beleza está na moda», como diz um teólogo contemporâneo, Pierangelo Sequeri. O problema, diz Sequeri, é que muitas vezes confundimos a beleza com a mera cosmética, com os «enfeites» que adornam aquilo que em si não é beleza. Tentamos disfarçar a fealdade de algumas coisas das nossas vidas com mentiras. Queremos esconder aquilo que na nossa vida é escuro e feio com uma capa de cosméticos. Não é isso a beleza.

O Cardeal Ratzinger, anos antes de ser eleito Papa Bento XVI, diz-nos que é importante renovar o modo como somos anunciadores do Evangelho. «A beleza, diz o Cardeal Ratzinger, é conhecimento (...), uma forma superior de conhecimento porque toca o homem com toda a grandeza da verdade. (...) O verdadeiro conhecimento é ser atingido pelo dardo da beleza que fere o homem (...). Ser tocados e conquistados através da beleza de Cristo é um conhecimento mais real e mais profundo do que a dedução racional». Ao longo deste discurso, o Cardeal Ratzinger vai sublinhando a pertinência de recuperarmos a importância da beleza como manifestação do Amor de Deus. De facto, chega mesmo a dizer que esta é «uma urgência do nosso tempo».

Este não é um mero problema de bem-estar, ou um simples problema teológico, mas é, na verdade, um problema vital. Somos convidados a fazer da nossa vida um lugar de beleza, um lugar de espanto pelas maravilhas que o Senhor, o «Pastor Belo», nos dá de graça a cada passo da nossa vida.

«Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova», diz Santo Agostinho, que faz uma profunda reflexão sobre a beleza e conclui que a razão de ser da alegria perfeita, do amor, do saborear profundo da vida, da união entre todos nós, numa palavra, de toda a beleza, é só Deus. Tudo o que existe vem de Deus Trino e é atraído por Ele. «Na Trindade encontra-se a fonte suprema de todas as coisas, a beleza perfeita, a alegria completa». É esta beleza que nos atrai e nos inspira a fazermos o movimento de saída de nós em direção ao Pai.

A beleza verdadeira é aquela que nos atrai e faz passar das criaturas ao Criador, dos dons de Deus ao Deus de todos os dons, faz-nos ir «para além» do aqui e agora e atrai-nos para a nossa realidade mais profunda e completa, que é o abraço definitivo do Pai, a contemplação de Deus, o encontro amoroso que faz de nós filhos muito amados. A verdadeira beleza é aquela de um coração pacificado e encontrado. Esta brota da graça de Deus, morto e ressuscitado por cada um de nós.

 

Marco Cunha, s.j.

 

PEREGRINO COM MARIA

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Peregrino veio, peregrino partiu. Falo evidentemente do Papa Francisco, que acaba de nos deixar, transportado por um avião da TAP, batizado (dizem-me) com o nome do grande e célebre pintor português (1475-1542) “Grão Vasco” do tempo dos Descobrimentos. Estamos na história a fazer-se nas “Terras de Santa Maria”.

 

Veio a Fátima para celebrar o Centenário das Aparições de Nossa Senhora aos Três Pastorinhos, mas insistiu que o fazia como peregrino com peregrinos numa Igreja que deseja ver como peregrina a sair “para fora”. Fez-se Peregrino de Nossa Senhora de Fátima, precisamente onde a história de Deus se cruza mais uma vez com a história de Portugal. Grão Vasco leva um pouco dessa história ao levá-lo de regresso a Roma para, a partir do centro da cristandade, continuar a sua peregrinação por outros mundos, outras terras e, já agora, por outros mares “ainda por navegar” e que vão para além de nós, do nosso mundo, dos nossos mares, da nossa história e até das nossas histórias.

 

É para esse “para além de nós” que o Papa Francisco nos convidou a ir. Chamou-lhe “as periferias” onde habitam outras terras com histórias de clamores silenciados mas que bradam aos céus. Naquele pobre, sentado e de mão estendida há um grito (“Ajuda-me”); naquele sem-abrigo deitado entre cartões há um pedido (“Acolhe-me”); naquele toxicodependente há uma voz carente (“Ama-me”), e por aí adiante.

