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Blogue do Apostolado da Oração

Na derrota do Estado Islâmico

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A Síria e o Iraque viveram anos trágicos às mãos dos vários jihadismos em confronto na região e também às mãos de governos ditatoriais ou corruptos e sectários. Nos últimos meses, porém, começou a ser evidente que o Estado Islâmico – o bando jihadista mais notório e bem sucedido nas últimas décadas – estava a caminho do fim, enquanto poder de facto, no terreno. A tal ponto que, nos últimos dias, os governos da Síria e do Iraque puderam proclamar vitória na luta contra o Estado Islâmico – e o Irão veio reivindicar a parte de leão nessa vitória; com alguma razão, diga-se de passagem, pois se alguém tirou vantagem das mudanças cataclísmicas ocorridas no Médio Oriente foi, além da Rússia, a potência persa.

 

No terreno, entretanto, as populações deslocadas pela guerra estão, em muitos casos, a ser silenciosamente substituídas por outras: na Síria, as milícias shiitas – financiadas pelo Irão e vindas do Iraque, do Irão, do Afeganistão – ocupam territórios outrora de maioria sunita e por lá irão ficar, com armas e bagagens; no Iraque, por seu lado, os cristãos, uma das minorias que mais sofreu com a guerra, encontram imensos obstáculos quando tentam regressar às aldeias e vilas de onde o Estado Islâmico os forçou a fugir.

 

É de prever que muitas das comunidades cristãs desenraizadas pela guerra – parte delas mais antigas do que as mais antigas existentes na Europa – nunca mais se consigam recompor nem recuperar as aldeias e vilas onde viveram até 2014. Assim está a acontecer na planície de Nínive, uma das poucas regiões do Iraque onde, antes da chegada do Estado Islâmico, ainda se mantinha uma presença significativa de comunidades cristãs.

 

Quase invisíveis e praticamente ignorados durante a guerra, os cristãos do Iraque e da Síria ficarão ainda mais ignorados e invisíveis agora que se anuncia a «paz». E, assim invisíveis, poderão extinguir-se «em paz», enquanto no Ocidente nos entretemos a dar caça à islamofobia e a outras fobias mais imaginárias do que reais, mas muito do agrado da intelectualidade reinante.

 

 

Elias Couto

 

 

Tinha tudo e estava só

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“São ricos e têm sucesso, mas sentem-se sós”, leio em cabeçalho de notícia. Fico a pensar em memórias recolhidas e ouvidas ao longo da vida. A pensar naquela pessoa amiga que tinha tudo, só não tinha saúde para desfrutar daquilo tudo; a pensar no desabafo daquele recém-formado estudante universitário, filho único de pais muito ricos (no caso um industrial), mas com vazio e solidão interiores: “Olhe, padre, tenho fortuna que chegue para a minha vida, mesmo sem 'fazer puto' (expressão sua), e ainda sobra para os meus filhos e netos, se os vier a ter”. Fico a pensar naquela resposta do Presidente Kennedy a quem lhe pediu opinião sobre a juventude americana do seu tempo: “Tem tudo. Só lhe falta uma coisa, mas infelizmente ‘essa coisa’ é a única importante e necessária”.

 

Estou a escrever estas notas em terras alentejanas, onde as lonjuras se perdem mergulhadas no silêncio e muitas vezes na solidão. Mas a frase foi pronunciada em Lisboa na recente “Web Summit” (“Uma espécie de feira de gente com ideias com gente com dinheiro”, escreveu alguém), e em entrevista naquele mundo das altas tecnologias e das inteligências artificiais a que chamam pomposamente “Startups”. Outras solidões, portanto, que não necessariamente a alentejana. E foi pronunciada por uma das altas figuras do conhecimento, da inovação e da criatividade que foram passando pelos palcos do “Altice Arena”.

