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Blogue do Apostolado da Oração

VIVER BEM AS FÉRIAS

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Há poucas semanas, o Papa Francisco começou o seu tempo de férias que, como tem sido seu hábito, não vai implicar uma saída do Vaticano, permanecendo na sua residência, a casa de Santa Marta. Ficam suspensas as suas atividades normais, como as audiências e missas públicas, mas o seu ritmo diário não sofre grandes alterações. Da parte de pessoas próximas ao Santo Padre, explica-se o que muda nestes tempos: “Muda, pelo contrário, e muito, o tempo que o Papa Francisco dedica à oração, ao estudo, à leitura, a ouvir música, bem como aos temas próprios do seu cargo”.

Aprendamos um pouco deste exemplo para vivermos as nossas férias. Longe dos nossos ritmos habituais, poderemos ter tempo para nos dedicarmos àquilo que, ao longo do ano, nos vamos queixando de não poder fazer devido às nossas ocupações: tempo para rezar, tempo para nos cultivarmos, tempo para a leitura e a arte.

Mas saliento um ponto: “os temas próprios do seu cargo”. A pergunta vai direta ao essencial: Quais são os temas próprios do meu cargo, de quem sou? Fora do trabalho somos pais, mães, filhos, avós, cristãos, amigos... Ocuparmo-nos em sermos mais o que nos define como pessoas na nossa relação com Deus e uns com os outros. Um tempo de qualidade espiritual e humana é tão ou mais importante que o tempo para dormir ou não fazer nada. É um tempo que nos recria e nos ajuda a sentirmo-nos inteiros no que somos mais profundamente.

Com estes desejos, o Secretariado Nacional do Apostolado da Oração deseja a todos os que nos acompanham através das nossas publicações, site, redes sociais, no Passo-a-Rezar ou no Click To Pray, umas ótimas férias!

 

P. António Valério, sj 

(Secretário Nacional do Apostolado da Oração)

 

 

Celebrar o homem do "Mais"

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Inácio de Loiola, fundador da Companhia de Jesus, é o homem do “mais”, da maior glória de Deus, do maior serviço das almas, do bem mais universal, um homem apaixonado por Cristo, com grande amor e espírito de obediência à Igreja, com desejos grandes de fazer tudo para ajudar os outros. Pai e fundador, deixou grandes e maravilhosos textos, milhares de cartas, o pequeno/grande livro dos Exercícios Espirituais. Apóstolo de Roma, primeiro Superior Geral da Companhia de Jesus, tinha um coração universal cheio de fogo evangelizador. Homem do discernimento espiritual, conselheiro sábio e prudente, fundador determinado pela vontade de Deus.


Hoje, em mais de uma centena de países, em muitos serviços e ministérios, inseridos em múltiplos trabalhos, os seus seguidores, os jesuítas, procuram imitar o seu fundador, mestre e pai. Desde professores universitários, a apóstolos dos sem-abrigo, desde dedicados a dar os Exercícios Espirituais a capelães de hospitais e cadeias, desde confessores e diretores espirituais a trabalhadores dedicados com os refugiados, desde professores e mestres em colégios até párocos em diversas dioceses, desde homens da arte, da ciência, da cultura, a missionários pobres e perseguidos na China e em tantos outros países, todos unidos pelo mesmo ideal, seguindo as Constituições escritas por Inácio, buscando na oração a força e a graça de evangelizar como companheiros de Jesus, cerca de dezassete mil jesuítas espalhados pelo mundo procuram, apesar de frágeis e pecadores, ser instrumentos do Reino, servidores do mundo, na Igreja e com a Igreja.


Dia 31 de julho, aniversário da morte de Inácio de Loiola, em 1556, vamos celebrar a sua festa litúrgica e recordar sua vida e sua obra, sua oblação e seu serviço, sua paixão por Cristo e seu ideal de peregrino, seu encanto pelas missões e seu serviço dos pobres. E, olhando o mundo à nossa volta, descobriremos, agradecidos, tantos seguidores de Inácio, tantos leigos que seguem seu exemplo de vida evangélica, tantos e tantos que fazem anualmente a experiência dos Exercícios Espirituais, tempo forte de oração que liberta e que ajuda a ordenar a vida, e depois vivem com encanto e alegria a espiritualidade inaciana. Centenas de leigos a viverem a sua participação em grupos de Comunidades de Vida Cristã (CVX), muitas dezenas a organizar campos de férias e a ocupar-se dos mais jovens e dos mais pobres, dezenas a colaborar nas revistas da Companhia de Jesus em Portugal, nas paróquias que os jesuítas levam por diante, nas obras apostólicas, como o Apostolado de Oração, na colaboração dedicada em Casas de Exercícios, em Colégios, na Faculdade de Filosofia em Braga, em quatro Centros Universitários, etc., etc. Inácio continua vivo, no mundo à nossa volta, na vida de muitos jesuítas e de centenas e centenas de leigos que colaboram com eles, em muitas e variadas obras.