 

Estamos no mundo dos pobres e abandonados, dos presos e desempregados, dos doentes e das pessoas com deficiências; estamos no mundo das carências de toda a ordem, sejam elas económicas ou sociais, morais ou espirituais; estamos no mundo do vazio (“Era do Vazio” alguém lhe chamou), onde aparentemente se tem tudo e não se tem nada, nem sequer a voz popular do “Quem tem uma mãe, tem tudo; quem não tem mãe, não tem nada”. Por isso, gostei de ouvir a voz comovida e convicta do Papa diante daquele mar de gente no recinto do Santuário: “Temos Mãe, Temos Mãe”. 

 

Não era preciso dizer mais nada, nem era preciso falar de Esperança e Paz. Bastava deixar-lhe o rosto a falar de ternura com os gestos a “tocarem” nas pessoas enquanto o carinho e a misericórdia lhes tocavam as vidas quais toques de Deus a acontecer em pinturas de luzes e sombras tão bem espelhadas no sol e nas nuvens do momento. Bastava o silêncio da oração prolongada para recolher tudo isso. E deixar-se ficar assim no colo da Mãe sem falar, apenas escutando e sem pensar, apenas sentindo. É nesse silêncio que por vezes acontece o milagre da Plenitude da Graça a encher os nossos vazios interiores com o Sol bailando em cântico de alegria. Mesmo sem o sabermos explicar.

 

E partiu em jeito de despedida. Da partida de Fátima retenho o momento do Adeus do Papa com o lenço branco a abanar enquanto o olhar seguia a andor que levava Maria ao seu “recolhimento” na capelinha onde a devoção popular a “acolheu”. Da base aérea de Monte Real guardo a sua imagem, já na porta do avião, com a pasta preta na mão esquerda caída ao longo do corpo, enquanto a mão direita fazia o gesto comum e simples de despedida, que envia embrulhado no sorriso do olhar para o Presidente da República e o Bispo de Leiria-Fátima, nossos representantes. Espero que nos entreguem o gesto e o sorriso. E partiu como veio. Dizem que partiu contente. E nós contentes ficámos. Contentes e agradecidos.

 

Texto: A. da Costa Silva, s.j.

Imagem: Ricardo Perna/Família Cristã

FÁTIMA, ALTAR DO MUNDO

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Desde o Papa, a centenas de cardeais e bispos, a milhares de sacerdotes, a milhares de consagrados, a milhões de católicos, todos têm o olhar em Fátima, têm o coração em Fátima neste ano centenário, sobretudo neste dia 13, com a presença do Papa e a canonização dos Pastorinhos, com muitos milhares de peregrinos que se vão reunir na Cova da Iria, com milhões que vão estar unidos em oração em todo o mundo, dia 13 (e não só) através das rádios, de muitos canais da TV, de práticas de oração, de homilias, etc., etc. 

O mundo à nossa volta é desta vez o mundo à volta de Fátima, “altar do mundo”, à volta de Nossa Senhora e do seu Coração Imaculado, à volta dos Pastorinhos, os novos santos, à volta do Papa Francisco e com ele. Um mundo que se coloca no Coração da Mãe, um mundo que está presente em Fátima e ligado ao Papa e à Cova da Iria. Mesmo pagãos, membros de outras religiões, ateus, protestantes, etc. estarão unidos e se vão alegrar de ver, participar, estar com o olhar e o pensamento em Fátima, “altar do mundo”. A Mãe vai atraindo todos. No seu Coração caberão todos. O seu amor materno se estende a todos. Os Pastorinhos vão interceder por todos.

É bom não esquecer as muitas centenas, talvez muitos milhares que já peregrinam a pé para Fátima e que irão peregrinando nos próximos dias e durante o ano centenário. Peregrinações belas, dolorosas às vezes, mas com muita fé, muita oração, muita confiança no Coração da Mãe. Muitos corações e almas em sofrimento com problemas graves pessoais, familiares, problemas de saúde, de emprego, de dívidas, de violência doméstica. Problemas que levam muitos a caminhar a pé para o Santuário, altar do mundo, acompanhados por Maria, a Mãe de Jesus, a Senhora de Coração aberto.

