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Blogue do Apostolado da Oração

Ódios e Populismos

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Há dias, vi o vídeo de uma mulher numa manifestação. Desvairada, insultava os polícias com os piores palavrões. Pior do que isso, era o ódio evidente no modo como se dirigia aos agentes da autoridade. E, pelo meio, gritava: EU SOU PROFESSORA! Perguntei-me o que podia ensinar alguém assim...

 

1. A resposta acabou por me surgir, pensando no contexto da manifestação. Tratava-se de uma manifestação contra alguém democraticamente eleito, mas cuja eleição o “campo” contrário simplesmente se recusava a aceitar. O que naquela manifestação e noutras semelhantes se afirmava era o ódio como forma de fazer política – mas atirando sobre “os outros” a responsabilidade pelo ódio e o facto de odiar. Aquela PROFESSORA, afinal, podia ensinar muito aos seus alunos. Podia ensinar-lhes como, orwellianamente, se muda a linguagem e se faz do concidadão com ideias diferentes um não-ser ou um não-humano.

 

2. Acontece o mesmo com o insulto da moda, em política: “populista”. “Populistas” são aqueles que se predefiniu como pertencendo à “direita”, politicamente falando. Entre nós, por exemplo, a líder de um certo “bloco” pode dizer os mais bafientos disparates estalinistas ou maoistas, fazendo apelo aos instintos mais básicos das “massas”, que ninguém estranha nem lhe chama “populista”. E o governo da geringonça pode prometer “sol na eira e chuva no nabal” a todos e todos os dias do ano, que ninguém chama a isto “populismo”. Esse é um epíteto-insulto com que só a direita – sem direito de cidadania plena nos nossos regimes politicamente corretos – tem direito a ser mimoseada.

 

3. Na Europa, e não só, começa a tornar-se evidente o cansaço de muita gente com o internacionalismo marxista, disfarçado de progressismo, que domina grande parte das “elites intelectuais” e com o multiculturalismo serôdio das mesmas elites, no qual só não há lugar para as tradições culturais dos povos europeus. Chamar “populismo” a este cansaço pode funcionar durante algum tempo, mas a prazo só vai aumentar o cansaço. Insistir nisso e tratar com desprezo as pessoas que se sentem órfãs da sua cultura pode vir a revelar-se, parafraseando um famoso ditador, “a mãe de todas as desgraças”.

 

Elias Couto

 

 

 

Ao Encontro da Páscoa pelo Caminho da Quaresma

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Estamos a caminho da Celebração da Páscoa do Senhor e, através dela, das nossas páscoas como vivência e experiência cristãs. A Quaresma como caminho e percurso chega sempre carregada de ressonâncias bíblicas assente em algumas ideias-chave: o “deserto” (lugar de solidão, afastamento e lonjura); a situação de “fome” e “jejum” (lugar de carência) levando a realidade humana para o mundo das miragens e tentações; o “monte” (Sinai/Horeb) como lugar privilegiado de encontro com o Sagrado onde Deus revela e Se revela ao homem e de onde nascem decisões transformadoras de vida e missões clarificadas.

 

Hoje chamar-lhe-íamos lugar privilegiado de oração onde o homem encontra Deus e Deus encontra o homem nas suas fragilidades, inseguranças, fugas e medos. Foi a grande graça concedida a Moisés que, fugido para as montanhas de Madian e mais conduzido pelo rebanho do sogro do que por vontade própria, chegaria ao monte Horeb, onde faria a experiência da Sarça Ardente, recebendo como missão a condução dum povo que o livro do Êxodo contará longamente.

 

Julgo importante recordar três experiências bíblicas pelo que de esclarecedor têm como paradigma da nossa caminhada quaresmal, quer em Igreja, quer a nível pessoal. No deserto entrou o povo bíblico como um amontoado de doze tribos; nele caminhou quarenta anos até chegar à Terra Prometida como “povo” e “Povo de Deus”; encontrando Deus, encontrou-se a si mesmo na sua identidade e missão futura.

Para o deserto, com medo da ameaça de morte por parte da rainha Jezabel, fugiu Elias de si mesmo e da missão profética durante quarenta dias e quarenta noites; nele andou perdido até cair de cansaço e sono; aí o encontra Deus e alimenta para continuar a caminhada até ao Monte Horeb, onde recebe a força necessária para novamente regressar à missão e a si mesmo.

No deserto Se refugiará Cristo durante quarenta dias e quarenta noites para responder à forma concreta como devia realizar a missão recebida do Pai, vencendo na sua pessoa a tríplice tentação de todo e qualquer homem: a tentação do material (“Não só de pão vive o homem”), da vanglória (“Não tentarás o Senhor teu Deus”) e do poder (“Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto”). Será apenas e tão só Servo e Filho do Homem (um de nós, connosco e no meio de nós), abrindo, desta maneira, no seu caminho o nosso caminho pascal pela linha do serviço.  