Ainda durante a vida de Inácio se deu início em Portugal à fundação da primeira Província da Ordem religiosa por ele fundada e se começaram grandes empreendimentos como o Colégio das Artes, em Coimbra, hoje edifício pertencente à Universidade. Sob a orientação de Inácio de Loiola partiram de Portugal muitos missionários, como Francisco Xavier, quer para o Brasil quer para a África e o Oriente, tendo chegado à Índia, ao Japão, à China. Pelo mundo além, em muitos países, há marcas culturais e evangelizadoras dos jesuítas portugueses, missionários de muita audácia e de grande dedicação. Quem visita a Madeira ou os Açores pode visitar os edifícios dos Colégios e das Igrejas fundadas pelos jesuítas portugueses. E o mesmo se pode afirmar de muitas cidades do Brasil, de Angola, Moçambique, Macau, Timor, Goa, etc. A Província portuguesa que Inácio fundou foi uma Província de mártires, de jesuítas, padres, irmãos e estudantes que derramaram seu sangue por Cristo, como o grande São João de Brito nos matos do Maduré, na Índia, ou o grupo dos que se reuniram no Vale do Rosal, na Charneca da Caparica, que partiram rumo ao Brasil e foram martirizados junto das Canárias.


Em muitas partes do mundo, Inácio de Loiola e o seu carisma continuam vivos, graças ao esforço, ao sangue derramado, à dedicação de muitos jesuítas na Índia, na China, na Síria, nalguns países africanos, na América Latina, donde nos veio o Papa Francisco. Muitas odisseias de amor, de vida doada até ao fim, de dedicação e de serviço, com o desejo da maior glória de Deus e do bem mais universal.

 

Dário Pedroso, s.j.

A HISTÓRIA DE RUTE

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“A profundidade está escondida. Onde? Na superfície”. (Von Hofmannstahl)

O livro de Rute ocupa algumas páginas – poucas, apenas quatro capítulos que se leem calmamente numa hora – na parte do Antigo Testamento a que os hebreus chamam de “Escritos”: a par da “Lei” (os cinco livros do Pentateuco) e dos “Profetas”, os “Escritos” apresentam-nos a experiência de fé no quotidiano, por entre os passos e passagens, encontros e desencontros da nossa própria vida. Porque a Bíblia não narra apenas eventos extraordinários ou grandes acontecimentos salvíficos: também na história de uma migrante se revela a presença de Deus.

 

Elimelec é um chefe de família hebreu, pai de dois filhos, que, devido a uma situação de fome e carestia em Israel, se vê forçado a emigrar de Belém de Judá para um país vizinho chamado Moab. Aí se estabeleceu; e, a julgar pelo silêncio do texto, podemos depreender que Elimelec se estabeleceu sem dificuldades de maior, conseguindo superar a situação de carestia.

 

Mas, num espaço de dez anos, morrem na família quer o patriarca Elimelec, quer os seus dois filhos, que entretanto haviam casado com duas jovens de Moab chamadas Rute e Orfa. Noemi, viúva de Elimelec, decide então regressar à sua terra natal para encontrar junto da família afastada algum apoio: salvo raras exceções, a mulher dependia – em Israel como, regra geral, em toda a antiguidade – da proteção económica e social do marido e dos filhos; por isso, perder quer o marido, quer os filhos significava, por outras palavras, cair numa situação de máxima fragilidade e vulnerabilidade. O livro de Rute apresenta-nos a história de uma presença e ação de Deus manifestadas, não na força e no poder dos grandes sinais, mas no silêncio e vulnerabilidade de duas viúvas.

 

Duas viúvas porque Rute decide ficar com a sua sogra Noemi, ao passo que Orfa regressa à sua família de origem. Rute acompanha Noemi no regresso a Israel: o que Rute diz a Noemi reveste-se de uma rara qualidade:

«Rute respondeu: “Não insistas para que te deixe, pois onde tu fores, eu irei contigo e onde pernoitares, aí ficarei; o teu povo será o meu povo e o teu Deus será o meu Deus. Onde morreres, também eu quero morrer e ali serei sepultada. Que o Senhor me trate com rigor e ainda o acrescente, se até mesmo a morte me separar de ti”» (Rt 1, 16-22).

 

Nas palavras de Rute – uma estrangeira para Israel – encontramos a definição por excelência da aliança de Deus com Israel: uma aliança de pertença mútua e de fidelidade até à morte. Para o texto, a aliança de Deus revela-se na fidelidade de uma estrangeira a uma viúva de Israel: algo que, segundo as leis de Israel, Rute não tinha obrigação de fazer.

 

Noemi e Rute chegam a Belém, e Rute começa a respigar nos campos durante a ceifa da cevada. Trata-se de uma das tradições mais veneráveis em Israel: os agricultores, segundo a lei, só podiam ceifar uma vez os campos; o que daí sobrasse seria deixado nos campos para que os pobres e migrantes – despossuídos de propriedades e rendimentos – pudessem respigar e recolher a sua parte. A propriedade em Israel é privada, mas não é fechada: tem um espaço de respiro que lhe permite, em parte, libertar-se do egoísmo absoluto.