O Coração da Mãe é refúgio, é bálsamo, é abrigo seguro. O Coração da Mãe vai encaminhando todos e tudo, pessoas e países, para Deus, para a paz, para a reconciliação. Ela é a Saúde dos enfermos, o Auxílio dos cristãos, Refúgio de pecadores, Ela é fortaleza para a luta contra o pecado e contra o mal, Ela é amor vivo a interceder por todos, Ela é a Mãe vencedora de todas as batalhas. Todos, mas de um modo particular os pecadores, os doentes, os marginais, os pobres, os desavindos, têm um lugar privilegiado no seu Coração. Os que passam fome, os que vivem em guerra, os que não têm casa nem amor de família, encontram na Mãe e no seu Coração Imaculado a graça, o amparo, o caminho do Céu.

O Francisco e a Jacinta, Santos a partir do dia 13 de maio, serão grandes e insignes protetores, intercessores do mundo, da Igreja, do Papa, dos peregrinos. Elevados à dignidade de Santos, ficam mais perto do Coração da Mãe, de Jesus, da Trindade e mais perto de nós e com mais poder para interceder.

O mundo à nossa volta vai sendo cada vez mais um mundo à volta de Maria, a Mãe Imaculada, um mundo à volta dos Santos Pastorinhos. Estamos todos bem acompanhados, bem vigiados, bem ajudados. Temos mais dois mestres que nos ajudarão a rezar, a fazer penitência, a amar Jesus e a adorá-Lo na Eucaristia, a amar os pobres e necessitados, a rezar e amar o Papa, a estarmos no Coração da Mãe.

Os Santos Francisco e Jacinta nos ajudarão a rezar mais pelos pecadores, a colaborar na redenção, a ser instrumentos vivos na paróquia, na Igreja, a ser mais colaboradores do Papa rezando por Ele e pelas suas intenções como fazem milhões de membros do Apostolado da Oração. Com os Santos Francisco e Jacinta, poderemos interceder mais para que todos se salvem, para que haja paz no mundo, para que não haja fome, violência, pecado, ódio. Com o auxílio dos dois novos Santos, vamos caminhando na fé, na esperança, na caridade, irão aumentando os que acreditam, os que se confessam, os que comungam bem, os que desejam o casamento religioso.

O mundo à nossa volta vai-se transformando aos poucos e ficará mais perto de Deus. Será um mundo mais fraterno, mais justo, mais aberto à beleza do amor, mais sensível à vida, aos pobres, aos deslocados e emigrantes, aos sem-casa e sem-amor. Parece que cada vez há mais pessoas interessadas a ajudar os outros, a dispor de si, do seu tempo, dos seus bens, para amar e servir. Nossa Senhora irá ajudando a converter mais corações empenhados no bem, em ajudar, em servir. Há mais gente a rezar cada dia e a dispor-se para servir melhor os outros.

Estamos em caminhos de esperança. E os muitos milhões que passaram em Fátima este ano centenário ficarão, de certeza, mais tocados pela graça e com um desejo renovado de vida mais digna, mais santa, mais de Deus e para Deus. Todos no altar do mundo se deixarão tocar pela graça e olharão os Pastorinhos como modelos. E a Mãe olhará e ajudará a todos a sermos menos piedosos e mais cristãos, mais homens e mulheres de Evangelho.

Dário Pedroso, sj

 

Um Sentido

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A dado momento, durante uma homilia pascal, Agostinho de Hipona interroga-se sobre o motivo pelo qual a Ressurreição de Jesus foi primeiramente anunciada pelas mulheres. A resposta que encontra é, no mínimo, original.

 

No relato bíblico sobre a queda, em Génesis 2, 25 – 3, 24, há uma mensagem que provoca a rutura do casal primordial com a sua vocação: trata-se da insinuação que a figura da serpente apresenta à mulher, Eva: «Não, não morrereis; porque Deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como Deus». Segundo o texto, a mulher acreditou nesta insinuação, assim como o homem. A mentira, a desconfiança e o desejo violento de posse traçam, desde as origens, a história da humanidade.