É para este “deserto” que a Igreja nos convoca; é para este “monte” onde Deus nos espera que somos convidados a partir com os nossos medos, fraquezas e limitações. Só que fica no ar uma pergunta: onde está esse deserto e esse monte?

Cristo nunca perdeu a noção do deserto e do monte na sua vida pública. As Bem-aventuranças foram proclamadas no monte, a escolha dos Doze Apóstolos foi antecedida duma longa oração no monte, no seu dia a dia retirava-Se com frequência para “um lugar deserto”, no Horto separa-Se dos seus discípulos (“Sentai-vos aqui enquanto Eu vou além orar”) e aos seus discípulos recomenda o estar só com Deus (“Tu, porém, quando orares, entra no quarto mais secreto, fecha a porta e reza em segredo ao teu Pai e Ele que vê o oculto, há de recompensar-te”).

É para dentro deste ambiente que hoje sou convidado a entrar; é para dentro da realidade profunda do nosso mundo pessoal, onde apenas entram Deus e eu, que o mesmo Deus nos chama. Talvez esteja aí o nosso deserto, cheio de solidão, vazio de tentações; talvez esteja aí o mundo das renúncias por fazer para que, através do jejum e abstinência, aprendamos a abdicar (abster-se) do “mais” em favor do “melhor” e a dizer “não” para sermos capazes de dizer “sim” à vontade de Deus e ao seu projeto, projeto este que nos leva necessariamente aos irmãos para, juntos, continuarmos a nossa caminhada quaresmal ao encontro da Páscoa e das nossas páscoas.

 

A. da Costa Silva, sj

QUARESMA: CAMINHADA NA SANTIDADE

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A Quaresma coloca-nos a caminho para conseguirmos chegar à Páscoa que é a passagem, que é a conversão ao amor de Jesus e dos outros. O esforço da Quaresma tem de ser o caminho do amor a Deus na oração, no louvor, na meditação da Palavra, na presença a Jesus do sacrário, na contemplação das suas dores, paixão e morte, e no amor do próximo recordando o mandamento novo da caridade fraterna e lembrando a palavra do Papa Francisco: o outro é um dom. Acolher o outro como dom, tratá-lo como dom, amá-lo como dom, servi-lo como dom de Deus, é o nosso caminho quaresmal.

 

A santidade é o amor, é a vida de Deus em nós, é a seiva divina que nos transforma e converte. A oração e a penitência só têm sentido se nos levam a amar, amar mais, amar melhor. Então tudo deve convergir para uma caminha que tem por meta o amor. Só amando seremos mais santos, ficaremos preparados para a Páscoa, seremos discípulos amados do Mestre, que foi à Cruz e deu a vida por nós. Amar sempre, nunca desistir de amar. Amar em casa, a família, amar na paróquia e ser elo de ligação e de unidade, de ausência de crítica e de rancor e divisão. Amar sobretudo o pobre, o doente, o que vive só, o que está mais abandonado, isolado, marginalizado. Amar e servir no emprego, na escola, na universidade. Ter o coração aberto aos outros que são dom de Deus para serem amados.

 

A alma do mundo está doente, o coração da humanidade está doente. E a grande doença é a falta de amor. Daí haver tanta guerra, tanto crime, tanto egoísmo, tanto ódio, tanto desprezo pelos milhões que vivem com fome, sem casa, sem emprego, sem alegria, sem carinho, sem amor. Mundo cruel, satânico, manobrado pelo pai da mentira, pelo príncipe das trevas. Mundo da opulência, do dinheiro que manobra e tece enganos, furtos, condenações horríveis, marginalizações criminosas, corrupção, falta de liberdade interior. Se houver mais amor evangélico, haverá menos abortos, menos adultérios, menos fome, menos desprezo pela pessoa humana que é para nós um dom de Deus. Se houver mais amor, haverá mais justiça, mais distribuição e partilha de bens, mais proximidade do pobre, do sem-abrigo, do doente, mais respeito pela liberdade humana e pela dignidade de cada pessoa. Um mundo com a alma e o coração doente, gravemente doente, onde reina a mentira, a injustiça, a exploração, o tráfico de pessoas humanas, onde se despreza a Deus, a sua lei, a sua Igreja, e onde se matam homens e mulheres criados à imagem de Deus.

 

Corações endurecidos pelo poder, pelo dinheiro, pelo ódio, com ânsia de morte, de destruição. Corações endurecidos que não se debruçam para ajudar, para servir, para partilhar o que são e têm. Corações endurecidos pela ânsia de prazer, de comodismo, minados pelo egoísmo feroz e cruel, que semeia dor, fome, e não estende a mão nem abre o coração ao mais pobre e marginalizado. Corações endurecidos que perderam o dom de amar, de olhar os outros com carinho, com desejo de servir, de ir ao encontro de quem sofre, semeando com audácia, pão e paz, amor e alegria, verdade e justiça.