 

A história termina bem: Rute casa-se com um parente afastado de Elimelec chamado Booz, garantindo assim proteção para si e para Noemi. O diálogo de Booz com Rute é também de uma beleza única: «Já me contaram tudo o que fizeste pela tua sogra, depois da morte do teu marido: como deixaste o teu pai, a tua mãe e a terra onde nasceste e vieste para um povo que há bem pouco nem conhecias. O Senhor te pague por todo o bem que fizeste; que o Senhor, Deus de Israel, sob cujas asas te acolheste, te dê a recompensa merecida» (Rt 2, 11-12).

 

Conclui o texto referindo que Rute terá um filho de nome Obed, que será o avô de David, o grande rei de Israel. Rute, a estrangeira, entra assim na genealogia que dará origem ao Messias de Israel: sim, o Messias será um mestiço, não um sangue-puro. Mateus recolherá este dado, ao colocar o nome de Rute na genealogia de Jesus (Mt 1, 5).

 

Precisamos urgentemente de histórias que nos recordem aquilo que somos. Vivemos tempos difíceis, onde emerge – de modo lento mas inexorável – uma mentalidade segundo a qual o estrangeiro representa uma ameaça à nossa segurança, aos nossos empregos (uma bem maior ameaça ao emprego e à coesão social advém da fuga de capitais para paraísos fiscais, por exemplo), à nossa cultura e modo de vida. O livro de Rute aponta uma flecha no coração da história bíblica e da nossa própria história, falando-nos de migração. E recorda-nos como tudo começou, quando Deus pediu a Abraão para sair da sua terra, rumo a uma terra que não era a sua… (cf. Gn 12, 1-4).

 

(imagem: Rute e Noemi, vitral da Igreja de Saint James em Halifax, Canadá).

 

DESESTATIZAR A EDUCAÇÃO

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Perante o presente assédio ideológico do Ministério da Educação ao serviço público de educação prestado por escolas/colégios com contrato de associação, ocorre-me fazer algumas breves observações.

 

Assim afirma o artigo 43.º da Constituição da República Portuguesa: «É garantida a liberdade de aprender e ensinar». «O Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer diretrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas». Portanto, a lei fundamental do nosso País proíbe que o Estado se arvore em educador do povo, como acontece em países governados por ditaduras de esquerda ou de direita.

 

O direito, e consequente dever, de educar pertence aos pais, como recorda o artigo 26.º da Declaração Universal dos Direitos do Homem: «Aos pais pertence a prioridade do direito de escolher o género de educação a dar aos filhos». Na mesma linha, afirma o n.º 3 do artigo 14.º da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia: «São respeitados (...) o direito dos pais de assegurarem a educação e o ensino dos filhos de acordo com as suas convicções religiosas, filosóficas e pedagógicas». Ao direito dos pais escolherem o tipo de educação que querem para [os] seus filhos corresponde o dever do Estado de respeitar e viabilizar na prática tal direito.

 

Dir-se-á que em Portugal se cumpre à risca este direito dos pais escolherem o tipo de educação que desejam dar aos seus filhos. Alexandra Leitão, Secretária de Estado, que confessou ser a autora ideológica da norma que corta os contratos de associação, confessou também que escolheu, «por acaso» (há acasos absolutamente intencionais), pôr os seus filhos no Colégio Alemão, em Lisboa, escola particular fora da rede pública de educação, onde os pais devem pagar elevadas propinas. Um justo exercício de liberdade, mas que não é uma carta de recomendação da qualidade das escolas estatais.

 

Simplesmente importa notar que o exercício deste direito fica bem caro aos pais. É o livre exercício de um direito reservado aos ricos, ou dito mais diplomaticamente, aos que têm uma boa base financeira. Negar o mesmo direito aos de escassos recursos, ou dizendo o mesmo menos diplomaticamente, aos pobres, é uma injustiça que brada aos céus. A liberdade não é um direito que se compra, mas é um dever concedê-la a todos, sem qualquer distinção.

 

Quão longe estamos em Portugal de os pais poderem, na prática, exercitar o direito constitucional de escolherem o tipo de educação que desejam proporcionar aos filhos! O serviço público de ensino proporcionado por escolas/colégios particulares com contrato de associação é uma feliz pequena ilha (menos de 0,3%) de liberdade real, no mar de estatização do ensino ou da opção de ir para as alternativas caras do ensino particular, para quem tem capacidade financeira de o fazer. É esta pequena ilha de liberdade real que o Ministério da Educação decidiu cortar substancialmente, de modo desajeitado e prepotente, negando-se ao diálogo e rasgando os contratos assinados um ano antes com a duração de três anos. Em todo o lado custa deparar-nos com a falta de educação, mas muito mais quando se trata da casa onde deveria habitar como sua residência oficial.

 

Nos tempos da velha senhora, a tentação de estatizar o ensino era igual ou ainda maior. Mas tratou-se de uma quarentena de anos de ditadura do velho Estado novo, com pensamento absolutista e cartilha única. Vivemos felizmente em democracia, que não pode ficar encaixilhada no nome e congelada em palavras ocas, mas que tem de descer às realidades concretas, especialmente no campo da educação. Se é intolerável o estatismo de direita, controlador e despótico, não o é menos o estatismo de esquerda. O estado e o governo são para as pessoas e não as pessoas para o estado e o governo.