 

Assim, para Agostinho, tal como o anúncio de morte foi transmitido de uma mulher para um homem, assim também o anúncio da vida deveria ser transmitido das mulheres para os discípulos varões. A dinâmica pascal da vida, da esperança e da confiança emergem do mesmo Jardim onde se havia dado a queda. Trata-se de um novo nascimento.

 

E aqui entra o mais curioso: Agostinho nota como, ao contrário da insinuação primordial, os discípulos têm dificuldade em acreditar. Adão não apresentara obstáculos à mensagem dada por Eva; mas os discípulos consideram as palavras das mulheres como um desvario (Lucas 24, 11).

 

Talvez seja esta a condição que nos acompanha: mais facilmente cremos (damos crédito) numa mensagem de defesa, de desconfiança e de rutura, do que numa mensagem de confiança, abertura e sentido. Há uma necessidade de seguir os sinais – as ligaduras, a pedra removida –, sem deles, no entanto, possuirmos uma certeza plena de seguranças. Que este Tempo Pascal nos ensine algo desta linguagem.

 

Texto: Rui Vasconcelos

Foto:  “The Three Marys”, Henry Ossawa Tanner, 1910

 

 

Fundamentalismos de (Não) Trazer por Casa

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Vivemos num tempo em que vicejam fundamentalismos de diversos tipos. Fundamentalismos étnicos, políticos, ideológicos, religiosos. Guerras e terrorismos, perseguições e martírios são promovidos por ódios que não aceitam a diferença de identidade, de pensar e de agir.

É uma virtude ter convicções próprias, mas sempre enraizadas no amor e sempre dando aos outros a possibilidade de viverem em liberdade. Acreditar em princípios morais, ideológicos ou religiosos não pode ser uma arma de arremesso contra os que não pensam e agem da mesma maneira. A segurança de afirmar um código ético ou religioso não pode ser ocasião de acusar e perseguir quem tem outro modo de ver o mundo e de julgar as realidades que nos cercam. Ser diferente não é ser inimigo. Deverá ser até o enriquecimento de todos pela complementaridade mútua.

No palco das relações internacionais assistimos à tentação, com ameaças e até com ações práticas, de responder a fundamentalismos políticos, algumas vezes com substrato religioso, com fundamentalismos bélicos. Prefere-se optar pelas razões da força, em vez de seguir a força da razão. Combater um maléfico fundamentalismo com um fundamentalismo que se julga bom só poderá ter por fruto uma sociedade, um mundo que vai de mal a pior.

Mas onde desejo chegar não é à política internacional. É antes à política doméstica, às relações comuns na vida de família, de convivência social e de trabalho. É sobre os fundamentalismos de trazer por casa, da vida quotidiana, sem o aparato bélico de abomináveis criminosos e de bombas assassinas. Nas atitudes da vida simples do dia a dia, estão as raízes dos problemas ou das soluções dos conflitos de grande dimensão. Comparemos as 24 horas de um dia de Francisco de Assis ou da Madre Teresa de Calcutá com as de uma jornada de Hitler ou Estaline. No primeiro caso temos a amabilidade cordial, o serviço simples, a pureza de afetos, a fraternidade universal. No segundo caso, deparamos com egoísmos gigantescos, vontade de domínio sem fronteiras, endeusamento do próprio poder que tudo esmaga.

Para combater fundamentalismos domésticos, da vida quotidiana, proponho o exercício de duas virtudes: a tolerância e o perdão.

A tolerância é uma atitude de respeito pela identidade pessoal de cada um, em todos os campos, desde o social ao político, desde o desportivo ao religioso. Ser tolerante é saber aceitar a diferença dos outros, até porque eles têm de fazer a mesma ginástica de compreensão connosco. Saber discordar num clima de paz e respeito é das artes mais belas, sem criar classes que se excluem: os vencedores contra os vencidos, os que têm razão contra os adeptos do erro. Ser tolerante é renunciar a ser o dono da verdade absoluta colocando os outros no banco dos réus do erro e da mentira, pretendendo substituir a Deus, que só Ele é a verdade plena e tem sempre razão por inteiro, porque é amor total. Importa fazer sempre campanha pela «intolerância zero», em favor da compreensão universal, da fraternidade sem fronteiras.