 

 

Viver a Quaresma com sabor a Páscoa amando sem cessar, descobrindo modos concretos de amar mais e melhor. Imitar o Senhor Jesus “que passou fazendo o bem e curando a muitos” e que foi até ao extremo do amor na morte como dom pleno de Si mesmo. Imitá-Lo, viver à sua semelhança, fazer tudo para que a Quaresma seja caminhada de amor rumo à Páscoa. A oração diária deve conduzir-nos ao amor. A Eucaristia deve ser cada dia “escola de amor”. Só amando seremos mais santos, mais felizes, mais parecidos com Jesus, o Divino Mestre. Amar sempre, amar a todos, amar mais, não se cansar de amar. Semear com nosso exemplo e testemunho de vida o amor evangélico, a caridade sem limites, a partilha generosa, o desejo de só fazer e dizer o bem, o serviço dedicado aos outros, a atenção atenta aos necessitados, a partilha feita com delicadeza e generosidade. Um caminho quaresmal semeado de caridade, vivido em caridade, partilhando amor, gerando Cristo num mundo doente que só com Ele poderá ser curado.

 

Dário Pedroso, sj

 

 

 

O manto da misericórdia

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A nossa forma habitual de pensar tende a ver o caminho cristão como um caminho de aperfeiçoamento, um caminho de crescimento pessoal, ético e religioso. A vivência cristã corresponde, na nossa mentalidade, a um tentar chegar cada vez mais perto a um modelo de virtude (que tendemos a identificar com Cristo).

 

Aqui entra o paradoxo: a abertura à experiência da Graça provoca em nós um baixar das nossas defesas. Percebemos que, nas narrativas dos Evangelhos, os discípulos são chamados a passar progressivamente do lado dos fariseus e doutores da lei (seguros da sua justificação), para o lado dos que reconhecem as suas feridas e clamam a Jesus: «Senhor, tem piedade de nós» (cf. Lucas 18, 35-43).

 

Talvez este seja um sentido privilegiado do tempo de Quaresma que agora se inicia: através dos sinais (as cinzas, o jejum, a esmola), e através de um escutar mais aberto e atento das Escrituras, poderemos ser acolhidos na experiência da Misericórdia que nos faz nascer de novo, ainda que sejamos velhos (de idade, de mentalidade... cf. João 3, 2-3). Assim poderemos compreender as palavras libertadoras de Isaac de Nínive, monge cristão do século VII:

 

«Deixa-te perseguir, mas tu não persigas;
deixa-te crucificar, mas tu não crucifiques;
deixa-te ultrajar, mas tu não ultrajes;
deixa-te caluniar, mas tu não calunies.
Sê alegre com os que se alegram;
chora com os que choram.
Tal é o sinal da verdadeira pureza.
Sofre com os que sofrem;
compadece-te dos pecadores;
e alegra-te com os que se arrependem.
Sê amigo de todos...
Estende o teu manto sobre aqueles que vês cair em pecado e cobre-os;
e se não podes carregar sobre ti o seu erro,
e receber em sua vez a punição,
não os oprimas mais»1.

 

Que o manto da misericórdia nos abra os olhos e o coração, para contemplarmos a manhã de Páscoa. E que esta Quaresma seja um tempo feliz e fecundo.

 

 

Rui Vasconcelos

 

 

1Isaac de Nínive, Discursos Ascéticos, 58; citado em A Via da Misericórdia (org. Isidro Lamelas), Lisboa 2016, p. 44.

Imagem: Georges Rouault, Christ moque par soldats, 1932

A "alegria ao poder" ou o poder da alegria

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Estamos em maré de Carnaval. Ninguém levará a mal que fale da alegria. Embora a alegria seja para exercitar todos os dias de todos os anos. Embora nem todos os tipos de alegria, no Carnaval ou fora dele, sejam de recomendar. Há que cultivar a alergia à alegria cínica e trocista, à alegria irónica e mordaz. Que alegrias tão tristes e deprimentes, em contramão e marcha-atrás do sentido único do sorriso amigo e da festa fraternal!

 

A alegria foi inventada desde sempre por Deus família de ótimo bom humor (Pai, Filho e Espírito Santo), fonte inesgotável de júbilo e festa. A sisudez, austeramente tristonha, não pode vir de Deus. É uma emanação do inferno de Lúcifer e companhia. A história, sem começo nem fim, de Deus eterno é um hino à alegria jubilosa, aconteça o que acontecer. É uma história de salvação, apesar de todos os desvarios humanos, por vezes gravíssimos, de bradar aos céus. Felizmente que Deus tem superabundante bom humor, respondendo aos nossos desacatos e malvadezas com um sorriso misericordioso, maternalmente paternal.

