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Blogue do Apostolado da Oração

UM AUXÍLIO

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«O Senhor Deus disse: “Não é conveniente que o homem esteja só; vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele.» (Gen 2,18)

O livro do Génesis refere-se à criação da mulher com o termo «auxiliar»; tal termo pode provocar em nós alguma dificuldade, pois trata-se de um termo, de certo modo, secundário: ainda que acentuando a semelhança com Adam, o varão, ficamos com a impressão de que a mulher surge em função de algo, secundarizada.

O jesuíta e biblista francês Jean-Louis Ska, num breve artigo publicado em 1984, ajuda-nos a perceber melhor o sentido deste adjetivo “auxiliar”, estudando o termo original hebraico, ‘ezer. E aqui deparamo-nos com um dado verdadeiramente magnífico.

Em primeiro lugar, o termo ‘ezer, “auxiliar” não aparece muitas vezes ao longo do Antigo Testamento: apenas 21 vezes. E, nessas 21 vezes, o termo refere-se quase sempre, não ao homem ou à mulher, mas ao próprio Deus. Vejamos apenas dois exemplos significativos, retirados do livro dos Salmos:

Salmo 121,1-2: «Levanto os olhos para os montes: de onde me virá o auxílio? O meu auxílio vem do SENHOR que fez o céu e a terra.»

Salmo 33,20: «A nossa alma espera no Senhor; Ele é o nosso auxílio e o nosso escudo.»

O termo “auxílio”, surge frequentemente em contextos nos quais o crente – ou o povo de Israel – se encontra em situações vitais de perigo, de grande risco, seja o caso de uma perseguição, opressão, fome ou angústia. Não se trata de pedir uma ajuda material, mas uma intervenção pessoal do próprio Deus. Ou seja: ‘ezer refere-se a um auxílio vital, fundamental, que tem a ver com a própria sobrevivência pessoal: não é algo acessório, de que possamos dispensar-nos. É um auxílio que só o próprio Deus pode prestar.

Assim, quando o texto do Génesis se refere à criação da mulher, está a pressupor uma situação de grave perigo para o homem, a quem só o próprio Deus pode salvar. De que perigo se trata? Da solidão: “Não é bom que o homem esteja só”. A solidão surge talvez como o perigo maior que afeta a vida do ser humano: em muitos sentidos, corresponde a um perigo de morte.

Por aqui podemos ver a importância que o texto bíblico atribui à criação da mulher: esta não é obra, ou posse, ou direito adquirido por parte do homem, mas constitui um dom que provém do próprio Deus. Porque a densidade, o significado de tal auxílio só pode ser divino. Ao atribuir-lhe o valor de auxílio, ‘ezer, o texto está a louvar a mulher com uma prerrogativa que o Antigo Testamento confere apenas a Deus. Porque, verdadeiramente, só Deus constitui o auxílio pleno, perfeito e definitivo ao ser humano.

Neste sentido, a intenção de Papa Francisco para o mês de Maio constitui uma inspiração: «Para que, em todos os países do mundo, as mulheres sejam honradas e respeitadas, e seja valorizado o seu imprescindível contributo social.» O texto bíblico recorda-nos que o seu valor, a sua vocação é divina: a ternura, o respeito, o cuidado, o saber acolher e aceitar a sua diferença constitui uma aprendizagem que nós - os varões - não poderemos deixar de aprender.

[Na imagem: Amoun, uma refugiada palestiniana de 70 anos, cega e originária da cidade síria de Aleppo, descansando por breves momentos numa praia após ter chegado à ilha grega de Kos, no mar Egeu. (Yannis Behrakis, Thomson Reuters – 12 Agosto 2015); o artigo referido de Jean-Louis Ska foi consultado na obra em castelhano El caminho y la casa, Estella 2005].

Rui Vasconcelos

 

 

 

 

 

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