 

Estamos de facto no mundo dos ricos e do sucesso mas que, por si, não resolvem necessariamente os problemas da solidão humana. Estamos no terreno dos algoritmos, terreno tão distante das operações simples do “somar e diminuir”, do “multiplicar e dividir” onde vive o homem comum, o homem “de carne e osso” na expressão querida de Unamuno. Aqui soma-se e diminui-se, multiplica-se e divide-se; aqui os que têm “mais” ainda vão dando aos que têm “menos” e os que sabem multiplicar ainda vão dividindo (partilhando) com os desafortunados da sorte. Aqui ainda se “divide” a herança recebida dos pais com a expressão “fazer as partilhas”; aqui ainda se diz “Divide lá isso comigo” e “Vamos dividir isto por todos”. Aqui ainda se fala dos “nossos semelhantes” com possibilidade de sermos todos irmãos e filhos do mesmo Pai. Se quisermos, claro. Ou formos capazes, evidentemente.

 

O Adão do livro do Génesis também tinha tudo mas estava só. Faltava-lhe alguém “semelhante a ele” para poder exclamar: “Esta é verdadeiramente osso dos meus ossos e carne da minha carne”. Faltava-lhe Eva para não continuar “só” no meio de tanta coisa e de tantas aves e tantos animais à sua volta; faltava-lhe companhia para poder “crescer” realizando-se como pessoa e para poder “multiplicar-se” construindo a sua história com novas histórias; faltava-lhe companhia para poder guardar e proteger aquele jardim que o Senhor viu ser bom e belo e lhes entregou para que o tratassem e cuidassem bem em benefício de todos. Afinal, faltava-lhe alguém com quem pudesse somar e diminuir, multiplicar e dividir. Faltava alguém “semelhante a ele” para, com esse alguém, poder ser “a imagem e semelhança de Deus” que é Amor. Tinha aparentemente tudo, só não tinha ninguém para amar e ser amado.

 

“Senhor, dai pão aos que têm fome e fome aos que têm pão” era a oração que o P. Américo gostava de fazer com os seus rapazes da rua. Oração que neste momento faço minha pelos ricos deste mundo (ricos por fora, mas com muito vazio por dentro), já que para os pobres, (“os pequeninos” do Evangelho) apenas peço, com a oração do Pai-Nosso, “o pão de cada dia”. Nem “mais”, nem “menos”. Chega e sobra.

 

A. da Costa Silva, sj

 

 

Eloquência do Silêncio

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Num mundo que parece cada vez mais agitado, barulhento, em stress desgastante, com muito barulho dentro e fora de nós, parece necessário cultivar mais o silêncio, a paz interior, encontrarmo-nos a nós mesmos e encontrar Deus fonte da paz e da serenidade.

 

Este apelo chegou a mim, de um modo muito veemente com o livro “Deserto na cidade”. O autor propõe-nos fazer deserto dentro de nós para nos encontrarmos com Deus, o Deus que fala no silêncio. O deserto não é um lugar, mas um estado interior que quer comunhão e intimidade com Deus, com a fonte da paz e da felicidade, da alegria e da graça. Fazer deserto dentro quando à nossa volta há barulho na vida, no trabalho, na cidade, no metro, etc. Aprender a arte do silêncio interior, de um recolhimento que nos dá paz e serenidade, que nos abre ao diálogo, que nos deixa escutar Deus, ouvir os murmúrios do Espírito, a voz do deserto, a paz que nos segreda e nos faz entrar nos mistérios do amor de Deus uno e trino. E neste silêncio até a oração se vai transformando, cada vez com menos palavras, menos pensamentos, mais escuta e comunhão. Deserto na cidade, na vida quotidiana, em casa, na rua, nas compras, no trabalho. No meio do reboliço e da multidão, recolher-se dentro do coração onde Deus está, como num sacrário. E aí entrar em comunhão permanente, mesmo sem palavras.

 

Tive a graça de encontrar agora outro livro, que me foi oferecido por uma pessoa amiga, da autoria do Cardeal Robert Sarah, que tem por título “A força do silêncio”. Páginas maravilhosas que nos convidam, neste mundo agitado e atribulado, a fazer uma cela no coração e estar com Deus. E esse silêncio não é egoísmo, é necessidade imperiosa para se conseguir equilíbrio, serenidade, fecundidade apostólica, força interior capaz de vencer dificuldades, tentações, nervosismos, stress.