 

Criados à imagem e semelhança de Deus, todos temos o ADN divino da alegria bem humorada. Mas cada um segundo o seu jeito e estilo. Há a alegria dos extrovertidos e a dos introvertidos; a alegria dos espontâneos e a dos reflexivos; a alegria daqueles a quem tudo correu ao seu gosto e a alegria purificada pelo sofrimento. Não podemos sonhar com uma alegria cor-de-rosa, soft e fácilzinha, ensaiada para as ocasiões em que o vento sopra de feição nos mastros do barco da nossa vida. A alegria deve ser estilo arco-íris, integrando as cores mais luminosas e as mais obscuras. Não é de noite que mais precisamos da luz? Não é no abismo da angústia que mais urge plantar os amores-perfeitos da alegria?

 

Poderá alguém objetar: Eu sou uma pessoa séria. Não me peçam para ser folgazão. Tenham paciência, mas nunca alinharei em ser folião num cortejo de Carnaval. Há gente que leva a vida a rir, mas eu quero levar a vida a sério… Importa sublinhar que a seriedade sã deve andar de mãos dadas com a alegria. O conhecido artista Almada Negreiros afirmou, por escrito e com a vida, que «a alegria é a coisa mais séria deste mundo». Alguns dizem que Cristo chorou várias vezes, mas nunca riu. É uma injusta acusação a quem foi «perfeito Deus e perfeito homem» e assim nos exortou no seu discurso de despedida: «Que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa» (João 15, 11). Viver na alegria é cumprir a vontade explícita de Cristo. A alegria é um mandamento humano e cristão, não numa opção de luxo para psicologias divertidas e hilariantes. Não é um adorno, mas uma trave-mestra de quem vive orientado por Deus Amor. «Deus é alegria» afirmou o Papa Paulo VI. Paul Claudel, poeta e dramaturgo de renome, esclarece que «o único dever neste mundo é a alegria». É o dever de ser feliz fazendo felizes os outros. São Paulo recorda aos cristãos esta obrigação: «Alegrai-vos sempre no Senhor. De novo vos digo, alegrai-vos!» (Fl 4, 4).

 

Não basta ser alegre. É preciso dar qualidade à alegria. Não à chalaça, à troça e à chocarrice. Há que dar graça às nossas graças para que sejam cordialmente engraçadas. Importa crescer na qualidade amorosa da alegria, até atingirmos o planalto da consolação e alcançarmos o cimo do júbilo e o cume da exultação.

 

Um nosso conterrâneo, de há 14 séculos atrás, S. Martinho de Dume, exortava-nos à ascética da antitristeza para chegarmos à mística do júbilo: «À tristeza, se puderes, não lhe dês entrada no coração; se não puderes, não a ostentes no rosto». Obrigado, irmão Martinho, por esta exortação de um idealismo tão realista.

 

O Papa Francisco tem sido um corajoso profeta da alegria. As suas duas exortações apostólicas são como o diapasão pelo qual afinar toda a nossa vida: «A alegria do Evangelho» e «A alegria do amor». Das múltiplas citações que poderia fazer na linha da alegria, cito apenas esta passagem de «A alegria do amor»: «As alegrias mais intensas da vida surgem quando se pode provocar a felicidade dos outros, numa antecipação do Céu. Vem a propósito recordar a cena feliz do filme A festa de Babette, quando a generosa cozinheira recebe um abraço agradecido e este elogio: “Como deliciarás os anjos!”. É doce e consoladora a alegria de fazer as delícias dos outros, vê-los usufruir delas. Este júbilo, feito de amor fraterno, não é o da vaidade de quem olha para si mesmo, mas o do amante que se compraz no bem do ser amado, que transborda para o outro e se torna fecundo nele» (n. 129).

 

Permitam-me propor-vos este programa de Carnaval: um desfile de horas e lugares para alegrar a todos os que encontrar. Um programa de «Tristeza zero. Alegrias mil». Vai ser também o meu programa.

 

A alegria ao poder? O poder da alegria! É imenso. Capaz de ressuscitar mortos de tristeza.

 

Manuel Morujão, sj

O filme “O Silêncio”

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Por esta altura, muitos dos que me leem já terão visto o filme “O Silêncio”, de maneira que já se poderão posicionar face a umas observações que se me ocorre fazer.


Perto do fim do filme, Rodrigues renega a sua fé publicamente, parece-nos que para salvar aqueles que estão com a cabeça enterrada nas covas a morrer lentamente. Mas a sua apostasia vai tomar uma dimensão que estilhaça os limites da privacidade daquele ato. Os japoneses não deixam que se pense que aquilo foi apenas um momento de fraqueza; obrigam-no a provar – tanto quanto exteriormente é possível provar, e é só isso que lhes interessa – que renegou a fé para sempre, obrigando-o a converter-se ao Confucionismo, fazendo-o apostatar com regularidade e fazendo-o adotar os costumes japoneses, impondo-lhe inclusivamente uma família. Mas há mais. Puseram-no a denunciar símbolos cristãos que, ao serem descobertos, levavam à prisão de quem os trazia da Europa.


