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Blogue do Apostolado da Oração

E A PALAVRA FEZ-SE CARNE

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Oh seio abençoado da Mãe-de-Deus

que espiritualmente se tornou

Mais amplo do que o céu!

Aquele que na verdade o céu não pode conter

tu o levas dentro de ti.

Oh abençoados seios da Virgem

que aleitaram aquele que nutre

tudo o que respira,

o Cristo feito carne

no seio de uma mulher que não conheceu homem.

Tornaste-te morada

do Artífice do Universo,

oh Virgem:

em ti na verdade habitou

o Senhor da Glória

que agora vem para ser dado à luz.

[...]

Oh multidão de anjos

no mais alto dos céus

com os pastores e os magos,

aclamais a Deus que vai ser dado à luz:

Glória a Ti.

Glória. Agora e para sempre.

[...]

Tudo o que respira

Louve o Artífice do Universo.

(Do oficio de vésperas de 24 de dezembro, Liturgia Bizantina)

 

O Natal, mistério extraordinário da alegria, é o mistério da encarnação de Deus, a geração admirável de Deus que escolhe e decide livremente revelar-Se e fazer de nós seus filhos. O Deus Omnipotente, o Criador dos céus e da terra, de todas as coisas, visíveis e invisíveis, o Deus das multidões dos anjos, das potências e das dominações, escolhe fazer estrada connosco, na nossa vida, fazendo-Se verdadeiramente um de nós. Seria de esperar que Deus, sendo assim tão potente, escolhesse nascer fazendo-Se rodear de sinais extraordinários, com relâmpagos e trovões e outras coisas prodigiosas. E Ele escolheu uma gruta, uma simples gruta, escolheu ser entregue e protegido pelos braços de uma jovem e aparentemente insignificante mulher. Ela, Maria, é a guardiã deste mistério, a guardiã de Deus que repousa nos seus braços.

 

Maria é a primeira que acredita, é a primeira a ver o milagre da nossa salvação. Ele, que os céus não podem conter, faz-Se homem, verdadeiramente homem, verdadeiramente Deus. Ele, o Logos de Deus, entrega o seu corpo, a sua segunda natureza ao cuidado desta mulher. Assim, Deus apresenta-nos na ternura e no afeto de uma mãe com o seu filho acabado de nascer, um símbolo, que todos podemos reconhecer, do seu amor por nós.

 

Festejar o Natal, no entanto, não é simplesmente festejar o «aniversário» de Jesus de Nazaré! Nós, através da celebração deste grande mistério da nossa salvação, somos transportados espiritualmente para a obra de salvação eternamente presente de Deus. Contemplar o presépio não nos pode fazer esquecer que estamos diante do mistério da divino-humanidade do Senhor. A pessoa de Jesus é constituída pela sua divindade e pela sua humanidade, indistintas e sem confusão. Isto é particularmente importante porque sem a encarnação de Deus não poderíamos ser seus filhos. Se Jesus não fosse verdadeiramente Deus não poderia ter divinizado a humanidade e não teríamos sido libertados do pecado. É por isso que Santo Atanásio, um dos Padres da Igreja, do século IV, diz que Deus «fez-Se homem para que nós fôssemos deuses; Ele revelou-Se através do seu corpo para que nós pudéssemos ter uma ideia do Pai invisível; Ele suportou a violência dos homens para que nós herdássemos a incorruptibilidade». Isto é imenso! É extraordinário! Deus faz de nós aquilo que nunca poderíamos sequer sonhar: filhos de Deus, chamados à eternidade incorruptível como corpo de Cristo!

 

Embora o Natal seja sem dúvida uma festa da alegria, não nos podemos esquecer que estamos diante de um mistério indissociável da Páscoa, formando com esta um só e o mesmo mistério da nossa salvação. A Igreja antiga, na verdade, representava estas duas facetas do mesmo mistério: representando o presépio, faziam-no com os sinais da Paixão de Cristo. Isto não por estarem centrados no sofrimento ou na dor, mas porque desde o início era claro que não poderíamos contemplar o mistério do Natal fora da totalidade do mistério da salvação. Ficaria incompreensível ou visto só como uma “historinha” para crianças. Este menino que agora está na gruta e podemos contemplar na sua fragilidade é o mesmo que sofre realmente na paixão e é o mesmo que ressuscita e, ressuscitando, vence a morte.

 

O Senhor veio para que a nossa alegria fosse plena e esta é verdadeiramente uma festa da alegria. Mas podemos correr o risco de reduzir o Natal só a uma festa da família, que é muito importante, mas não é tudo! Não nos pode distrair do grande mistério do Amor de Deus por nós: a alegria que o Senhor nos quer comunicar é muito maior do que a das luzes de Natal e das árvores enfeitadas, dos presépios com neve ou das trocas de presentes. Estas coisas são importantes, mas não podem esgotar a nossa celebração da entrada definitiva de Deus no meio de nós. Não nos podem fazer esquecer que Aquele que o céu não pode conter, Maria leva dentro de si. Aquele que é maior do que todo o Universo está ali naquele menino em envolto em faixas. Maria dá à Luz Deus, o Criador dos céus e da terra. Com os Anjos e os Santos e com «tudo o que respira», somos todos convidados a louvar o Senhor e a cantar: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados».

 

 

Que neste Natal o Senhor possa nascer no nosso coração e nas nossas famílias. Que Ele venha habitar e consolar os mais tristes e sós!

 

Um Santo Natal.

 

Marco Cunha, sj