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Blogue do Apostolado da Oração

Da Paciência

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«Digo-vos, pois:

pedi e ser-vos-á dado;

procurai e achareis;

batei e abrir-se-vos-á;

porque todo aquele que pede, recebe;

quem procura, encontra,

e ao que bate, abrir-se-á.» (Lc 11, 9-10)

 

Será a paciência a virtude que nos torna humanos? Será este o alimento mais indicado para a nossa vida, caracterizada por um longo e quotidiano caminhar? E será esta a mais nobre e necessária arte para a construção de uma casa, das relações, de um destino?

 

Um filósofo italiano, Giorgio Agamben, disse que «a arte de viver é a capacidade de nos mantermos numa relação harmoniosa com aquilo que nos escapa». Muita da nossa vida tece-se de provas que não escolhemos, de tempos que não definimos, de etapas e passagens cujas fronteiras não controlamos. A paciência associa-se frequentemente à dificuldade e até à desilusão. Mas não será a paciência uma arte positiva, destinada a construir e não apenas a suportar, a criar o novo e não somente a aceitar o presente?

 

Pedir, procurar e bater são movimentos que contêm em si a graça e a exigência da paciência. Pode ser que a paciência advenha da própria oração, e nos ensine a acolher os dons e bênçãos de cada dia, cuja seiva é bem mais fecunda do que todas as nossas projeções.

 

Precisaríamos, assim, de pedir a atenção, de procurar o discernimento, de bater à porta dos sinais. E o mistério de Deus poderia residir também aí, quando se abrem e alargam os limites estreitos da nossa visão e do nosso desejo.

 

Texto: Rui Vasconcelos

Imagem: Kazimir Malevich, 'White on White', 1918.

 

 

 

O DIÁLOGO NÃO NOS FAZ IGUAIS

Muito mais do que se estava à espera. Como é próprio do agir de Deus, que nos surpreende com os seus dons quando, ao colocarmos nas suas mãos os frutos do nosso trabalho e do nosso esforço, deixamos que seja Ele a fazer a sua parte.

A recriação do Apostolado da Oração, que tem vindo a ser feita nos últimos anos, conheceu, no passado dia 6 de Janeiro, um impulso muito concreto, com o lançamento de O Vídeo do Papa (www.ovideodopapa.org). A iniciativa, do Apostolado da Oração Internacional, apresentado oficialmente como Rede Mundial de Oração do Papa, divulgou o primeiro de uma série de vídeos mensais com o próprio Papa Francisco como protagonista, falando e pedindo orações pela intenção Universal do mês de Janeiro: “Para que o diálogo sincero entre homens e mulheres de diferentes religiões produza frutos de paz e de justiça”.

 

Resultado: em apenas 48h após o lançamento, O Vídeo do Papa, publicado no Youtube e nas várias plataformas do projeto (site, facebook e twitter), em 10 idiomas, teve mais de 2 500 000 visualizações e foi falado em mais de 450 meios de comunicação em todo o mundo, televisões, rádios, jornais e sites.

Não é novidade que o Santo Padre fale das suas intenções de oração. Aliás, ao longo dos 170 anos de história do AO, os vários pronunciamentos dos Papas acerca da missão específica desta obra foram sempre motivo de entusiasmo para todas as pessoas que faziam parte desta Rede Mundial de Oração, disponíveis para oferecer a própria vida quotidiana em favor das grandes preocupações do mundo e da missão da Igreja. Mas a novidade deste projeto e seu surpreendente impacto está no modo usado para o fazer: um vídeo pensado e realizado de uma forma profissional e extremamente cuidado.

Não sendo aqui o lugar para fazer uma análise detalhada do que está por trás da edição de um vídeo desta qualidade (a mensagem em si, a iluminação, a escolha das imagens, a música…) gostaria de chamar a atenção para alguns pormenores do vídeo que fazem dele um meio inexcedível não apena para comunicar um tema de oração sobre a intenção do Papa, mas também para criar um impacto que toca a vida e faz pensar sobre o modo como se imagina e leva à prática esta intenção.