 

Com a leitura dessas preciosas páginas, entendemos melhor porque Jesus ia para o monte para estar com o Pai e rezar, ia para o deserto para Se encontrar a Si mesmo e mergulhar no oceano infinito do amor do Pai. Percebemos melhor que sem silêncio interior diz-se orações mas não se faz oração verdadeira que leve à comunhão com o Amado, que nos mergulhe na intimidade do amor trinitário, que nos faça contemplativos na ação, na vida. Não no silêncio do convento, do mosteiro, dos claustros, mas no interior de nós mesmos, onde encontramos Deus e o seu amor, onde descobrimos que somos um sacrário divino da sua presença, onde podemos crescer na intimidade com Jesus e com a Trindade.

 

Uma dona de casa, que nas suas lides domésticas descobre a riqueza e a força deste silêncio, pode ser contemplativa e fazer do dia uma contínua comunhão com o Senhor, várias horas santas na intimidade com Jesus, enquanto passa a ferro, faz as refeições, etc. Um lavrador, em contacto com a natureza, em cima do seu trator ou de enxada na mão, pode ser contemplativo se descobre Deus no seu coração e na natureza que o rodeia e está sempre no esforço amigo de maior comunhão. E assim por diante: o estudante, o médico, o empregado da fábrica, etc. Todos os cristãos que descobrem o valor do silêncio e os seus frutos, a “sua força”, não querem outra coisa, não pensam em viver de outro modo, não desejam mais nada. Estar com o Amado, no silêncio recolhido do coração, fazendo deserto na cidade.

 

E parece que a vida se torna mais serena, mais feliz, mais alegre, mais pacífica, mais fecunda em dom e em graça, sobretudo na ação apostólica. E o Espírito que está no coração de cada um e de cada uma, nos ajudará a descobrir a graça do deserto interior, a graça do silêncio fecundo, pois no encontro mais permanente com Deus somos mais fortes, mais evangélicos, mais cheios da graça que é dom que nos transforma.

 

O Espírito, através dessa experiência do “deserto na cidade”, com a “força do silêncio”, nos fará perceber que o mundo é presença do Deus Criador, é lugar sagrado, é lugar contínuo de comunhão com o amor do Pai. E tudo, mesmo o ruído e o barulho, nos pode levar até Ele.

 

Dário Pedroso, sj

 

 



 

 

Profissionais da esperança

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Há presentes que todos podemos oferecer, por mais escassos que sejam os nossos recursos. Um tesouro, que não só podemos mas devemos sempre oferecer, é a esperança.

 

É certo que esperar é dos verbos de mais difícil conjugação, sobretudo quando acontece qualquer desgraça, como a dos recentes incêndios. Que fazer perante o cenário desolador de vidas e casas destruídas, da terra ensanguentada e queimada, como se o inferno do outro mundo tivesse imigrado para as nossas florestas e povoações? As lamentações nunca deram vida a coisa alguma, nem sararam feridas, nem construíram casas.

 

Como os amigos, a esperança é para as ocasiões. Para as noites escuras e os nevoeiros interiores, para as calamidades naturais e até sobrenaturais, para os reveses e insucessos, para os males sem remédio e os problemas angustiantes. Neste tipo de situações, precisamos de gritar, alto e bom som, a nós mesmos e aos outros: Vale sempre a pena esperar! Quem espera sempre alcança! Esperar contra toda a desesperança faz milagres!

 

A virtude da esperança é um tesouro caro. É preciso lutar para o alcançar. A esperança não é «a virtude dos fracos», como a desfigurou Nietzsche. Assim nos recordava o Papa Francisco: «A verdadeira esperança nunca custa pouco: passa sempre através das derrotas. A esperança de quem não sofre talvez nem sequer o seja. Não agrada a Deus ser amado como se amaria um comandante que arrasta o seu povo para a vitória aniquilando no sangue os seus adversários. O nosso Deus é uma luz débil que arde num dia de frio e de vento» (2017.05.24).

 

Que belo retrato nos faz Francisco da omnipotência de Deus, que é o poder do amor e não da força, que se solidariza com a nossa pequenez, para nos tornar grandes por dentro. Nesta linha, assim se refere à esperança Charles Péguy num seu poema: «A fé que mais amo, diz Deus, é a esperança… A esperança, diz Deus, essa sim causa-me espanto… Essa pequena esperança que parece não ser nada. Essa esperança menina… Só ela, guiando as outras, atravessará os mundos revoltos».