 

Importa democratizar a democracia. Urge libertar a liberdade também no campo da educação. Há que libertar o direito, ainda cativo, de os pais poderem, na prática, escolher a educação que querem proporcionar aos seus filhos.

 

Manuel Morujão, s.j.

 

 

 

 

A LOUCURA DO AMOR DE DEUS – E Deus fez-Se vulnerável

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Tendo Jesus chegado a casa, de novo a multidão acorreu, de tal maneira que nem podiam comer. E quando os seus familiares ouviram isto, saíram a ter mão n'Ele, pois diziam: «Está fora de Si!» (Mc 3, 20-21).

 

Nestes poucos versículos vemos como os familiares de Jesus chegaram a pensar que Ele estivesse fora de Si, que tivesse enlouquecido. Ele está completamente envolvido pela sua missão e esquece-Se até mesmo de comer! «Está louco», pensam.

É impelido pelo Amor e o Amor não pode ser travado, leva-nos sempre para a frente, derruba as fronteiras do bom senso e destrói os limites do razoável. As escolhas do Amor são sempre marcadas por um pouco de loucura. Não, o Amor não é cego! Quem ama simplesmente não se deixa ficar pelos limites autoimpostos dos riscos calculados.

Diante da omnipotência de Deus podemos ficar bloqueados. Pensamos n’Ele como um ser perfeito e distante, um ser total e imutável, que do alto da sua torre de cristal contempla e avalia a nossa progressão sobre esta terra. Como consequência, consideramos que a presença do mal no mundo é alguma coisa que Ele, mais ou menos tranquilamente, aceita e permite. Certo, quer que nos salvemos, mas no fundo reconhecemos que Ele é responsável pelo mal porque, mesmo que não seja culpa d’Ele, se quisesse mesmo poderia terminar com todo o sofrimento.

Diz São Paulo na carta ao Filipenses: «Ele, que é de condição divina, não considerou como uma usurpação ser igual a Deus; no entanto, esvaziou-Se a Si mesmo, tomando a condição de servo... rebaixou-Se a Si mesmo, tornando-Se obediente até à morte e morte de cruz». Na sua omnipotência, Deus esvazia-Se a Si mesmo e renuncia a todo o poder. Ainda mais: renuncia à vontade do poder que escraviza. Jesus insiste que está entre nós como alguém que serve; esta é a maravilha: a Verdade incarna e liberta-nos esvaziando-Se.

Pavel Evdokimov, um teólogo Russo, professor em Paris e observador convidado no Concílio Vaticano II, em linha com a antiga Tradição da Igreja, dizia que o esvaziamento do Senhor de Si mesmo é a manifestação do «Manikòs Éros», do «Amor louco» de Deus por nós. Deus é «louco» por amor! É de São Máximo, o Confessor (século VI) e Nicolau Cabásilas, um teólogo do século XIII, que refletiam sobre o Amor louco de Deus pelo Homem, que Evdokimov tira esta expressão da manifestação máxima da omnipotência de Deus: o seu Amor louco por cada um de nós que O leva a esvaziar-Se até à morte e morte de cruz.

Por Amor, Deus torna-Se infinitamente vulnerável: para nos libertar, para que fôssemos verdadeiramente livres, Ele não poderia impor-Se porque o Amor não se impõe pela força. Diante do sofrimento absurdo que a vida às vezes nos traz, diante de uma morte sem sentido ou de uma doença cruel de uma criança inocente é a fragilidade vulnerável e invencível de Deus, esta noção absolutamente paradoxal da omnipotência de Deus que devemos ter presente. O amor torna-nos vulneráveis e Deus, porque é Amor infinito, é infinitamente vulnerável: não pode fazer outra coisa que não seja sofrer connosco.

O deus impassível e severo de alguns teólogos revela-se em Jesus Cristo como um Pai misericordioso. Ele come com os pecadores e compadece-Se das nossas misérias: não é um deus imóvel, impassível, inacessível, perfeito na sua incapacidade de sofrer. Deus fez-Se vulnerável renunciando, livremente e por amor, à sua omnipotência formal. Ele compadece-Se de nós; incarnando manifesta que o Amor veio habitar entre nós e o Amor é sempre vulnerável, não o pode não ser se é amor.

É na manhã do Domingo de Páscoa que se manifesta, resplandecente, a vulnerabilidade frágil e definitivamente vencedora do invencível Amor de Deus.

 

Texto: Marco Cunha, s.j.

Foto: Lava-pés (pormenor), Capela Redmptoris Mater, Vaticano. (Marko Rupnik, sj)

 

 

 

 

RESSENTIMENTO E PERDÃO

Hoje vamos falar do ressentimento e do perdão no hino da caridade...

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Diz-nos S. Paulo que o amor não guarda ressentimento.

Primeiro, o que é o ressentimento?