No filme, o sacerdote ouve a voz de Cristo dizendo-lhe que apostatar está certo. O filme transmite-nos a ideia de que, embora Ferreira e este sacerdote tenham apostatado, continuam a ter fé: a Ferreira escapa-se-lhe a expressão “Nosso Senhor” quando está à procura de símbolos cristãos nos objetos trazidos pelos holandeses e Rodrigues confessa e vê-se, no final, que guardou sempre uma cruz. Parece que terão guardado a sua fé em privado. Pelo menos o segundo sacerdote. Mas isto em nada atenua o seu testemunho público.


Gostava de confrontar o leitor com a minha opinião. Eu entendo que não era lícito este sacerdote ter apostatado – e estou só a ocupar-me dele – porque a apostasia foi um ato público que – como o inquisidor intuiu, e bem – no Japão representava a Igreja inteira. (Claro que Rodrigues salvou aquelas vidas, mas vidas essas que se tinham entregado ao martírio de sua livre vontade, porque não tinham querido renegar a fé.) Para o inquisidor e para todos os cristãos ainda vivos, com a apostasia dos sacerdotes, foi a hierarquia da Igreja que apostatou. Hierarquia que alimentava o povo espiritualmente e que depois permaneceu no meio desse mesmo povo como confucionista, defraudando todos os que se mantiveram cristãos. Foi o símbolo vivo da religião que apostatou e vestiu uma pele japonesa. Símbolo para todos os cristãos que estavam vivos e símbolo para o governo japonês. Com a apostasia, esse símbolo esfumou-se.


(Nota: isto é a minha opinião teórica. Humildemente, não sei se teria forças para o martírio.)

 

Gonçalo Miller Guerra, sj

 

Aborto, dez anos depois do referendo

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1. No dia 10 de fevereiro, assinalaram-se dez anos do referendo que abriu as portas à legalização do aborto a pedido, em Portugal. Durante estes dez anos, foram praticados cerca de 176 mil abortos a pedido da mãe. Para um país como Portugal, com uma população de 10 milhões de habitantes e uma natalidade muito abaixo do mínimo necessário para a reposição das gerações, são números impressionantes.

 

2. Mais impressionante, porém, é o que os números facilmente escondem: o massacre diário praticado em Portugal contra seres humanos indefesos, massacre legal e, por muitos, considerado uma coisa boa – porque respeita a liberdade da mulher e, como tal, é assunto em que a sociedade não deve intervir, a não ser garantindo, à custa dos impostos de todos, a gratuidade deste «ato médico».

 

3. Em pouco menos de dez anos, eliminou-se, em Portugal, o equivalente à população de uma cidade de média dimensão. Se este massacre não acontecesse no silêncio dos hospitais e clínicas, se as vítimas pudessem chorar e gritar, fossem fotografadas e mostradas na televisão, ninguém toleraria, ninguém falaria de liberdade de escolha ou de direito a decidir. Chamar-se-ia a coisa pelo nome – assassínio de seres humanos indefesos. Exigir-se-ia a intervenção do Estado e a punição severa dos responsáveis, por crimes contra a humanidade.

 

4. Como se trata do aborto, porém, estamos culturalmente anestesiados – e as palavras anteriores parecem a muitos uma enormidade fanática. Por isso, pergunto: no aborto, ninguém morre? Ninguém é responsável? Não há seres humanos indefesos mortos por escolha de alguém? Não há um Estado que permite e financia estas mortes? Em tudo isto, para além dos 176 mil seres humanos deliberadamente mortos em dez anos, o pior são os estragos que esta violência difusa, silenciosa, fria e cínica causa no tecido social e nas vidas que por ela passam e lhe sobrevivem. Pode não ser já, pode não ser de modo evidente, mas todos pagaremos caro o facto de vivermos mergulhados na indiferença perante aqueles que são os mais descartáveis da nossa sociedade.

 

Elias Couto

 

Temperar a Vida

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Na Mensagem para a Quaresma deste ano, que acaba de ser divulgada, o Papa usa a parábola de Lázaro e do homem rico para nos fazer refletir sobre a importância do dar-se ao(s) outro(s). Segundo Francisco, este texto convida-nos a “abrir a porta do nosso coração ao outro, porque cada pessoa é um dom, seja ela o nosso vizinho ou o pobre desconhecido”.

 

Na nossa vida, na nossa maneira de pensar e no nosso modo de agir, ver o outro como um dom pode traduzir-se na simplicidade de um sorriso que transmitimos a uma pessoa que sentimos estar triste ou num olhar dirigido a um pobre que encontramos na rua (podemos nem lhe oferecer ajuda material, mas o nosso olhar de proximidade terá até mais sentido que a moeda que pudéssemos oferecer).