 

Todos deveremos especializar-nos em exercitar e oferecer esperança. A esperança é alavanca de um mundo melhor e de uma Igreja mais santa. É guindaste para levantar desilusões e pessimismos. É rampa de lançamento de projetos de solidariedade fraterna. É íman que nos atrai para construir o presente e preparar o futuro.

 

A nossa esperança não é de quem compra um bilhete de lotaria ou arrisca num jogo de azar. Não é a esperança de quem investe na bolsa ou faz prognósticos para um jogo de futebol. Tudo isso é tão falível. É uma esperança inabalável, porque assenta na fidelidade de Deus, como diz S. Paulo: é uma «esperança que não engana, porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações, pelo Espírito Santo que nos foi dado» (Rm 5, 5).

 

A história da desesperança dos discípulos de Emaús, depois da morte de Cristo, é paradigmática. Deles, como nos refere o Papa Francisco, «sai uma confissão que é um refrão da existência humana: “Nós esperávamos..., mas...”. Quantas tristezas, quantas derrotas, quantos fracassos existem da vida de cada pessoa. No fundo somos todos um pouco como aqueles dois discípulos. Quantas vezes na vida esperámos, quantas vezes nos sentimos a um passo da felicidade e depois ficámos desiludidos. Mas Jesus caminha com todas as pessoas desencorajadas que seguem por diante de cabeça baixa. E Jesus caminhando com elas, de maneira discreta, consegue voltar a dar esperança». Importa nunca desistir de esperar e de oferecer esperança.

 

O mundo à nossa volta será melhor se tu e eu formos profissionais da esperança.

 

 

Manuel Morujão, sj

 

 

Da Paciência

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«Digo-vos, pois:

pedi e ser-vos-á dado;

procurai e achareis;

batei e abrir-se-vos-á;

porque todo aquele que pede, recebe;

quem procura, encontra,

e ao que bate, abrir-se-á.» (Lc 11, 9-10)

 

Será a paciência a virtude que nos torna humanos? Será este o alimento mais indicado para a nossa vida, caracterizada por um longo e quotidiano caminhar? E será esta a mais nobre e necessária arte para a construção de uma casa, das relações, de um destino?

 

Um filósofo italiano, Giorgio Agamben, disse que «a arte de viver é a capacidade de nos mantermos numa relação harmoniosa com aquilo que nos escapa». Muita da nossa vida tece-se de provas que não escolhemos, de tempos que não definimos, de etapas e passagens cujas fronteiras não controlamos. A paciência associa-se frequentemente à dificuldade e até à desilusão. Mas não será a paciência uma arte positiva, destinada a construir e não apenas a suportar, a criar o novo e não somente a aceitar o presente?

 

Pedir, procurar e bater são movimentos que contêm em si a graça e a exigência da paciência. Pode ser que a paciência advenha da própria oração, e nos ensine a acolher os dons e bênçãos de cada dia, cuja seiva é bem mais fecunda do que todas as nossas projeções.

 

Precisaríamos, assim, de pedir a atenção, de procurar o discernimento, de bater à porta dos sinais. E o mistério de Deus poderia residir também aí, quando se abrem e alargam os limites estreitos da nossa visão e do nosso desejo.

 

Texto: Rui Vasconcelos

Imagem: Kazimir Malevich, 'White on White', 1918.

 

 

 

Coisas que a minha avó me ensinou

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Há um ano, acompanhei o corpo da minha avó até ao cemitério. Estava um dia quente, invulgar para outubro, se pensarmos nos típicos outonos que vivíamos há dez anos. Nunca mais me vou esquecer desse dia. Foi uma perda gigante, um golpe duro na unidade da família.

 

Sempre vi os meus avós juntos, raras eram as situações em que se separavam fisicamente um do outro. Essa constância foi sempre uma garantia, uma espécie de fio condutor num trajeto familiar com os seus naturais altos e baixos.

 

Assustou-me a rapidez com que ela partiu. Vi na cara do meu avô que também ele ficou espantado (atrevo-me a dizer que até ficou um pouco zangado). Como foi possível ela ter morrido assim, de uma hora para a outra?