 O ressentimento é a «mágoa sentida por uma ofensa». Não me parece que seja possível impedir o ressentimento. Todos nós ficamos ressentidos se nos ofendem, se nos magoam. Ora, esta mágoa depende muito do tipo de ofensa que nos fazem. A ofensa vai de uma brincadeira que nos magoa até um ato de uma crueldade inaudita. Reparemos que S. Paulo não nos diz que o amor não fica ressentido. Diz que não guarda ressentimento. Aqui, eu gostava de acrescentar uma coisa: a pessoa cristã, magoada, pode não guardar ressentimento para sempre, mas guarda ressentimento durante algum tempo. Senão não era uma pessoa normal. E se fomos muito magoados, o ressentimento dura muito tempo. E, ainda, se somos magoados constantemente, o ressentimento também é constante; não acaba enquanto a dor se mantiver.

Diz-nos S. Paulo que o amor não guarda ressentimento.

Primeiro, o que é o ressentimento? O ressentimento é a «mágoa sentida por uma ofensa». Não me parece que seja possível impedir o ressentimento. Todos nós ficamos ressentidos se nos ofendem, se nos magoam. Ora, esta mágoa depende muito do tipo de ofensa que nos fazem. A ofensa vai de uma brincadeira que nos magoa até um ato de uma crueldade inaudita. Reparemos que S. Paulo não nos diz que o amor não fica ressentido. Diz que não guarda ressentimento. Aqui, eu gostava de acrescentar uma coisa: a pessoa cristã, magoada, pode não guardar ressentimento para sempre, mas guarda ressentimento durante algum tempo. Senão não era uma pessoa normal. E se fomos muito magoados, o ressentimento dura muito tempo. E, ainda, se somos magoados constantemente, o ressentimento também é constante; não acaba enquanto a dor se mantiver.

O ressentimento é, pois, proporcional à dor da ferida e à nossa sensibilidade. O ressentimento há de passar, mas se fomos muito magoados, não passa durante muito tempo. E se formos constantemente magoados, nunca passa. Há, assim, duas causas que podem fazer o nosso ressentimento durar muito tempo:

– ou um ato que nos magoou muito,

– ou uma série de atos que não param.

Vou dar dois exemplos:

Uma vez tive que fazer o enterro de uma senhora que tinha sido assaltada, violada, assassinada e depois os criminosos ainda deitaram fogo à casa. A família dessa senhora vai guardar ressentimento durante muito tempo porque é uma ferida horrorosa. Provavelmente vai, mesmo, guardar ressentimento toda a vida, se bem que possa ir diminuindo.

Outro caso, que pode acontecer, é nós sermos magoados de forma continuada. Neste caso, há alguém que não para de nos magoar, que nos está sempre a magoar. Assim o ressentimento não acaba porque aquilo que nos magoa também não acaba.

Às vezes achamos que não estamos em posição de sacudir essa pessoa das nossas vidas. Na minha vida de padre já me deparei com pessoas que eram muito humilhadas no emprego, mas que não conseguiam arranjar outro. E também me deparei com pessoas achincalhadas pelos pais, não tendo forças para cortar com eles porque achavam que não se podiam desligar dos pais. Já para não falar dos casos de violência doméstica, em que a pessoa atacada não luta para se libertar daquela situação.

 

S. Paulo também nos diz: «a caridade tudo desculpa». Sim, o amor desculpa tudo mas às vezes demora muito tempo.

E o que é desculpar? Desculpar é deixarmos de querer mal à pessoa que nos fez mal. Desculpar é ainda rezar por essa pessoa. E é ser capaz de querer bem. Desculpar não é convidar a pessoa para minha casa, desculpar não é convidar para casa quem me fez mal ou fazer-me amigo dessa pessoa. Também não é esquecer.

Este ponto é muito importante porque há muitas pessoas que confundem as duas coisas. Podemos já ter perdoado e continuar a lembrar o mal que nos fizeram. Continuar, mesmo, a sentir dor, incómodo, revolta (etc.) de cada vez que pensamos na pessoa que nos magoou não quer dizer que não tenhamos perdoado. São sensações que têm mais a ver com a Psicologia do que com a Moral. São sensações de quem não esqueceu e não de quem não perdoou. Não tem a ver com o perdão, tem a ver com aquilo que nos marca. Positiva ou negativamente. Tanto não esquecemos o dia da Primeira Comunhão como aquela terrível ida ao dentista. Daí que se a ofensa foi muito grande, como nos marcou muito, nunca mais vá ser esquecida. Mas atenção que enquanto a ofensa não parar, não é possível perdoar. Se uma pessoa nos achincalha ou maltrata com regularidade, a ferida (psicológica) que nos provoca está permanentemente a ser aberta, logo é muito difícil, senão de todo impossível, perdoar.

 

Concluindo:

O ressentimento é a dor que sentimos.

Esta dor demora tanto mais tempo a passar quarto maior foi a ofensa.

Perdoar é não querer mal e ser capaz de rezar por. Nem implica ser amigo nem implica esquecer.