A sucessão das diferenças entre as várias religiões é acompanhada pela voz de Francisco que vai fazendo progredir a ideia, já sublinhada por ele noutras ocasiões, de que “quem está seguro das suas convicções não tem necessidade de se impor ao outro: sabe que a verdade tem a sua própria força de irradiação” (Discurso num encontro de responsáveis religiosos em setembro de 2014). O desenrolar desta pequena narrativa culmina com a expressão de um poderoso acordo entre todos, com um “Creio no Amor” dito por cada um, assumindo as diferenças próprias, mas realizando um verdeiro encontro em vista do bem de todos. A imagem final fica na memória e questiona o coração: há tantas pessoas diferentes à minha volta, que vivem e pensam as coisas de um modo diferente do meu (não falando apenas de diferentes religiões) … isso é uma riqueza a ter sempre presente. Mas porque é que as diferenças são sempre vistas como divisão e motivo de conflito? Não será precisamente o encontro sincero destas diferenças que constrói a paz? A sensação com que se fica depois de ver o vídeo é, na verdade, a paz e uma motivação forte a construir algo juntos para o bem de todos. Um desafio para a vida concreta!

Alegremo-nos por este modo tão desafiador de rezar e, sobretudo, viver o tema das intenções, unidos ao que o Papa Francisco tanto deseja para o mundo. Na Rede Mundial de Oração do Papa – o Apostolado da Oração.

 

P. António Valério, sj

 

 

 

 

 

 

CANSAR-SE BEM

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Antes de tratar o tema, faço um apontamento que parece não ter a ver, mas que ajuda a clarificar. Na oração há dois tipos de distracções, que acontecem bastante e com as quais teremos de aprender a conviver. Há distracções sobre coisas pequenas e quotidianas, uma tarefa a fazer, um compromisso a realizar, uma coisa que está fora de sítio ou um barulho que não cessa. Para essas a solução é simples: com paciência e docilidade, afasto a distracção do pensamento, porque estou a fazer algo mais importante nesse momento. De novo na presença de Deus e continuo.

 

Há outras mais “teimosas”, persistentes, uma pessoa, algo que me foi dito, uma decisão que não tenho coragem ou vontade de tomar. Mas, tendo diante de mim um texto ou uma meditação, é nisto que devo estar, pois não tem a ver com o que se está a pensar. Ou talvez tenha muito a ver, porque não é o que se está a pensar que interessa, mas o que se está a sentir. E sentimos sobre coisas significativas – logo, se elas insistem, devemos dar-lhes atenção. Colocar a questão com verdade e falar disso com Deus, que é do que trata a oração, falar a Deus da minha vida. 

 

O mês de Junho é uma espécie de últimos quilómetros da maratona. Já se fez quase tudo, mas falta aquele pedaço até à meta das férias, quando cada passo já está mais carregado com desânimo e falta de vontade do que propriamente com o peso do corpo. Estar cansado é normal, faz parte da vida, como a distracção faz parte da oração. Mas, tal como as distracções, há bons e maus cansaços. Cansaços que vêm das coisas pequenas e cansaços que vêm das coisas grandes. Aos primeiros, é preciso responder com realismo, distância e um saudável humor, pois raramente essas contrariedades significam o fim do mundo. Os segundos cansaços, se percebemos que são causados pelas coisas certas, acabam por não ser um peso. Um trabalho que se abraça como missão, o ser pai ou ser mãe, marido e mulher, dedicação generosa ao outro. Cansa, é verdade, mas é um cansaço bom.


Nesta recta final do ano, cansemo-nos bem, mas com aquilo que importa; não deixemos que coisas pequenas ocupem mais espaço que as grandes. O que enche o coração não cansa, e, se ele fica cansado, é porque está cheio de coisas que deveriam não estar lá, as distracções, por exemplo.


António Valério, sj