 

O choque trouxe a tristeza e a tristeza um silêncio vazio. Mas nesse silêncio, recordei a voz da minha avó, o seu olhar, a sua mão pesada e treinada, que me mostrava como elevar a massa do pão de ló da cor da gema, amarela e húmida, até à cor da casca de ovo, branca e seca. Reparei nas expressões que passei a usar, frases que me vinham à cabeça ditas por ela, gestos e posturas. Como se o meu corpo não se quisesse esquecer, como se o meu cérebro se agarrasse a tudo o que lhe dizia respeito para a colocar no meu pensamento.

 

Penso que compreendi porquê. Hoje, temo mais pela vida do meu avô, penso mais nele, preocupo-me mais em estar com ele, tal como todos os seus filhos e netos. Neste fervilhar em volta do meu avô, envolvidos no seu cuidado, vi a vida dela consagrada em nós, seus descendentes. Vi-nos cumprir o nosso propósito, tal como a minha avó fez toda a vida: cuidar dos mais frágeis e dos mais velhos.

 

"Cuidar dos mais frágeis e dos mais velhos" aplica-se não só às pessoas idosas, mas também à calamidade que se abateu sobre a floresta portuguesa, descuidada pelas leis, maltratada pelos seus cuidadores. Não nos podemos esquecer que a nossa passagem na Terra é curta e que devemos criar condições para que as gerações futuras vivam num planeta saudável. Sem árvores, sem animais, sem recursos naturais, não seremos mais Portugal, seremos um amontoado de cinzas à beira-mar, como se fôssemos uma nação em guerra civil, a matar os mais frágeis e indefesos. Paremos para sentir a dor da perda, mas não esqueçamos o nosso dever de cuidar do meio ambiente.

 

Maria Betânia Ribeiro

 

Rancor, vingança e telenovelas

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O rancor é uma aversão funda a alguém, muitas vezes motivada pela dor que essa pessoa nos causou por querer ou mesmo sem querer. Depois essa dor cresce dentro de nós, é alimentada por nós e esse sentimento transforma-se em rancor, um sentimento que nos corrói.

 

Há pessoas que nos magoam de propósito. Provocam-nos uma ferida e nós ficamos a pensar naquilo sem termos desejo de nos libertamos daquele pensamento. E é essa ausência de desejo de nos libertarmos do pensamento que nos magoa que nos provoca o rancor. Ficamos agarrados ao pensamento que nos magoa; não fazemos nada para nos libertarmos dele e a dor vai-se adentrando, vai começando a roer lá dentro, vai-nos causando uma má disposição que emerge de tempos a tempos. Devemos distinguir esta situação daquela em que uma ferida é impedida de fechar devido à dor infligida permanentemente. É uma situação diferente cuja explanação não é para aqui.

 

E há pessoas que nos magoam sem querer. Há pessoas cujo bem-estar, cuja riqueza – ou qualquer outra coisa – nos magoa e se essa dor é alimentada por nós transforma-se em rancor. Há pessoas que vivem permanentemente feridas com o bem-estar alheio. Às vezes dentro da própria família. Uma vez ouvi uma pessoa dizer que quando vê um carro de luxo se lembra sempre de traficantes de droga. É a inveja disfarçada. É o rancor a sair cá para fora. A condição da dor se transformar em rancor é a pessoa sentir-se bem com essa dor. O rancor tem alguma coisa de masoquismo. A pessoa quer continuar a pensar na causa daquela dor. E assim o rancor vai-se transformando em azedume, vai tirando paz e mansidão ao coração, vai semeando a cizânia.

 

O rancor evita-se com alegria no coração. Uma pessoa alegre é menos propensa ao rancor. E à alegria no coração chega-se com a realização consigo próprio. Uma pessoa insatisfeita é muito mais propensa ao rancor. Uma coisa é nós sentirmos falta disto ou daquilo – até de certas qualidades – outra coisa é vivermos amargurados com isso. Devemos concentrar-nos numa vida realizada, numa vida feliz, numa vida cheia.

 

Mas para o cristão uma vida não é cheia sem Deus. Nós não afastamos o rancor com um truque psicológico. Afastamos o rancor com a oração, afastamos o rancor com a identificação com Deus, afastamos o rancor amando. Temos de pedir a Deus que nos transmita o seu amor e amar aquele que nos fere rezando por ele, em vez de mantermos a ferida aberta.

 

Gonçalo Miller Guerra, sj

 

 

A “correção filial” a Francisco: o que se passa na Igreja?