No próximo artigo vamos ver o seguinte:

Se perdoar não implica ficar amigo, como é que podemos amar os inimigos?

 

Texto: Gonçalo Miller Guerra, s.j.

Imagem: Ilda David'

 

LIÇÕES DE AMOR

 

Santo Agostinho dizia que "ninguém ama aquilo que não conhece”, o que se aplica na perfeição à atitude que temos para com as pessoas com deficiência. Como não se enquadram nos instituídos padrões de beleza e de sucesso, são facilmente ignoradas, repudiadas e até escondidas, muitas vezes pelas próprias famílias.

 

Há pessoas deficientes com histórias de vida terríveis, que vivem ou viveram em condições miseráveis, mas que, mesmo assim, são capazes das maiores lições de amor. Para não falar da gratidão com que tratam quem lhes quer bem.

 

Conto-vos a história do Paulo. Tem 39 anos e é deficiente mental. Ficou órfão de mãe aos 10 anos. Foi viver com uma família de acolhimento. A irmã, deficiente profunda, foi entregue a uma outra família de acolhimento. Moravam próximos. O Paulo via a irmã sempre que queria. Até que um dia a irmã foi institucionalizada bem longe da aldeia onde nasceram e cresceram. Já lá vão mais de 15 anos e ainda hoje o Paulo continua regularmente a bater à porta para saber da irmã, porque, diz ele, «ela é minha irmã e eu quero saber dela».

 

Mas também há lições de amor naquelas famílias que muitas vezes se nos apresentam como disfuncionais e negligentes. Lembro-me, por exemplo, de um outro Paulo que vivia sozinho com a mãe, trancado dias e dias num quarto de uma casa em ruínas, com um cão feroz à porta. A mãe recolhia cartão nas feiras para vender e assim conseguir um sustento. O Paulo reunia condições para ir à escola e viver integrado, mas apenas saía de vez em quando para as feiras. A situação considerada de risco estava identificada pelas entidades competentes e no dia em que o Tribunal ordenou a retirada do menor à mãe, a instituição acolhedora decidiu não o fazer e explicou as razões: havia uma relação muito forte entre a mãe e o Paulo. Era desumano separá-los. A única riqueza daquela mãe era o filho e para o proteger e «defender dos outros» mantinha-o trancado em casa. Uma estranha forma de amor, mas que não podia ser descartada. Aquela mãe só precisava de ajuda e de condições para viver com dignidade e sem medo.

 

Medo e falta de condições materiais e espirituais é o que leva muitas famílias a fazerem com que os seus deficientes se tornem invisíveis. Muitas escondem para proteger, maltratam porque não conhecem outras formas de lidar com a agressividade e outras manifestações da doença, têm vergonha de pedir ajuda, vivem desgastadas, não sabem a quem recorrer e, na verdade, há casos para os quais o Estado e a sociedade não têm resposta.

 

Estas famílias, algumas verdadeiramente heróicas, precisam essencialmente de compreensão, solidariedade e apoio. Assim como os seus deficientes, que, apesar das crises e limitações, são pessoas ternas, de sorriso fácil e de abraço imediato.

 

Na celebração do Jubileu dos Doentes e das Pessoas com Deficiência, o Papa afirmou que é necessário aceitar a limitação e o sofrimento para compreender «o verdadeiro sentido da vida».

 

Francisco sustentou que «o mundo não se torna melhor quando se compõe apenas de pessoas aparentemente ‘perfeitas’ (para não dizer ‘maquilhadas’), mas quando crescem a solidariedade, a mútua aceitação e o respeito entre os seres humanos».

Na ocasião, o Papa propôs «a terapia do sorriso» e disse que «a felicidade que cada um deseja pode exprimir-se de muitos modos, mas só é possível alcançá-la se se for capaz de amar».

 

Em vez de ignorar, lamentar, experimentemos conhecer a riqueza de sentimentos das pessoas com deficiência e descobriremos um mundo de afetos, onde a felicidade existe.

 

Elisabete Carvalho 

 

 

OUVIR O SILÊNCIO

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Ligamos a televisão em casa e uma avaria elétrica impede-nos de ver o nosso programa preferido. Que fazemos? Preocupamo-nos logo em saber quando estará tudo normalizado e entretanto sentimo-nos algo vazios porque aquele silêncio nos incomoda.

 

Saímos de casa e, passado algum tempo, descobrimos que nos esquecemos do telemóvel. Que fazemos? Provavelmente voltamos atrás para o ir buscar, nem que isso implique chegar mais tarde aos nossos compromissos.

É verdade que o ritmo apressado do dia a dia nos empurra quase instintivamente para hábitos e gestos que já se tornaram rotineiros. Já não sabemos viver sem eles e ficamos logo aflitos quando alguma coisa não está bem.

Ao começar um dia, muitas pessoas pegam logo no telemóvel ou no smartphone e vão ver as novidades: o último comentário no facebook, a última mensagem de email recebida... Se calhar fazem-no antes de dar um bom dia pessoal aos colegas de trabalho ou àqueles com quem se cruzam nos transportes públicos ou no estabelecimento onde vão tomar o pequeno-almoço ou comprar o jornal.