Para ultrapassar os fundamentalismos da vida comum quotidiana, é fundamental exercitar a arte do perdão. Perdoar é o verbo mais difícil de conjugar na gramática das relações humanas. Mas também é o verbo mais heroicamente belo. A obra-prima do amor é o perdão. Como diz um autor moderno, «o perdão é o dom perfeito: nele brilha a liberdade do amor» (François Varillon). Vingar-se do mal recebido pode parecer uma resposta à altura, corajosa e destemida. Mas não é verdade. Vingar-se é permitir deixar-se derrotar pela máquina do ódio, que não tem travões nem volante. Assim S. Paulo nos exorta: «Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem» (Rom 12, 21). É a maravilhosa vingança cristã: oferecer misericórdia. Como Deus sempre faz connosco. Como devemos sempre fazer com todos.

 

Manuel Morujão, s.j.

 

O Dom da Gratidão

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Ainda bem pequenina, ouvia a minha avó dizer que há pessoas que estão sempre de mal com a vida. São infelizes e fazem os outros infelizes. Nada, nunca está bem para elas. Nos seus melhores dias, está tudo mais ou menos.

Lembro-me muitas vezes das palavras da minha avó, sobretudo quando conheço ou convivo com pessoas assim. São de uma negatividade e pessimismo quase contagiantes. O sol brilha, faz calor. A chuva cai, traz frio. Estas pessoas são simplesmente mal-agradecidas. Exigem da vida, de Deus e dos outros. Não sabem dar sem pedir em troca.


Aceitar e agradecer é um dom tão grande quanto maiores as dificuldades com que nos deparamos. Não é fácil ter um coração agradecido quando perdemos alguém que amamos, quando somos confrontados com uma doença grave, quando o sustento da nossa família está em causa, quando somos obrigados a um novo rumo que não prevíamos. É muito difícil compreender e ainda mais agradecer os momentos de dor e sofrimento. Mas é possível, quando se confia em Deus.

Quem tem um coração agradecido consegue enxergar o bem, a alegria e a felicidade até nas mais pequenas coisas. No sol que brilha e na chuva que cai. Num gesto solidário ou num sorriso de bom dia. Quem sabe agradecer as pequenas coisas do dia a dia, por norma, lida melhor e com mais ânimo com os grandes problemas.

As pessoas serenas e agradecidas são mais felizes. A felicidade advém de um coração cheio de amor, de fé e de esperança. Mas também da simplicidade e da generosidade. Só assim é possível encontrar o equilíbrio e a harmonia indispensáveis para viver bem, em sintonia com Deus e com os outros.

Como dizia a minha avó, as pessoas de mal com a vida deviam aprender a ter mais fé, a confiar mais em Deus e nos outros e perceber que não adianta viver à espera de recompensas para aquilo que querem, que a recompensa só chega quando se age de forma gratuita e desinteressada. Que a alegria e a felicidade dependem de cada um de nós.

 

Elisabete Carvalho

 

Os Efeitos da Ressurreição

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Cada amanhecer vem sempre carregado de uma promessa, uma nova oportunidade, uma passagem da escuridão e do silêncio da noite à luz e aos rumores do novo dia. Cada noite tem as suas histórias condensadas com o cansaço dos dias, dos pensamentos e emoções vividas, coloridas em tons de amor e também de sofrimento. São as histórias de cada um de nós, que podemos contar e meditar no coração.

Damo-nos conta que há amanheceres discretos e rotineiros, outros há que trazem consigo força e medo, mas há outros, únicos, que transcendem os dias passados e transfiguram aqueles que hão de vir.

A Páscoa de Jesus, o amanhecer do primeiro dia da semana, é o acontecimento que mudou para sempre os despertares e a história dos discípulos, a começar por Maria Madalena, as Santas Mulheres, Pedro, a Mãe Maria, os Onze e tantos outros que foram arrancados de uma noite profunda e triste para o Dia que fez novas todas as coisas.