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Não é novidade na história da Igreja que o magistério dos Papas seja contestado por grupos de cristãos ou de teólogos. Para não ir mais atrás, vemos que os pontificados de Bento XVI e João Paulo II tiveram também os seus críticos. E não há problemas de maior em relação a isso, é um facto que testemunha a diversidade e a riqueza dentro da Igreja, quando estes assuntos não tocam o fundamental das verdades da fé. E que é, digamos de início, o caso presente. Não está em questão uma verdade de fé, mas sim uma proposta de discernimento pastoral. Mas, no caso desta “correção filial” por parte de um grupo de teólogos feita ao Papa Francisco a propósito da sua Exortação Apostólica “A Alegria do Amor”, o tema tem levantado mais alarido, por uma questão muito séria: é uma correção de heresias que se propagam e que foram produzidas pela mesma Exortação. Falar de “heresia” num contexto destes põe-nos em alerta, pois é exagerado. “Alegria do Amor” não é um documento dogmático, importa não confundir as coisas. E isso leva-nos então a perguntar: o que se está a passar?

 

Num esclarecedor artigo publicado há dias pelo Professor João Duque, no site da Arquidiocese de Braga, afirma-se que a questão de fundo aqui presente é a convivência de paradigmas teológicos muito diferentes e que é importante não colocar a questão a partir de divisões simplistas entre “conservadores” e “progressistas” ou quem gosta mais ou gosta menos do Papa Francisco. A questão não são simpatias pessoais ou as várias formas legítimas de estar na Igreja, com maior ou menor confronto. A questão aqui, a meu ver, é o modo como o magistério da Igreja se tem vindo a propor aos cristãos na sua vida concreta e a difícil desacomodação que isso tem trazido em vários setores da Igreja.

 

Aparece aqui a diferença que marca o pontificado de Francisco, numa categoria verdadeiramente essencial para entender as suas posições e propostas, as suas palavras e os seus gestos. Francisco move-se no paradigma da Misericórdia e as consequências práticas que este tem na vida da Igreja e do mundo. Um dos aspetos que decorre deste paradigma é o apelo ao discernimento das situações concretas. E é aqui, a meu ver, que entra a divisão: o verdadeiro discernimento não acontece quando tudo é preto ou branco, mas sim quando se assume a vida como uma multiplicidade de tons muito diferentes. Naturalmente, isto causa desconforto e algum desconcerto: “Quais são os critérios? Até onde se pode ir? Como se protege o essencial da norma?”. São questões que fazem todo o sentido e é obrigatório e honesto colocar... mas têm de se colocar! Mais fácil é tomar a posição fechada de “nisto não se pode tocar e ponto final”, fechando-se à partida ao exercício de colocar questões e, mais difícil ainda, experimentá-las no seu drama único e fascinante: a vida humana.

 

Não estará a ser pedida à Igreja, desde os principais representantes do magistério, até aos simples fiéis, uma abertura de espírito e de coração àquilo que, no fim de contas, é a única missão da Igreja: ser “sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano”? (LG 1) E que este sinal é sinal de reconciliação, de perdão, de vida, de autenticidade e coerência com Cristo e o seu Evangelho? O discurso da Misericórdia e as suas inquietações sempre causaram perturbação, é a história de Cristo e a dos grandes santos.

 

Acolhamos com generosidade o momento presente. Não tenhamos medo da misericórdia. E demos contínuas graças a Deus pelo dom da novidade que Francisco tem trazido à Igreja, rezando por ele e pela sua missão de Pastor universal.

 

António Valério, sj

 

 

 

Votar, uma forma de educar

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Nas últimas semanas, as aldeias, vilas e cidades portuguesas começaram a ter um colorido diferente. Rostos mais ou menos conhecidos foram aparecendo aqui e ali, no centro das rotundas pelas quais circulamos ou pendurados nos postes que iluminam os nossos trajetos diários. A algumas caixas do correio foram chegando ideias, promessas e balanços de trabalho feito nos últimos anos.

 

Com estratégias que vão oscilando entre o tradicional e o inovador, multiplicam-se contactos personalizados, visitas a locais de trabalho ou contactos diretos com as populações. Todos procuram ouvir os lamentos e auscultar as necessidades da população.