Os dedos nos dispositivos eletrónicos e o olhar direcionado para os pequenos ecrãs são cenários comuns na sociedade atual, que já nos habituamos a ver. 

Ninguém duvida dos benefícios que estes aparelhos podem trazer para o dia a dia dos cidadãos. Mas a sua utilização deve ser medida e comedida, de modo que as pessoas não se tornem escravas dos mesmos.

Porque não ter a ousadia de ser diferente dos outros? Não há nada como experimentar!

As quebras de rotina são fundamentais para que saibamos gerir o emaranhado de relações em que nos vemos constantemente envolvidos. Vamos assumir um propósito concreto neste sentido?

Vamos marcar um dia na agenda para não ligar o correio eletrónico ou o facebook? Vamos escolher um dia ou um momento do dia para sair sem o telemóvel, aproveitando por exemplo para fazer uma caminhada ou para estar com familiares e amigos que tenham assumido um propósito idêntico? As conversas que surgirem terão certamente uma riqueza maior! Vamos escolher um tempo para, em casa, não ver televisão, não ligar o rádio e desligar o telemóvel, deixando-nos simplesmente estar com os que moram connosco? Vamos aproveitar um momento do nosso dia para, tão somente, nos deixarmos estar, sem nada para fazer? E, depois de vivermos essa experiência, pensemos naquilo que ela nos proporcionou.

O período de verão que se aproxima é propício para colocar em prática estes desafios, para  introduzir quebras na rotina que nos permitam efetivamente descansar desta pressão eletrónica, aproveitando para lançar um olhar novo sobre aquilo que nos rodeia, aproveitando para contemplar de modo diferente espaços por onde passamos todos os dias, quando vamos de olhos e dedos postos no tablet ou no smartphone, e para ouvir o que o silêncio tem para nos transmitir.

 

Cláudia Pereira

 

COLETIVISMO MENTAL QUE MATA A LIBERDADE

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 1. O desejo do Estado português de eliminar, através da escola estatal, a iniciativa privada no campo do ensino é uma evidência antiga, que só não via e não vê quem não quer. Um desejo mais manifesto quando, como agora, a esquerda radical e maçónica assume a governação; mais subtil e larvar quando o chamado “centro-direita” ocupa tais funções. Com a mesma lógica, porém: usar as escolas estatais como eucaliptos que secam tudo à sua volta, a bem ou a mal (leia-se: captando os alunos ou impedindo as escolas de iniciativa privada de os captar, através do seu estrangulamento financeiro, já que não ficaria bem nesta União Europeia eliminá-las por via legal).

 

2. A questão do ensino, porém, é apenas a manifestação de um problema mais vasto: a maioria dos intelectuais portugueses e, por via deles, da população portuguesa, permanece encerrada numa mentalidade estatizante e liberticida, ao velho e anquilosado estilo soviético. Temos iniciativa privada em praticamente todos os campos da vida económica e social, mas aquela é sempre olhada como um mal, menor nalguns casos, maior em muitos outros. Privado é sempre sinónimo de lucro e o lucro é, entre nós, pior que o pecado original. Por isso, tivemos mesmo de inventar as associações privadas sem fins lucrativos, para poderem passar a malha coletivista sem o carimbo pecaminoso do lucro. Como se alguma instituição, privada ou estatal, pudesse sobreviver sem gerar receitas que permitam o seu funcionamento! Quando não as gera, outros hão de fazê-lo para que ela possa sobreviver.

 

3. A mentalidade liberticida reinante leva mesmo a alguns dislates como este colocado em letra de forma num jornal nacional. Em artigo de opinião, uma reconhecida intelectual afirmava não reconhecer a liberdade dos pais para escolherem a escola dos filhos. E porquê? Porque os pais não são livres para escolher que os filhos frequentem as “madrassas” talibãs (neste caso, católicas) que proliferam neste país. E porquê? Porque os filhos têm direito a uma escola “pura”, livre de influências religiosas, laica por natureza, única capaz de formar cidadãos à imagem e semelhança do Estado laico que a criou. Quanto aos pais e às suas opções de vida, que se danem, ou melhor, se quiserem que os filhos sejam educados segundo os valores que professam... a Autora do artigo não o diz, mas provavelmente aconselhá-los-ia a emigrar. Ou talvez não, pois, se assim fizessem, quem iria pagar os impostos tão necessários para investir mais de 4,5 mil milhões de euros por ano na escola laica, com os brilhantes resultados que todos vemos à nossa volta?