Os afazeres pessoais, profissionais, sociais e familiares em que nos vemos envolvidos diariamente acabam por vezes por nos envolver numa sequência mecânica de gestos e atitudes que, mesmo envolvendo a relação com outras pessoas, nos mantêm de certa forma algo distantes delas.

Para ver os outros como um dom, não precisamos de mudar de vida, não precisamos de deixar os nossos afazeres diários para nos dedicarmos exclusivamente aos outros, como que buscando um comportamento imaculado. Não é preciso deixarmos de nos preocupar connosco e com o que é essencial para termos uma vida digna. Aliás, nem é bom que tal aconteça.

É simplesmente necessário aproveitar de outro modo ritmos e ações de todos os dias, temperando-os de um modo diferente. Por exemplo, se sou estudante, posso ajudar um colega que vejo em dificuldades e que em momentos anteriores ignorei. Se sou trabalhador, posso pensar nos que vão beneficiar do meu trabalho (dos quais muitas vezes não me lembro), e pôr um empenho diferente naquilo que faço. Se sou pai/mãe, posso dar um sabor diferente às rotinas diárias, encarando-as como um momento de entrega aos filhos e não como um fardo que obrigatoriamente tenho de carregar.

Tendo por base a Mensagem do Papa, a Quaresma que se aproxima pode ser um momento oportuno para efetivamente começarmos a abrir a porta do nosso coração ao outro, vendo-o como um dom. Sintamos que não estamos sozinhos neste barco, que esta é uma missão de todos. E, utilizando as palavras de Francisco, “rezemos uns pelos outros para que, participando na vitória de Cristo, saibamos abrir as nossas portas ao frágil e ao pobre. Então poderemos viver e testemunhar em plenitude a alegria da Páscoa”.

 

Cláudia Pereira

 

A Santa Indiferença!

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Mas o quê? Agora até a indiferença é santa?

Esta palavra «indiferença», com o passar do tempo, adquiriu um significado muito diferente daquele que originariamente tinha. Na Igreja primitiva, era usada para indicar que uma pessoa não queria outra coisa que não fosse a vontade de Deus. Significava acreditar que a vontade de Deus é o melhor para nós e estar livre para a seguir.

Vejamos: Santo Inácio de Loiola, fundador do Jesuítas, propõe um percurso espiritual, que ele mesmo experimentou na sua vida e depois propôs a todos aqueles que o quiserem experimentar, nos chamados Exercícios Espirituais. Tendo por fundamento a sua própria vida, Inácio foi capaz de saber ler a sua experiência espiritual à luz da vida de Cristo e não o poderia ter feito sozinho. Inspirando-se em vários autores espirituais da grande tradição da Igreja, por exemplo, São João Cassiano, São João Clímaco e outros, pôde então «ler» a ação de Deus na sua vida e depois, refletindo, pôde propor-nos o itinerário espiritual que hoje encontramos nos Exercícios Espirituais.

Diz Orígenes que Adão, antes do pecado, no paraíso, olhava para o alto e tinha os olhos fixos em Deus. Com o pecado, passou a olhar para baixo, para as coisas do mundo. Assim, encontrar Deus na nossa vida significa readquirir um olhar fixo n’Ele. E como podemos nós ter este olhar fixo em Deus? Diz Jesus que são os puros de coração que veem Deus (Mt 5, 8). Isto significa que são os puros de coração aqueles que têm o olhar fixo n’Ele. Ora, e purificar o coração… o que significa? Como se alcança?

Para estes autores espirituais é claro que este é um caminho progressivo e que não depende exclusivamente de nós: é uma graça a pedir, mas que pressupõe algum esforço do nosso lado. São João Clímaco, na «Escada do Paraíso», apresenta inicialmente este percurso como sendo uma escada que somos convidados a subir e que liga a terra ao Céu. Mais tarde, dirá que na verdade a escada liga a cabeça ao coração de cada um de nós, guia-nos para a nossa própria interioridade. É este o grande caminho da nossa vida em direção ao nosso interior, onde encontraremos o Senhor. O último «degrau» deste percurso, para o qual é preciso apontar, chama-se «indiferença» e São João Clímaco diz, com muito entusiasmo, que esta é «o Céu sobre a terra, a ressurreição antes da ressurreição dos corpos».

Atenção! Isto não significa viver sem sensibilidade, mas antes segundo a razão que vem da fé em Deus. Em poucas palavras: aquilo que o «indiferente» (entendido neste contexto) vive é uma insensibilidade em relação a tudo o que não tem a ver com a vida em Cristo e, por outro lado, desenvolve uma forte sensibilidade pela voz de Deus no mundo. Isto não significa insensibilidade ao sofrimento dos outros ou aos males do mundo, mas exatamente o seu contrário: o cristão que vive a indiferença, isto é, não vive preocupado consigo mesmo, é particularmente sensível aos sofrimentos do mundo precisamente porque está mais disponível para escutar a voz do Deus à sua volta.