 

O cenário repete-se ciclicamente, a cada novo período eleitoral. Já estamos habituados a que seja assim. Com mais ou menos interesse, vamos vendo cartazes, ouvindo ideias e trocando impressões. Comentamos, criticamos, sugerimos. Fazemos “gostos” nas publicações das redes sociais, partilhamos notícias, fotografias e vídeos.

 

E quando chega o dia das eleições, que postura adotamos? Assumimos a responsabilidade e vamos exercer o direito de voto? Ficamos indiferentes e até aproveitamos para dar aquele passeio há tanto tempo desejado? Arranjamos compromissos supostamente inadiáveis que acabam por preencher o dia e fugimos a essa responsabilidade?

 

Independentemente da opção política de cada um, votar é um dever cívico, que os cidadãos a partir dos 18 anos devem exercer. Os cristãos também, pois ser cristão passa, entre outras dimensões, por esta participação ativa na vida da sociedade, por contrariar algum comodismo que parece querer instalar-se, por não deixar que sejam apenas os outros a decidir o rumo, neste caso, das freguesias e dos concelhos. Este domingo, 1 de outubro, temos, enquanto eleitores, uma oportunidade de mostrar que somos cidadãos preocupados com o país, oportunidade essa que não devemos desperdiçar.

 

Até podemos ser levados a pensar que o nosso voto é uma gota no oceano. Mas, como disse um dia Santa Teresa de Calcutá, sem essa gota “o oceano seria menor”. Se nunca formos exercer o direito – e o dever – de votar, o oceano acabará por secar e o mundo ficará deserto de ideias.

 

Para quem tem filhos, votar é também uma forma de educação, mostrando que existem situações ao longo da vida que exigem o nosso compromisso e que não devemos fugir das nossas responsabilidades, seja na família, no emprego, na vida em sociedade ou na vida de cristãos. A riqueza de uma sociedade passa por aqui... pelo empenho e dinamismo que os cidadãos vão mostrando.

 

Uma vez passado o ato eleitoral, a pouco e pouco, e muitas vezes ultrapassando os prazos devidos e estipulados, os cartazes vão sendo retirados das rotundas ou dos postes e as caixas de correio voltam a receber apenas o correio habitual. Os contactos personalizados com os cidadãos vão rareando e as necessidades das pessoas voltam a estar (praticamente) esquecidas... até às proximidades do ato eleitoral seguinte.

 

E nós, os cidadãos que votámos, como reagimos? Acomodamo-nos a este esquecimento por parte dos dirigentes políticos? Ou, convencendo-nos que temos de ser mais ativos e exigentes, não ficando limitados ao show off das pré-campanhas e campanhas eleitorais, cumprimos o direito – e o dever – de acompanhar o trabalho daqueles que foram eleitos? Não deixemos, por comodismo, que a nossa sociedade fique mais pobre.

 

Claúdia Pereira

 

D. António Francisco dos Santos

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Conheci o bispo D. António Francisco dos Santos quando ele era bispo auxiliar na diocese de Braga. A minha colaboração nos Estúdios Regionais de Braga da Rádio Renascença fez-me cruzar algumas vezes com ele. Ficou-me na memória um homem simples, próximo, de sorriso fácil e aberto. Vim a descobrir, também, o homem sábio e bom, que não esquecia nomes e, já bispo de Aveiro, perguntava sempre por mim, nos seus encontros frequentes, por motivos pastorais, com a minha esposa.

 

Não éramos amigos, no sentido habitual do termo, pois a nossa convivência não chegou a esse ponto. Éramos conhecidos que se estimavam à distância. Para mim, era também um bispo-pastor, no sentido mais forte do termo, pois nunca estava longe das pessoas a quem servia, na Igreja e na sociedade.

 

A notícia da sua morte, apesar da surpresa, não me deixou triste. Deixou-me um misto de saudade – aquele sorriso desarmante que me vai fazer falta, mesmo nas fotografias das agências de notícias ou nas imagens de televisão – e de paz, pois sei, com o conhecimento da fé, que o Senhor da Vida o conserva na sua mão segura.

 

Foi bom tê-lo conhecido, D. António! E é muito bom viver na esperança de, no dia para lá de todos os dias, o reencontrar no abraço eterno do Pai.

 

Texto: Elias Couto

Fotografia: Diocese do Porto