Dois mil anos nos separam deste amanhecer único e tendemos a deixá-lo, com alguma nostalgia, inscrito na história do Evangelho e das suas testemunhas oculares. Mas as palavras de Jesus dirigem o nosso coração para uma atitude diferente, que tantas vezes esquecemos: “Eu estarei convosco até ao fim dos tempos!”; e ainda: “Felizes os que acreditam sem terem visto!”.

Os efeitos da santíssima Ressurreição não são dados à contemplação dos nossos olhos, tal como vemos o Sol que cada manhã se levanta. São um convite à contemplação transfigurada da vida, do mundo, das nossas relações, do trabalho de cada dia, do sofrimento e da morte, através dos olhos da nossa alma, onde ficou escrita a grande notícia: “Cristo ressuscitou!”. Cada amanhecer traz esta notícia, que não é apenas um dado da nossa fé, mas sim o caminho que a vida de hoje (este hoje) nos dá o privilégio de percorrer.

Que esta atitude de ressurreição contínua, na presença, na paz, na alegria e amor do Senhor Ressuscitado nos acompanhe sempre.

São estes os votos do Secretariado Nacional do Apostolado da Oração a todos aqueles que vão seguindo a nossa missão e colaborando no nosso serviço! Que o Senhor nos dê a graça de ajudar a todos a crescer na intimidade com o amor do Coração de Cristo Ressuscitado, unidos ao Santo Padre e à sua Rede Mundial de Oração, pelas intenções que ele traz no coração, para bem da Igreja e do Mundo. 

Uma Santa Páscoa!

 

 

P. António Valério, sj 

 

 

Uma Desgraça Nunca Vem Só

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Há poucas semanas, mais exatamente no dia 24 (março, 2017), fomos abalados com o assassinato de cinco pessoas (uma na barriga da mãe). Todos ficámos horrorizados perante tão bárbaro assassinato. Alguns perguntaram-se sobre a sanidade mental do agressor. Todos querem medidas que previnam tais «matanças».


A leitura comum do acontecimento é o horror perante a barbárie, o chorar com as famílias das vítimas, a transformação de uma tragédia privada num espetáculo público.


Mas há uma abordagem cristã do crime: o acolhimento do pecador, o acolhimento do criminoso. Temos que o acolher no nosso coração. Temos que o olhar nos olhos e dizer-lhe: «vem, entra dentro de mim que eu aconchego-te». Não é fácil, mas nós não temos uma religião fácil. Vai contra o nosso instinto, mas não é o instinto que nos comanda. (Ou é?) O que nos comanda – o que nos tem que comandar – é o Evangelho.

No Evangelho, Jesus perdoa e acolhe (!) sempre que as pessoas não lhe são hostis. Jesus não perdoa o pecado da dureza de coração dos fariseus, dos escribas e dos sumos sacerdotes, Jesus não Se pronuncia face ao pecado do chamado mau ladrão. De resto, não só perdoa como vai à procura da ovelha perdida. Este homem está perdido. É nosso dever irmos à procura dele com o nosso coração, com o nosso pensamento, com a nossa oração. É um homem desgraçado.

Nós, cristãos, estamos com ele. Nós, cristãos, perdoamos. E, se perdoamos, é porque há alguma coisa a perdoar. Há um crime que não varremos para debaixo do tapete. Mas distinguimos com clareza o crime do criminoso. Perdoamos o criminoso e pedimos para ele o perdão de Deus. Amamo-lo.

Mais. Distinguindo com clareza o crime do criminoso, o cristão – o leitor e eu – não nos julgamos melhores que o criminoso. O cristão pode dizer: «eu não pratiquei aquele crime». Não pode dizer: «sou melhor que aquele homem». E quantos de nós não nos sentimos melhores no nosso sofá ao ouvir as notícias na televisão. Nesse caso, Cristo vira-nos as costas e vai atrás daquela ovelha perdida.

Sejamos companheiros de Jesus, sejamos filhos do mesmo pai: amemos aquela ovelha desgarrada.

Gonçalo Miller Guerra, s.j.

Uma Carta ao Fim do Dia

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Senhor, hoje estou aqui para falar um pouco Contigo. Por isso, resolvi escrever esta mensagem.