Gonçalves da Câmara, Jesuíta português a quem Santo Inácio ditou a sua Autobiografia, dizia no seu Memorial que para Santo Inácio bastariam uns momentos na capela para recuperar a paz interior perante qualquer acontecimento adverso, mesmo que fosse a extinção da Companhia de Jesus. A indiferença é exatamente isto: indica a confiança total em Deus e a certeza que Ele nunca nos abandona. Outro modo de dizer esta indiferença pode ser «alma em paz» ou «tranquilidade interior». Quando, nos Exercícios Espirituais, Santo Inácio nos diz que «é necessário fazer-nos indiferentes a todas as coisas criadas, em tudo o que é concedido à liberdade do nosso livre arbítrio, e não lhe está proibido; de tal maneira que, da nossa parte, não queiramos mais saúde que doença, riqueza que pobreza, honra que desonra, vida longa que vida curta, e consequentemente em tudo o mais» (EE 23) está a dar-nos uma excelente indicação do significado da indiferença.

Vale a pena sublinhar ainda que Inácio diga que «é necessário fazer-nos» indiferentes. Exige da nossa parte alguma colaboração e esforço: em primeiro lugar, é necessária a purificação do pecado, precisamos escolher não querer pecar. Em segundo lugar, é necessária a escolha explícita de uma vida segundo o modelo de Jesus Cristo, isto é, escolher uma vida vivida em Amor: só este nos pode preencher o coração para que não nos deixemos turbar por aquilo que não vem de Deus.

A indiferença inaciana corresponde àquilo que Orígenes chama de «regresso ao paraíso», isto é, corresponde a fixar o olhar em Deus e não querer outra coisa sobre esta terra que não seja viver segundo esse olhar de Amor.

Marco Cunha, sj 

 

Os porquês do Silêncio: notas sobre uma entrevista

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Texto baseado na entrevista « ‘Silence’: Interview with Martin Scorsese »,

feita por António Spadaro SJ, in La Civiltà Cattolica, 2016 (nº 3996).

Rui Fernandes, sj

 

Como chegou Martin Scorsese ao "Silêncio"? O realizador acabara de realizar "A Última Tentação de Cristo". O Arcebispo Paul Moore, da Igreja Episcopal em Nova Iorque, tendo visto e comentado o filme, ofereceu-lhe o livro de Shusaku Endo. Começava aí uma história de interrogações e provocações interiores sobre a vida e seus ‘lugares’: a violência, a fé, a integridade, o horror, a graça. Estávamos em 1988.

 

Não sei ao certo se terei pensado em fazer o filme imediatamente. A história era tão perturbadora e tocava-me tão profundamente que não sabia se alguma vez teria sequer capacidade de o fazer. Mas, com o passar do tempo, algo me dizia: ‘Tens que tentar’. (...) Olhando para trás, penso que este longo processo de gestação foi, para mim, uma forma de viver com a história e de viver a vida - a minha própria vida - em torno dela, em torno das ideias do livro. Essas ideias mexeram comigo e fizeram-me regressar novamente à questão da fé. Olhando para trás, tudo isto se me assemelha a uma peregrinação - foi assim que o senti.

 

Partindo da longa entrevista de Martin Scorsese agora publicada, é difícil separar a sua reflexão sobre a fé (ou a sua «obsessão pelo espiritual») da sua meditação sobre a vida. De imediato, porque a questão de Deus, da fé ou da santidade se lhe apresentou, antes de mais, como uma interrogação existencial. Acólito, vivendo num meio familiar católico com raízes italianas, o realizador cresceu embebido em relatos de um Deus castigador, apenas temperados pelo testemunho do seu pároco (padre Principe) - um homem capaz de misericórdia.

 

Tal como muitas outras crianças, vivi estarrecido e muitíssimo impressionado pelo aspecto severo de Deus, tal qual nos era apresentado - segundo o qual Deus nos castiga quando/se fazemos algo de errado, o Deus dos raios e trovões.

 

Por outro lado, a fé, antes de ser uma questão ritual, parecia-lhe ser sobretudo uma experiência de todos os dias.

 

De pequeno fui percebendo que ‘ser praticante’ não é algo que acontece num espaço sagrado, durante certos ritos, a determinadas horas do dia. ‘Ser praticante’ é algo que acontece lá fora, a toda a hora. ‘Ser praticante’, de facto, é tudo o que fazes, bom ou mau, e [o modo como] reflectes sobre isso. Eis o desafio.

 

Ora, o desafio parece ser tanto maior se considerarmos o quão ambígua a vida pode ser. A vida tem um lado brutal, violento, auto-destrutivo.

 

Será que podemos cultivar a bondade a ponto de, numa fase futura da evolução da humanidade, a violência desapareça? O certo é que, nesta fase, a violência existe. É algo que fazemos. É importante mostrá-lo, para que ninguém caia no erro de pensar que a violência que só toca aos outros - que os ‘violentos’ são os outros. «Eu era incapaz de fazer tal coisa». Bem, na verdade, eras.