 

4. Noutro artigo do género, defendia-se que não pagamos impostos para podermos escolher a escola que os nossos filhos frequentam. Pagamos impostos para o Estado criar uma rede de ensino estatal onde todos tenham lugar. Se eu quiser que o meu filho frequente outra escola, é problema meu: pago impostos e pago a escola onde quero colocar o meu filho. De facto, é isso que acontece entre nós. Não deixa, no entanto, de ser uma aberração. As pessoas vêm antes do Estado e este existe para as servir: os direitos humanos são direitos das pessoas, não são direitos que o Estado dá às pessoas. Os impostos não são dinheiro do Estado, são dinheiro de todos que deve ser usado servindo a todos, no respeito pelos seus direitos. E se eu tenho direito a escolher a escola do meu filho – e tenho! – tenho igualmente direito a que o Estado gaste com o meu filho, durante o ensino obrigatório, o que gasta com os filhos de todos os outros, seja qual for a escola que ele frequenta. O que for acima disso, isso sim, é problema meu. É por isso que, no final, os chamados “contratos de associação” não fazem sentido. O que faz sentido é o Estado respeitar o contrato que assumiu comigo – e com todos os cidadãos – quando me impôs uma determinada carga de impostos. E esse contrato diz que os meus direitos serão respeitados – caso contrário, o Estado fica fora da lei e torna-se ditadura, mesmo se democrática na forma.

 

Elias Couto 

 

 

 

Um Rebuçado, uma Nota, uma Citação

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Vamos ao rebuçado. Apetece começar assim: Era uma vez um rebuçado, com o título pomposo de Dr. Bayard, caído no cesto do ofertório de uma eucaristia dominical, que não conseguiu passar despercebido no meio dos cêntimos e das moedas de um e dois euros. Parecia estar fora do lugar mas não estava. Contava a história de um gesto e de uma “velhinha” simples, e, pela forma de vestir, pobre (foi-me dito) que, ao passar o cestinho das esmolas, meteu a mão ao bolso, onde não encontrou mais que aquele rebuçado. Era o que tinha para a partilha fraterna daquele ofertório. Admirei a simplicidade e a doçura do gesto. Há gestos que impressionam, e este impressionou-me quando a senhora que fizera a recolha do ofertório trouxe o cesto para a sacristia e me contou a história de como aquele Dr. Bayard fora parar ali. O pensamento fugiu para o templo de Jerusalém e para aquela viúva e aquela moeda envergonhada ao ponto de levar o Senhor a chamar os discípulos para sublinhar o gesto em si mesmo, pobre por fora, mas tão rico por dentro, onde as coisas têm valor e dizem mais de nós do que tudo o resto. Tive desejos de conhecer a pessoa, o que as circunstâncias não permitiram. Convencido de que o gesto merecia ser relevado, aqui o deixo neste espaço do AO. Gostaria que fizesse parte do “mundo à nossa volta”.

 

A Nota. Esta diz respeito à celeuma sobre os contratos de associação, o ensino público e privado de que fala a Constituição que nos governa e desgoverna, e a sua liberdade de escolha como se ensino e transmissão de conhecimentos, por um lado, e educação e formação de pessoas, por outro, fossem a mesma coisa. Julgava eu, pelos vistos erradamente, que o conceito de “Partido Educador do Povo” (entenda-se partido como cada um quiser; eu sublinho a palavra educador) tinha passado para as calendas gregas. Parece que não. A própria Constituição, feita sob a tutela do Conselho da Revolução e sem nunca ser referendada, enche a boca com “liberdades, garantias e direitos”, mas obriga-nos “livremente” a caminhar pelo estatismo dentro (ou é mesmo socialismo?), cantando alegremente “Uma gaivota voava, voava… Somos livres, somos livres…”. E assim vamos alegremente fazendo as nossas escolhas “livres” entre o ensino laico desta escola e o ensino laico daquela outra, por sua vez, estatal também. Ensino católico? Que o paguem; Educação cristã? Que a paguem. E assunto resolvido. Talvez esteja; só fica por resolver toda a ambiguidade entre ensino e educação, ambiguidade patente na própria linguagem. Enquanto a Constituição fala do direito ao “ensino” universal, tendencialmente gratuito, etc., o governo tem um ministério que o governa mas pondo-lhe à frente um ministro chamado da “educação”. Tudo dito. Tantas liberdades onde apenas falta a liberdade que interessa. É como estar dentro de uma casa onde tenho todas as “liberdades, direitos e garantias” possíveis e imagináveis, só não posso sair de casa. Tenho todos os direitos ao ensino, só que este tem de ser laico e estatal.

 

A Citação. A citação é tirada da Exortação Apostólica “A Alegria do Amor” (n. 84) do Papa Francisco: “O Estado oferece um serviço educativo de maneira subsidiária, acompanhando a função não-delegável dos pais, que têm o direito de poder escolher livremente o tipo de educação, acessível e de qualidade, que querem dar aos seus filhos de acordo com as suas convicções”. O nosso problema não se coloca ao nível do ensino. Aqui pouca liberdade há, visto que todos os estabelecimentos, sejam eles estatais, privados ou corporativos, têm de obedecer aos conteúdos curriculares; coloca-se, sim, ao nível da educação. Ou julgam que os pais escolhem a escola (quando podem) pelo ensino curricular? Não será pelo que vai para além disso, ou seja, o ambiente da escola, a disciplina, a segurança e o tipo de educação? Neste sentido, a citação referida pode bem ser um estímulo para os pais e educadores continuarem a sua luta na defesa daquilo em que acreditam.

 

A. da Costa Silva, s.j.