Tenho sentido alguma sede de momentos mais fortes de oração, de crescimento interior. Por isso, decidi pedir alguns conselhos. Como quando precisamos de algo que não conseguimos obter sozinhos procuramos ajuda, também pus os pés a caminho.

Sabes, acho que é bom não termos receio de procurar ajuda quando precisamos. Deixando de lado um pouco de orgulho próprio, é bom abrir o nosso coração, deixando-o acolher o que outros nos transmitem. Sim, porque também a nível espiritual ninguém cresce sozinho.

Foi bom poder parar; poder sentir que estava a ter uns momentos para mim, momentos esses que depois me ajudam a melhorar a relação com os outros, na família, no trabalho, na comunidade.

Agradeço a disponibilidade e espírito de serviço de quem me escutou e me alertou para a importância de temperar a vida e os gestos do dia a dia com muito amor.

Os conselhos que recebi têm sido muito úteis e até tenho transmitido alguns deles a outras pessoas. É impressionante como gestos e palavras tão simples, muitas vezes banalizados, podem ter um efeito surpreendente.

O caminho vai-se fazendo... umas vezes num terreno mais uniforme, em que tudo “rola” sem dificuldade, outras vezes de forma mais irregular. Mas é assim mesmo!

Nesta caminhada de crescimento, entra também a celebração do sacramento da reconciliação, celebrado sem pressas, abrindo o coração a Deus e não simplesmente “despejando” uma lista de pecados.

Porque há sempre coisas para limpar no coração. E saber que alguém nos ouve e que somos perdoados é importante também para crescermos.

Desculpa o desabafo, mas precisava de escrever esta mensagem para expressar o que vou sentindo. Obrigada pela atenção!

 

Cláudia Pereira

 

Ódios e Populismos

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Há dias, vi o vídeo de uma mulher numa manifestação. Desvairada, insultava os polícias com os piores palavrões. Pior do que isso, era o ódio evidente no modo como se dirigia aos agentes da autoridade. E, pelo meio, gritava: EU SOU PROFESSORA! Perguntei-me o que podia ensinar alguém assim...

 

1. A resposta acabou por me surgir, pensando no contexto da manifestação. Tratava-se de uma manifestação contra alguém democraticamente eleito, mas cuja eleição o “campo” contrário simplesmente se recusava a aceitar. O que naquela manifestação e noutras semelhantes se afirmava era o ódio como forma de fazer política – mas atirando sobre “os outros” a responsabilidade pelo ódio e o facto de odiar. Aquela PROFESSORA, afinal, podia ensinar muito aos seus alunos. Podia ensinar-lhes como, orwellianamente, se muda a linguagem e se faz do concidadão com ideias diferentes um não-ser ou um não-humano.

 

2. Acontece o mesmo com o insulto da moda, em política: “populista”. “Populistas” são aqueles que se predefiniu como pertencendo à “direita”, politicamente falando. Entre nós, por exemplo, a líder de um certo “bloco” pode dizer os mais bafientos disparates estalinistas ou maoistas, fazendo apelo aos instintos mais básicos das “massas”, que ninguém estranha nem lhe chama “populista”. E o governo da geringonça pode prometer “sol na eira e chuva no nabal” a todos e todos os dias do ano, que ninguém chama a isto “populismo”. Esse é um epíteto-insulto com que só a direita – sem direito de cidadania plena nos nossos regimes politicamente corretos – tem direito a ser mimoseada.

 

3. Na Europa, e não só, começa a tornar-se evidente o cansaço de muita gente com o internacionalismo marxista, disfarçado de progressismo, que domina grande parte das “elites intelectuais” e com o multiculturalismo serôdio das mesmas elites, no qual só não há lugar para as tradições culturais dos povos europeus. Chamar “populismo” a este cansaço pode funcionar durante algum tempo, mas a prazo só vai aumentar o cansaço. Insistir nisso e tratar com desprezo as pessoas que se sentem órfãs da sua cultura pode vir a revelar-se, parafraseando um famoso ditador, “a mãe de todas as desgraças”.

 

Elias Couto