A violência é uma parte do ser humano. O humor, nos meus filmes, provém das pessoas e da sua forma de pensar, ou da sua irreflexão. A violência e a ‘profanidade’ da vida. Ou o aspecto telúrico, se quisermos ser mais elegantes. A profanidade e a obscenidade existem, o que significa que fazem parte da natureza humana. Não que ela o seja por inerência - mas antes que é uma das formas possíveis de ser-se humano. Não é uma boa possibilidade, mas é uma possibilidade.

 

Falando do seu célebre "Touro Enraivecido" (Raging Bull, 1980), o realizador mostra como, tantas vezes, a violência (ou o castigo) contra os outros esconde uma outra forma de violência, não menos sangrenta, contra si próprio. Subtilmente, a questão da imagem de Deus (o Deus da punição) remete para a nossa capacidade de integrar a nossa própria imperfeição.

 

[No filme "Touro Enraivecido", o personagem] Jake castiga todos os que estão à sua volta quando, de facto, ele se está a castigar a si próprio. No final, quando ele se olha ao espelho, vê que deve ser misericordioso consigo próprio. Dizendo de outro modo, ele tem que se aceitar e viver consigo mesmo. Talvez então se lhe torne mais fácil viver com os outros, e acolher a sua bondade. (...) [É preciso] aceitar-se a si próprio, viver consigo mesmo. (...) Penso que essa é uma forma de definir o que seja a ‘salvação’. Isso estende-se às pessoas que amas: a tua família, os teus amigos, os teus entes queridos. Tentas ser o melhor que puderes, e o mais sensato e compassivo que te for possível.

 

Retratar a vida sem ignorar os seus contornos ásperos insere-se numa dinâmica fundamental de ‘reconhecimento’. Reconhecer-se sem ilusões mas sem punições. Essa seria, talvez, uma primeira dimensão da vida espiritual, segundo Scorsese. Essa dinâmica interior anda a par de outra, exterior. Como viver (e manter) a fé em condições de adversidade?

O cineasta abordou por diversas vezes a questão, ora procurando o testemunho de santos, ora reflectindo sobre o que significa ser-se padre. Ao longo da sua carreira, o realizador mostrou interesse em retratar vidas de santos, perguntando-se porque são santos os santos? Uma vez mais, a ideia da compaixão emerge como lugar fundamental.

 

[Pensei explorar uma questão]: o que é um santo? (...) Temos figuras como um Francisco, uma Catarina, uma Teresa. Nenhum deles era aquilo a que eu chamaria de um santo activista, e eles eram extremamente diferentes de alguém como o Padre Pio, por exemplo. A essência [da santidade] - compaixão, amor, viver a vida imitando a Cristo - e a questão sobre como viver uma vida assim no mundo moderno - foi algo que ocupou Rossellini no seu filme Europa ‘51.

 

A imitação de Cristo seria, então, o fundamento de uma experiência de fé. O tema da ‘imitação’ não está isento de dificuldades. Como pode alguém ser em função de um outro? Aqui, a figura do ‘padre’ é arquetípica. O ‘padre’, sendo ‘chamado’, deve procurar viver descentrado de si, numa atitude de disponibilidade aos outros.

 

Quando era mais novo pensei fazer um filme sobre ser padre. [Pensei, eu próprio, ser padre, até que acabei por descobrir, aos 15 anos, que] uma vocação é algo de muito especial, algo que não podes adquirir por ti mesmo e que não é algo que possas ter apenas porque gostavas de ser parecido com outro pessoa. (...) Ora, se alguém é de facto chamado, como pode lidar com o seu orgulho próprio? (...) Por isso, a questão é : como pode um padre libertar-se do seu ego? Do seu orgulho? Eu queria fazer esse filme. E fi-lo com "Silêncio", quase 60 anos depois. (...) Rodrigues bate-se precisamente com essa questão.

 

Quando chegamos ao "Silêncio", vemo-nos perante um filme que condensa uma reflexão sobre a fé. O que significa crer? De que modo imagem de Deus e reconhecimento de si interagem? Como crer quando a fé é posta à prova? O filme coloca-nos enfim diante do aspecto paradoxal da fé, onde renunciar e afirmar podem coincidir, tal como a misericórdia pode coincidir com o reconhecimento da miséria.

 

Não sabemos em que é que o padre Ferreira acreditava, de facto, do ponto de vista histórico. Mas, no romance de Endo, parece claro que ele perde a fé. Numa perspectiva diferente: talvez lhe parecesse insuportável lidar com a vergonha de renunciar à fé, ainda que fosse para salvar a vida de outros.

Rodrigues, por seu turno é alguém que renuncia à fé e que, por esse meio, a recupera. É esse o paradoxo. Simplificando: Rodrigues ouve Jesus dirigir-se-lhe, enquanto Ferreira não; aí está a diferença.